Todos os dias desfilo pelas ruas da Praia do Canto acompanhado de Elke Maravilha, minha spitz alemã. Digo “acompanhado” por uma questão de dignidade, porque, na prática, quem determina o ritmo, as paradas e provavelmente até o roteiro é ela.
Elke recebeu esse nome em homenagem à personagem inesquecível que atravessou décadas desafiando convenções. E devo reconhecer que a minha também é uma maravilha. Amorosa, companheira, esperta e ciumenta. Muito ciumenta. Qualquer manifestação de carinho dirigida a terceiros precisa passar previamente pelo departamento de controle de afetos de Elke, que funciona 24 horas por dia e não admite concorrência.
Nosso passeio tradicional faz uma espécie de contorno pela Praia do Canto. Passamos pelas ruas Joaquim Lírio, Elesbão Linhares, Aleixo Netto, Eugênio Netto, pegamos as avenidas Desembargador Santos Neves e Saturnino de Brito até chegar à Rua Chapot Presvot. Não é apenas uma caminhada. Ao longo do caminho existem personagens, e talvez sejam eles que façam um bairro ser realmente um bairro.
Na Eugênio Netto, esquina com Fortunato Ramos, há duas paradas obrigatórias: uma na livraria Torre de Papel, onde recebe afagos da minha amiga Marta. Depois, na banca do Baiano, que vende capinhas para celular e que agora também comercializa frutas da época.
Mais adiante, nas proximidades do restaurante Tero, encontramos Rafael, um desses “guardas” comunitários que fazem parte da paisagem urbana sem constar dos cartões-postais. Na Chapot Presvot está seu Adilson, um senhor que vem de Viana trazendo pães e outras gulodices para vender, principalmente a quem trabalha no bairro e saiu de casa sem tomar café.
Seu Adilson talvez conheça melhor a pressa da cidade do que muito especialista em mobilidade urbana. Enquanto alguns estudam fluxos, deslocamentos e estatísticas, ele sabe uma coisa mais elementar: de manhã cedo existe gente com fome.
Ultimamente, porém, Elke e eu alteramos o percurso. Seguimos pela Joaquim Lírio em direção à nova passarela construída margeando o Canal de Camburi.
E aqui preciso cometer uma imprudência cada vez mais rara: reconhecer uma obra pública bem-feita.
A passarela realizada pela administração do prefeito Lorenzo Pazolini ficou muito boa. Bonita, agradável e convidativa para caminhar. Ficou uma joia, como se dizia antigamente, quando “joia” ainda era elogio e não precisava de curtida, coraçãozinho ou emoji para ser compreendido.
Há apenas uma recomendação.
Leve óculos escuros.
Em dias de muito sol, o piso impecavelmente assentado reflete uma luminosidade capaz de fazer o caminhante imaginar que chegou mais perto do astro-rei do que recomendaria a prudência. Nada grave. Óculos escuros resolvem. E seria injusto reclamar: durante tantos anos reclamamos de buracos nos passeios públicos; agora que o piso está perfeito, descobrimos que ele brilha demais. O cidadão é realmente um ser difícil de satisfazer.
Antes de chegarmos lá, Elke ainda recebe os afagos de Paulinho, outro “segurança” comunitário, figura conhecida na região e presença constante nas proximidades da padaria e do comércio localizado entre as ruas Afonso Cláudio e João da Cruz. Sob a égide de Paulinho, é o local mais seguro da ilha.
E foi nesse novo caminho que, dias atrás, uma mulher caminhava alguns metros à minha frente.
Não sei seu nome. Não sei onde mora. Não sei de onde vinha nem para onde ia. E talvez seja exatamente por isso que ela tenha ficado na minha memória.
Tinha os cabelos em desalinho, vestido colorido estampado com pequenas flores e folhagens, sandálias de couro e algumas tatuagens espalhadas pelo corpo. Havia nela alguma coisa familiar, embora eu tivesse certeza de nunca tê-la visto.
Foi então que reparei em seu ombro esquerdo.
Ali havia um hibisco.
Flores amarelas e vermelhas desenhadas na pele. A tatuagem parecia antiga. O tempo havia feito nela aquilo que faz conosco sem pedir licença: mudara os contornos.
As flores estavam murchas.
Não as flores verdadeiras, evidentemente, mas aquelas que alguém, provavelmente muitos anos antes, decidira eternizar sobre a pele.
E descobri naquele instante uma pequena ironia.
Tatuamos o corpo talvez imaginando desafiar o tempo. Escolhemos uma imagem, entregamos a pele à agulha e decretamos silenciosamente: isto ficará aqui para sempre.
Fica.
Mas envelhece conosco.
Com os anos, o corpo perde colágeno, gordura e elasticidade. A pele se modifica, os músculos mudam, os contornos se acomodam à passagem do tempo. O desenho continua lá, mas já não é exatamente o mesmo.
O hibisco daquela senhora continuava florescendo. Apenas aprendera a envelhecer.
Foi ele que me levou, sem pedir autorização, para cinquenta anos atrás.
De repente, não estava mais caminhando pela orla da Praia do Canto. Minha memória havia me transportado para a Praça General Osório, em Ipanema, onde a Feira Hippie se transformou num dos símbolos de uma época.
Nos anos de 1970, aquilo era um universo.
Artistas, artesãos, hippies, curiosos, turistas, gente procurando alguma coisa e gente que provavelmente não estava procurando absolutamente nada. Havia trabalhos espalhados, objetos feitos à mão, pinturas, esculturas, couro, pedras, metais, colares e brincos.
A palavra “hippie” carregava naquele tempo um significado muito diferente do atual. Cabelos compridos, roupas coloridas, sandálias, artesanato e tatuagens podiam ser suficientes para despertar desconfiança numa sociedade que ainda julgava caráter pelo comprimento do cabelo.
Conheci dois personagens daquele mundo.
Um deles era Paulo Albuquerque.
Paulo era artesão nato. Produzia brincos e colares que despertavam enorme interesse. Tinha habilidade nas mãos e criatividade de sobra. Poderia corresponder perfeitamente à imagem que muita gente fazia de um hippie da Feira de Ipanema.
Só havia um pequeno problema para quem gostava de encaixar pessoas em estereótipos.
Paulo morava na Barra da Tijuca, numa mansão com piscina e ampla área de lazer.
O capitalismo, pelo visto, nunca se incomodou muito com colares artesanais.
Meu outro conhecido era Carneirinho.
Até hoje não sei seu nome verdadeiro. Nunca perguntei. Também não fazia muita diferença. Todo mundo o conhecia pelo apelido, nascido de uma cabeleira que lembrava o dorso encaracolado do animal.
Carneirinho era artista. Produzia esculturas, trabalhava com as mãos e possuía aquele tipo de criatividade que não depende de diploma pendurado na parede.
Morava num endereço um pouco menos celebrado pelas colunas sociais cariocas.
A Rocinha.
Paulo e Carneirinho pertenciam aparentemente ao mesmo universo, frequentavam o mesmo ambiente e faziam arte. Um voltava para uma mansão na Barra; o outro subia para a Rocinha.
Talvez aquela feira tenha me ensinado, sem que eu percebesse na época, que aparência é uma péssima maneira de calcular a conta bancária, a inteligência, o talento ou a história de alguém.
As tatuagens sofreram preconceito semelhante.
Durante muito tempo foram associadas, no imaginário popular, a marinheiros, presidiários, marginais, rebeldes e pessoas que supostamente não haviam encontrado lugar no mundo respeitável. Houve época em que aparecer para uma entrevista de emprego com uma tatuagem visível podia significar encerrar a entrevista antes mesmo de ela começar.
O mundo girou.
Hoje médicos, advogados, jornalistas, empresários, professores, atletas e executivos carregam desenhos pelo corpo. A tatuagem saiu das margens e entrou nos escritórios, consultórios, academias, universidades e salas de reunião.
O que antes podia ser interpretado como rebeldia tornou-se também estética, memória, homenagem, identidade ou simplesmente vontade.
Talvez daqui a algumas décadas ninguém compreenda muito bem por que houve tanto preconceito.
Voltei dessas lembranças quando percebi que a senhora do hibisco já estava mais distante.
Ela continuou sua caminhada.
Eu continuei a minha.
Elke, provavelmente alheia às minhas incursões pelos anos 1970, ocupava-se de assuntos mais importantes: cheiros, árvores, outros cachorros e a permanente fiscalização de quem ousava aproximar-se de seu dono.
Olhei novamente para a mulher.
O vestido florido balançava com o vento. As sandálias seguiam tranquilamente pelo passeio. No ombro, aquele velho hibisco amarelo e vermelho carregava silenciosamente uma história que jamais conhecerei.
Talvez ela tenha sido hippie.
Talvez nunca tenha chegado perto da Praça General Osório.
Talvez tenha feito aquela tatuagem aos 20 anos, aos 40 ou aos 60.
Não importa.
Aquela flor me levou até lá.
E, enquanto Elke me puxava de volta para o presente, pensei que algumas coisas resistem ao tempo de maneira curiosa.
A Feira Hippie continua na Praça General Osório. Paulo e Carneirinho permanecem na minha memória. As tatuagens deixaram de escandalizar boa parte da sociedade. A Praia do Canto ganhou uma passarela nova. Eu continuo caminhando.
E os hibiscos?
Os hibiscos também envelhecem.
A diferença é que alguns envelhecem no jardim.
Outros, no ombro de alguém.