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Coisas que Molham

Roberto T. G. Rodrigues

Roberto T. G. Rodrigues

Escritor de literatura fantástica. Autor da série “A Era de Ouro da Magia”, atualmente trabalha no quarto volume da saga, “Silas”. Em setembro de 2026, lançou “E.O.N. – A Origem”, romance de ficção científica que parte de uma grande catástrofe ambiental para explorar questões sobre consciência, existência, crenças e reconstrução da sociedade.

06/10/2026

Particularmente, nunca gostei de chuva. Nem mesmo nos verões mais quentes, quando o céu escurecia de repente e começava aquela chuva forte de fim de tarde, eu não sentia vontade de sair para tomar banho de chuva. Sempre me incomodaram os raios, o trovão chegando sem bater à porta e, principalmente, o frio que vinha logo depois. Com o tempo, percebi que talvez minha implicância não fosse apenas com a chuva. Era com o frio mesmo. A chuva só levava a culpa por andar em má companhia. Isso não significa que eu ignore sua importância. Quando era adolescente, passei por anos em que a seca castigou minha cidade. Vi a preocupação crescer junto com a falta de água, e não havia nada de agradável naquela espera. A torneira, quando ameaça não cumprir sua única função, ensina rapidamente que chuva não é enfeite de paisagem. Ela é necessária, mesmo quando chega no pior momento possível.

Minha proposta para resolver esse conflito sempre me pareceu bastante razoável: poderia chover à noite. Todos estariam em casa, as roupas no varal já teriam sido recolhidas e ninguém precisaria disputar espaço na calçada com um guarda-chuva decidido a arrancar o olho de algum desconhecido. O céu faria seu trabalho, eu dormiria e, pela manhã, cada um seguiria a vida. Infelizmente, até hoje, ninguém da meteorologia me procurou para discutir a ideia. Talvez por isso eu nunca tenha gostado de levar guarda-chuva para a escola ou para o trabalho. Colocá-lo na mochila parecia uma declaração de derrota antecipada. Era como dizer: “Está bem, nuvem, você venceu”. Quando eu não levava, claro, chovia. Quando levava, passava o dia carregando aquele objeto comprido e inútil, fácil de esquecer e impossível de acomodar. O guarda-chuva tem uma capacidade curiosa de ocupar duas mãos quando só temos uma disponível.

Com os anos, comecei a notar outra coincidência. Algumas situações pouco agradáveis da minha vida aconteceram enquanto chovia ou quando o céu ameaçava desabar. Não sei se eram chuvas fortes ou verdadeiros temporais; a memória também exagera o clima quando guarda uma tristeza. O fato é que certas lembranças ficaram acompanhadas de nuvens escuras, ruas molhadas e aquela sensação de que o dia inteiro precisava de uma toalha. Na vida, os temporais não respeitam previsão. Chegam na forma de uma perda, de uma doença, de uma decepção ou de uma notícia que muda tudo. Você pode estar preparado, com capa, botas e discurso otimista, e ainda assim termina encharcado. Em outras ocasiões, a tempestade surge quando não há abrigo algum. É nesse momento que descobrimos que maturidade não é permanecer seco. É conseguir seguir em frente sem fingir que a água não está gelada.

Não gosto da ideia romântica de que todo sofrimento é necessário. Algumas dores apenas doem, e ninguém deveria precisar agradecer por elas. Mas reconheço que atravessar dificuldades nos ensina sobre nossos limites, sobre quem permanece ao nosso lado e sobre a força que aparece quando já imaginávamos não ter nenhuma. Crescer, muitas vezes, é aprender a procurar abrigo sem sentir vergonha e a oferecê-lo quando outra pessoa começa a se molhar. Em A Bê Cê da Poesia, escrevi sobre “o frio do vento minuano” e “o cheiro da terra depois da chuva”. Talvez essa seja a prova de que até aquilo de que não gostamos pode guardar beleza. Continuo preferindo observar essa beleza pela janela, com uma bebida quente nas mãos e uma distância segura de qualquer relâmpago. A poesia não exige que eu fique ensopado.

Ainda não aprendi a gostar de chuva, e muito menos de frio. Também não passei a carregar guarda-chuva com disciplina exemplar. Porém, hoje entendo melhor o que ambos representam. Há coisas necessárias que chegam sem pedir licença, atrapalham nossos planos e deixam marcas no caminho. Não controlamos o céu nem a vida. Podemos apenas escolher como atravessar o temporal e, se possível, chegar ao outro lado com algum humor, alguma maturidade e os sapatos um pouco menos molhados.

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