Durante muitos anos tive comigo um dicionário dedicado às palavras de matriz tupi — isto é, de origem ou influência Tupi — incorporadas ao Português brasileiro. Era uma dessas preciosidades que, quanto mais folheamos, mais percebemos que falamos uma língua muito mais brasileira e mestiça do que geralmente imaginamos.
Um dia resolvi presenteá-lo à professora Marlene, esposa do meu amigo Hamilton, conhecido por todos como Amizade, filho de Tia Iva, que, por sua vez, foi quem me ensinou a fazer moqueca. Amizade, homem de fala mansa, é dono de um tradicional restaurante em Guaibura, Guarapari.
Marlene recebeu o livro com uma alegria que ainda guardo na memória e imediatamente encontrou para ele um destino melhor do que envelhecer na minha estante: disse que aquela preciosidade iria enriquecer suas aulas. Não sei quantos alunos acabaram conhecendo aquelas palavras, mas gosto de imaginar que o velho dicionário continuou fazendo aquilo para que os bons livros existem: passando conhecimento de uma pessoa para outra.
Hoje, quando me lembro daquele volume, adquirido numa livraria localizada na rua Duque de Caxias, compreendo ainda melhor o que havia dentro dele. Não era simplesmente uma coleção de curiosidades etimológicas — aquelas que revelam a origem e a história das palavras —, mas uma espécie de inventário da construção do Brasil por meio das palavras.
O Português, que Olavo Bilac chamava de “última flor do Lácio”, é uma das línguas derivadas do latim, idioma falado no Lácio (Latium), região da antiga Roma. A ideia de “última flor” alude ao Português como uma das línguas neolatinas — idiomas que nasceram do latim — que se formaram a partir do chamado latim vulgar. A palavra “vulgar”, nesse caso, não significa grosseiro ou de pouca qualidade: refere-se ao latim falado no cotidiano pela população, diferente daquele empregado nos textos eruditos e formais. A língua que atravessou o Atlântico nas embarcações portuguesas era extraordinariamente rica, com história e literatura já consolidadas, mas encontrou por aqui um pequeno problema prático: havia uma quantidade monumental de coisas que Portugal simplesmente não sabia como chamar.
A floresta estava cheia delas, os rios também, o mar tinha outras tantas e a mesa dos povos indígenas oferecia alimentos para os quais não existia correspondente satisfatório no vocabulário trazido da Europa. Diante daquele mundo desconhecido, não havia gramática que resolvesse a situação. Era necessário perguntar a quem já morava aqui.
Começou então uma das mais fascinantes incorporações vocabulares — a entrada de novas palavras no vocabulário de uma língua — da formação do Português brasileiro. As línguas indígenas, especialmente o Tupi antigo e outras línguas da família tupi-guarani — conjunto de línguas indígenas historicamente aparentadas —, forneceram palavras que nomeavam aquilo que os colonizadores estavam começando a conhecer. E há certa ironia histórica nisso: os portugueses chegaram como conquistadores, mas tiveram de começar as aulas de vocabulário praticamente na praia.
Podiam explicar uma caravela, uma coroa, uma espada, uma missa ou um imposto — nesse último assunto, aliás, experiência nunca lhes faltou —, mas bastava aparecer um jacaré para que a autossuficiência linguística, ou seja, a capacidade de uma língua de dispor dos próprios recursos para nomear aquilo de que necessita, sofresse um pequeno abalo. O animal já existia e os habitantes da terra já sabiam perfeitamente como chamá-lo. O Português fez então o que toda língua inteligente faz quando encontra uma palavra de que necessita: tomou-a emprestada e nunca mais devolveu.
E é quando começamos a abrir essas palavras que aquele velho dicionário se torna ainda mais fascinante. Capivara vem do Tupi kapi'wara, tradicionalmente interpretado como “comedor de capim” ou “aquele que come capim”. Não é apenas um nome: é praticamente uma ficha descritiva do animal.
O indígena observou o bicho, percebeu seu hábito alimentar e colocou a informação na própria palavra. Piranha é geralmente explicada a partir de elementos tupis associados a “peixe” e “dente”, numa referência evidente à característica que ninguém gostaria de conhecer de perto. Tatu vem do Tupi e está ligado ao animal que conhecemos pela extraordinária couraça. Jacaré também nos chegou das línguas indígenas e se acomodou de tal maneira ao Português brasileiro que qualquer substituição pareceria uma violência linguística. Imagine alguém à margem de um rio gritando: “Cuidado com aquele réptil crocodiliano!”. Quando terminasse a advertência, provavelmente o jacaré já teria resolvido a questão.
A lista dos animais parece não acabar. Arara é uma palavra indígena; tucano também. Sabiá, um dos nomes mais brasileiros que existem, chegou ao Português por intermédio do Tupi. Cutia percorreu caminho semelhante, assim como tamanduá. Este último é especialmente interessante porque sua formação é tradicionalmente relacionada à ideia de “caçador de formigas”, descrição que praticamente dispensa um tratado de zoologia.
O nome já conta o que o animal faz. Temos ainda o urubu, a jararaca, a sucuri, o quati e a seriema, entre muitos outros. Antes que alguém em Lisboa pudesse decidir como classificá-los, os povos que viviam aqui já os conheciam, diferenciavam e nomeavam. Portugal trouxe o idioma oficial; o Brasil indígena forneceu boa parte do catálogo.
Quando saímos da mata e chegamos à cozinha, a dívida aumenta. Mandioca é uma palavra de origem indígena e designa uma planta que já era fundamental para a alimentação muito antes da chegada dos europeus. Macaxeira e aipim, denominações usadas em diferentes regiões para a mesma raiz ou suas variedades, mostram como o vocabulário indígena continuou se ramificando dentro do próprio Português brasileiro.
Da mandioca veio também a tapioca, cujo nome deriva do termo Tupi relacionado ao produto obtido do amido da mandioca. Séculos depois, a tapioca conseguiu uma façanha social admirável: saiu da alimentação indígena, atravessou Colônia, Império e República e chegou aos cafés sofisticados das grandes cidades, onde às vezes aparece acompanhada de uma descrição gastronômica de quatro linhas e de um preço que certamente provocaria perplexidade em seus primeiros consumidores.
Pipoca é outro caso delicioso, inclusive linguisticamente. A palavra é tradicionalmente associada ao Tupi e à ideia de “estourar” ou “rebentar”, descrição perfeita do milho quando submetido ao calor. O nome nasceu do que acontece diante dos olhos: o grão estoura, transforma-se e está pronta a pipoca. Maracujá, igualmente de origem Tupi, é tradicionalmente explicado como “alimento em cuia” ou “fruto que se serve na cuia”, numa referência à aparência do fruto, embora existam variações nas interpretações etimológicas. Caju procede de termo indígena associado ao fruto que os habitantes da terra já conheciam muito antes de os europeus descobrirem que, além de saboroso, ele poderia produzir suco, doce, castanha e, muitos séculos mais tarde, até aparecer em cardápios metidos a sofisticados.
A natureza brasileira continuou ensinando Português aos portugueses. Ipê é nome de origem Tupi e acabou designando uma das árvores mais emblemáticas do país. Capim também chegou ao Português pelas línguas indígenas e tornou-se tão corriqueiro que sua origem praticamente desapareceu da consciência de quem fala.
Pitanga, tradicionalmente relacionada à ideia de “vermelho” ou “avermelhado”, descreve justamente a cor característica do fruto maduro. Jabuticaba é outro belo exemplo, embora sua decomposição etimológica — a análise dos elementos que formaram e deram origem à palavra — seja objeto de interpretações diferentes. O que importa é perceber que não estávamos simplesmente importando palavras aleatórias: muitas delas continham uma observação sobre a cor, a forma, o comportamento, o lugar ou alguma característica daquilo que estava sendo nomeado.
Mas é quando olhamos para o mapa que percebemos a verdadeira dimensão dessa herança. O Brasil inteiro parece ter sido escrito sobre uma camada linguística indígena que nenhum século conseguiu apagar. Basta observar os topônimos — nome técnico dado às palavras que identificam lugares, como cidades, rios, montanhas, bairros e regiões — espalhados pelo país. Muitos deles continuam repetindo, séculos depois, aquilo que os povos indígenas viram e disseram sobre a paisagem.
Iguaçu é uma palavra de origem Tupi tradicionalmente interpretada como “água grande” ou “rio grande”. Itaipu reúne elementos tradicionalmente relacionados à “pedra” e ao ruído ou estrondo das águas junto às pedras, embora existam variações de interpretação.
Ipanema, que dá nome a um bairro chique da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, costuma ser explicada como “água ruim”, “rio sem peixe” ou “água imprópria”, dependendo da análise etimológica adotada. É uma das grandes ironias produzidas pelo tempo: um dos endereços mais valorizados e internacionalmente famosos do Brasil pode carregar no nome indígena uma descrição nada promocional. Se fosse um empreendimento imobiliário contemporâneo, provavelmente algum departamento de marketing já teria pedido a troca.
A palavra ita merece atenção especial porque aparece em uma quantidade impressionante de nomes brasileiros. Em Tupi, está associada a “pedra”. Por isso encontramos Itabira, Itaipu, Itatiaia, Itamaracá, Itapema, Itapemirim, Itaguaçu, Itarana e dezenas de outros topônimos começando da mesma maneira.
Mas aqui é preciso algum cuidado. Não podemos brincar de traduzir nomes indígenas simplesmente juntando pedaços de palavras encontradas na internet. As línguas mudaram, os registros antigos apresentam variações e muitos nomes sofreram alterações fonéticas — mudanças na pronúncia e nos sons das palavras ocorridas ao longo do tempo. A etimologia séria exige cautela. Ainda assim, a recorrência de ita mostra como os povos indígenas utilizavam características físicas da paisagem para identificar os lugares, transformando pedra, água, mata, peixe, pássaro e montanha em referências geográficas.
Paraná é geralmente relacionado a uma expressão Tupi que transmite a ideia de “semelhante ao mar” ou “rio como o mar”, descrição perfeitamente compreensível diante da dimensão dos grandes cursos d'água brasileiros. Paraíba tem diferentes interpretações etimológicas, frequentemente associadas a “rio ruim” ou “rio difícil”, razão pela qual convém não apresentar uma única tradução como verdade definitiva.
Pindamonhangaba, palavra que gera pânico em muitos brasileiros diante de um ditado escolar, é tradicionalmente interpretada como “lugar onde se fazem anzóis” ou “lugar de fabricação de anzóis”. Aquilo que para nós parecia um gigantesco trava-língua era, em sua origem, uma informação sobre uma atividade praticada naquele lugar. O nome não era complicado; nós é que perdemos a chave para compreendê-lo.
No Espírito Santo, nem precisamos procurar muito. A língua dos primeiros habitantes continua diante de nossos olhos, escrita nas placas das estradas e nos nomes de nossas cidades, rios, praias e bairros.
Cariacica é um belo exemplo. Uma das interpretações históricas registradas para o nome parte da expressão indígena Cari-jaci-caá, tradicionalmente traduzida como “chegada do homem branco”. É quase uma pequena narrativa histórica escondida dentro do nome de uma cidade: em poucas sílabas ficou registrada a chegada daquele que vinha de fora.
Guarapari também guarda essa memória. Documentos históricos registram a antiga forma Guaraparim, e uma das interpretações associa guará a “garça” e parim a “manca”. Como ocorre com muitos nomes indígenas transmitidos durante séculos pela oralidade — a preservação e a transmissão de palavras, histórias, conhecimentos e tradições por meio da fala, de uma geração para outra — e posteriormente adaptados à escrita Portuguesa, existem divergências etimológicas. Seria, portanto, imprudente transformar uma interpretação em verdade absoluta.
Itapemirim pertence à enorme família de nomes iniciados por ita, palavra Tupi associada a “pedra”. O próprio Espírito Santo está repleto dessas pedras linguísticas: Itapemirim, Itaguaçu, Itarana e tantos outros lugares carregam no começo do nome uma palavra pronunciada muito antes de existir qualquer placa indicando o caminho.
Jacaraípe é outro caso interessante. Há uma explicação tradicional segundo a qual o nome estaria relacionado a um “caminho dos jacarés”, referência aos animais encontrados pelos indígenas que atravessavam aquela região. É uma interpretação preservada na memória local, embora, como acontece com tantos nomes antigos de origem indígena, deva ser apresentada como tradição etimológica — uma interpretação historicamente transmitida sobre a origem de uma palavra —, e não como tradução definitivamente comprovada.
E talvez esteja justamente aí a beleza desses nomes. Cariacica, Guarapari, Itapemirim, Itaguaçu, Itarana, Jacaraípe: nós os pronunciamos todos os dias e quase nunca percebemos que, escondidas dentro deles, sobrevivem palavras de povos que observavam esta terra muito antes da chegada dos portugueses.
Não precisamos viajar para a Amazônia em busca dessa presença. Ela está no mapa do Espírito Santo. Está nas placas das nossas estradas, nos bairros, nos rios, nas praias e nas cidades capixabas. Às vezes atravessamos um nome indígena de carro sem perceber que acabamos de atravessar também alguns séculos de história.
Talvez esteja aí uma das características mais bonitas das línguas indígenas que participaram da formação do Português brasileiro. Muitas de suas palavras parecem nascer da observação direta. A paisagem fala dentro do nome. O animal é identificado pelo que come, pelo que faz ou pela aparência; o rio, pelo tamanho, pela cor ou pela qualidade de suas águas; a árvore, pelo aspecto; o lugar, por aquilo que existe nele. Em vez de uma denominação burocrática, frequentemente encontramos uma pequena descrição condensada em poucas sílabas. A língua não servia apenas para colocar etiquetas sobre as coisas, mas para dizer alguma coisa a respeito delas.
É evidente que o Português brasileiro não nasceu apenas do encontro entre portugueses e indígenas. Seria historicamente absurdo esquecer a gigantesca contribuição das línguas africanas trazidas pelos milhões de homens e mulheres escravizados que participaram da formação do país. Palavras, ritmos, construções, alimentos, religiosidades e maneiras de falar de diferentes matrizes africanas penetraram profundamente em nossa língua. Posteriormente vieram influências de italianos, alemães, espanhóis, árabes, japoneses e tantos outros povos. O Português brasileiro fez aquilo que o próprio país fez ao longo de sua história: misturou, absorveu, adaptou e transformou.
Por isso, dizer que o Brasil “melhorou” o Português contém evidentemente uma provocação. Não existe campeonato mundial de idiomas em que possamos entregar a Portugal a medalha de prata e ficar satisfeitos com a de ouro. O Português europeu seguiu sua história e o brasileiro construiu a sua. Mas podemos afirmar que, ao chegar aqui, a língua Portuguesa precisou crescer para explicar um universo que desconhecia. Ganhou palavras, sons, imagens e maneiras de nomear a natureza que simplesmente não possuía. Portugal nos deu Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e uma língua magnífica; seria uma tremenda falta de elegância negar o presente. O Brasil apenas abriu a caixa, adicionou milhares de peças e resolveu personalizá-lo.
Talvez seja por isso que aquele dicionário que dei à professora Marlene tenha permanecido na minha memória depois de tantos anos. Ele demonstrava, página após página, que carregamos a história do país dentro da boca sem perceber. Quando alguém pede tapioca, compra mandioca, come caju, vê um tucano, ouve um sabiá, aponta uma capivara, atravessa Itapemirim ou segue em direção a Guarapari, está pronunciando fragmentos de uma história muito anterior ao Português brasileiro. São palavras que sobreviveram não dentro de museus, protegidas por vitrines, mas fazendo aquilo que uma língua precisa fazer para permanecer viva: sendo faladas.
Os portugueses chegaram acreditando que tinham descoberto uma terra. Encontraram povos que já haviam descoberto, observado, percorrido, classificado e, sobretudo, batizado praticamente tudo o que existia nela. Séculos depois, talvez esteja aí uma das mais saborosas ironias da nossa história linguística: os conquistadores conseguiram impor sua língua, mas essa mesma língua teve de aprender milhares de palavras dos conquistados para conseguir explicar o país que pretendia dominar.
A espada venceu muitas batalhas, a Coroa ficou com o território durante três séculos e o Português tornou-se nosso idioma, mas, quando chegou a hora de falar da capivara, do jacaré, da piranha, do tatu, do sabiá, do maracujá, da mandioca, da tapioca, da pipoca, do ipê, dos rios, das pedras e de boa parte dos lugares, quem acabou dando a última palavra foram os indígenas.
E talvez a professora Marlene tenha percebido isso antes de mim quando recebeu aquele velho dicionário e disse que iria levá-lo para suas aulas. Aquilo não era apenas um livro explicando de onde vieram algumas palavras. Era uma pequena prova de que uma cultura pode ser perseguida, silenciada e quase apagada e, ainda assim, permanecer escondida no lugar mais difícil de ser confiscado: na língua de quem veio depois.
Falamos Português, sim, e devemos muito a Portugal por isso. Mas basta abrir a boca para pedir uma tapioca, falar de uma capivara ou dizer que estamos indo para Itapemirim para que, sem perceber, façamos uma pequena reverência aos primeiros donos das palavras desta terra.
Portugal nos deu a língua. O Brasil indígena ensinou essa língua a falar brasileiro.