No dia 10 de outubro a discussão chama a atenção não apenas para quem já enfrenta sofrimento psíquico, mas também para a importância da prevenção.
Setembro abriu uma conversa necessária sobre saúde mental, mas, se essa conversa terminar quando o calendário mudar de mês, teremos perdido justamente a oportunidade de olhar para aquilo que acontece antes do adoecimento.
No dia 10 de outubro, o mundo volta sua atenção para o Dia Mundial da Saúde Mental e, diante da velocidade das transformações que estamos vivendo, está na hora de ampliar a pergunta. Além de perguntar quantas pessoas estão adoecendo, é nos perguntarmos individual e coletivamente, o que fazer antes de chegar ao adoecimento mental.
Há uma diferença importante entre falar de saúde mental e cuidar da saúde emocional. A saúde mental costuma ganhar visibilidade quando os sinais já estão instalados, quando a ansiedade se intensifica, quando o esgotamento compromete a rotina, quando dormir deixa de ser suficiente para recuperar o corpo ou quando aquilo que antes parecia administrável começa a ultrapassar os recursos internos de uma pessoa.
A saúde emocional nos convida a olhar antes. Olhar para a forma como lidamos com pressão, frustração, insegurança, medo, excesso de controle, mudanças e incertezas. Olhar para as histórias internas que construímos e contamos para nós mesmos diante daquilo que não conseguimos prever e, principalmente, para a maneira como respondemos emocionalmente a um mundo que parece mudar antes mesmo que tenhamos compreendido a mudança anterior.
Esse olhar se torna ainda mais importante em um momento no qual tecnologia, inteligência artificial, automação e novas formas de trabalho avançam em uma velocidade sem precedentes.
A tecnologia não é o problema e seria simplista transformá-la na causa do adoecimento contemporâneo. Ela amplia possibilidades, democratiza acessos, acelera processos e cria recursos extraordinários. O ponto que merece atenção é outro: a velocidade com que essas transformações chegam nem sempre corresponde à velocidade com que conseguimos emocionalmente assimilá-las.
Enquanto novas ferramentas prometem facilitar o trabalho, muitos profissionais convivem com a insegurança, se seu trabalho será assegurado daqui a alguns anos?
Profissões estão sendo redesenhadas, competências antes valorizadas começam a dividir espaço com outras, tarefas são automatizadas e conhecimentos que pareciam suficientes passam rapidamente a exigir atualização.
A ansiedade encontra terreno fértil justamente nesse espaço entre aquilo que conhecemos e aquilo que ainda não conseguimos prever, mas gostaríamos de ter controle.
Há mensagens chegando por diferentes canais, reuniões que se acumulam, decisões que precisam ser tomadas rapidamente, metas, indicadores, mudanças de rota e uma expectativa crescente de adaptação. Uma notificação interrompe uma tarefa, outra informação modifica a prioridade anterior e, antes que o pensamento se organize novamente, uma nova demanda ocupa aquele espaço.
Quando quase tudo parece urgente e o futuro parece incerto, o cérebro recebe poucas mensagens de segurança. É nesse ambiente que a ansiedade pode deixar de ser uma reação pontual e começar a ocupar um espaço cada vez maior na vida cotidiana.
Por isso, falar sobre saúde mental nas organizações sem falar sobre saúde emocional é começar a conversa tarde demais.
Prevenção também significa desenvolver recursos internos para lidar com aquilo que não controlamos, ampliar a capacidade de reconhecer emoções antes que elas determinem comportamentos, aprender a diferenciar uma ameaça real de uma antecipação criada pela própria mente e construir flexibilidade emocional para permanecer inteiro mesmo quando o cenário muda.
Esse cuidado não elimina desafios, não interrompe o avanço tecnológico e não torna o futuro previsível, mas transforma a forma como uma pessoa se posiciona diante dele.
E aqui existe uma responsabilidade importante para as lideranças.
Não basta preparar profissionais tecnicamente para as transformações que estão chegando. Será necessário prepará-los emocionalmente para viver em um ambiente no qual aprender, desaprender, rever certezas e reconstruir caminhos fará cada vez mais parte da vida profissional. Lembrando ainda que lideres também adoecem e muitas vezes em silêncio.
Uma empresa pode investir nas melhores tecnologias e, ainda assim, perder capacidade de inovação se as pessoas estiverem tomadas pelo medo de errar.
É por isso que saúde emocional não deveria ocupar um lugar periférico na estratégia das organizações.
A forma como uma pessoa interpreta pressão, mudança e incerteza interfere na qualidade das decisões que toma, na maneira como lidera, na capacidade de se relacionar e até na abertura para aprender algo novo. Antes que um comportamento apareça, existe um estado interno emocional que dá sustentação para o mesmo. Os resultados começam muito antes de aparecerem nas planilhas.
Talvez esse seja um dos grandes desafios deste momento histórico: a tecnologia continuará avançando e provavelmente fará isso cada vez mais rápido, mas desenvolvimento humano não pode ser tratado como uma atualização de software.
Pessoas precisam de tempo para compreender mudanças, elaborar perdas, construir novas referências, reconhecer habilidades que ainda possuem valor e desenvolver outras que passarão a ser necessárias.
Mais do que acompanhar máquinas cada vez mais rápidas, precisaremos formar seres humanos capazes de permanecer emocionalmente saudáveis diante da velocidade delas.
O Dia Mundial da Saúde Mental nos lembra da importância de olhar para quem já sofre, ampliar acesso ao cuidado e romper silêncios que ainda cercam o adoecimento mental, mas pode também nos provocar a fazer uma pergunta anterior: o que estamos fazendo para que menos pessoas precisem chegar ao limite para perceber que alguma coisa precisa mudar?