O Brasil vive um momento importante para o turismo. O setor ganhou relevância econômica, aumentou sua presença internacional e passou a disputar com mais força a atenção de viajantes estrangeiros. Em 2025, o turismo movimentou uma parcela relevante da economia brasileira e o World Travel & Tourism Council projetou uma contribuição de US$ 167,6 bilhões para o PIB, equivalente a 7,7% da economia nacional. Competitividade turística costuma ser associada a infraestrutura, conectividade aérea, segurança, preço e qualidade dos serviços. Tudo isso importa. Mas existe uma dimensão menos objetiva que pode ser ainda mais difícil de construir.
Destinos precisam ter algo que justifique a escolha do viajante diante de dezenas de alternativas. Praia existe no Caribe, no Mediterrâneo e no Sudeste Asiático. Natureza exuberante está presente em diferentes continentes. Bons hotéis e resorts podem ser construídos praticamente em qualquer lugar. Cultura, história e identidade não podem ser reproduzidas com a mesma facilidade.
É justamente aí que o Brasil possui uma vantagem extraordinária. Poucos países reúnem uma formação cultural como a brasileira, resultado do encontro entre povos indígenas, africanos, europeus e diferentes movimentos migratórios. Dentro dessa construção, a presença africana ocupa um lugar central. Ela está na nossa música, na comida, na língua, nas festas populares, na arquitetura, nas relações sociais e na formação de cidades inteiras. Quando falamos em afroturismo, portanto, estamos falando também de um ativo capaz de diferenciar o Brasil em um mercado internacional extremamente competitivo.
Esse potencial começa a aparecer na própria estratégia de promoção do país. O Plano Brasis 2025-2027, da Embratur, colocou o afroturismo entre os segmentos prioritários da promoção internacional. Em 2025, o Rio de Janeiro recebeu a primeira edição sul-americana do Black Travel Summit, reunindo participantes do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Colômbia, Reino Unido e Benim. Em maio de 2026, a Embratur avançou mais um passo e passou a integrar a Black Travel Alliance, criando uma conexão direta com operadores, jornalistas, criadores e profissionais especializados no mercado internacional de viajantes negros. A movimentação mostra que cultura e ancestralidade começam a ser tratadas também como elementos de posicionamento turístico.
O desafio agora é transformar essa vantagem cultural em uma oferta turística cada vez mais estruturada. É necessário criar experiências, formar profissionais, conectar empreendedores aos canais de distribuição, facilitar a comercialização e fazer com que esses produtos cheguem às agências, operadoras e plataformas utilizadas pelo viajante. O próprio trabalho realizado pela Embratur em parceria com o CAF tem buscado mapear boas práticas e caminhos para internacionalizar a oferta de afroempreendedores brasileiros. Quando essa cadeia se profissionaliza, a cultura deixa de ser apenas um atributo de imagem e passa a participar efetivamente da economia do turismo.
Há também uma oportunidade de ampliar o mapa turístico brasileiro. A história afro-brasileira não está concentrada em uma única cidade ou região. Salvador ocupa uma posição fundamental, mas Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Pernambuco e inúmeros outros territórios guardam patrimônios e experiências capazes de atrair visitantes. Desenvolver essa oferta significa criar novos motivos para viajar pelo Brasil e distribuir melhor os benefícios econômicos do turismo.
A resposta não deveria estar apenas naquilo que temos em comum com outros países. Nossa maior força está justamente no que eles não conseguem oferecer. O mundo pode construir novos resorts, ampliar aeroportos e reproduzir modelos de entretenimento, mas não pode reproduzir a formação histórica brasileira, nossa relação com a diáspora africana e tudo o que nasceu dela.