Estava lendo alguns documentos sobre a Apex Partners quando me vi fazendo uma longa viagem pelo tempo. Depois de 65 anos de atividade profissional, aprendi que os fatos mudam de endereço, os personagens trocam de nome, mas certas lições parecem determinadas a se repetir.
Meu primeiro emprego foi em um banco, em 1961. Eu tinha 14 anos. Era o século XX, mais precisamente sua segunda metade. Pode parecer uma observação banal, mas não é. O mundo funcionava em outro ritmo. As notícias viajavam mais devagar, os negócios eram fechados com apertos de mão e a palavra empenhada ainda ocupava posição de destaque nas relações comerciais.
Foi naquele ambiente que comecei minha vida profissional.
Ao longo das décadas seguintes, fui passando de um emprego para outro até finalmente encontrar meu lugar. Sem formação universitária naquela fase da vida, sem especializações e sem qualquer qualificação que me permitisse planejar uma carreira em linha reta, aceitei as oportunidades que surgiam pelo caminho. Trabalhei em banco, vidraçaria, comércio, empresa de energia elétrica, vendi livros para universitários recém-aprovados, batendo de porta em porta com coleções e enciclopédias debaixo do braço. Passei também por uma exportadora de café, rádio, televisão, revista e jornal.
À primeira vista, essa sucessão de empregos pode parecer falta de rumo. Na realidade, foi uma longa fase de aprendizado. Cada atividade deixou uma lição. Cada empresa apresentou uma nova forma de enxergar o mundo dos negócios. Cada mudança acrescentou experiências que dificilmente seriam encontradas em uma sala de aula.
Não havia planejamento sofisticado, orientação de especialistas ou estratégias cuidadosamente desenhadas. Eu caía, levantava e aprendia para não cair novamente. Havia apenas a necessidade de trabalhar, aprender e seguir em frente. Com o tempo, descobri que não estava mudando apenas de emprego. Estava procurando meu lugar no mundo.
Foi uma trajetória construída na prática. E a vida prática, embora menos elegante do que os manuais de administração, costuma ensinar lições muito mais duradouras. Aprendi, por exemplo, um velho ensinamento do mercado: quando um otário e um esperto se encontram, sempre sai negócio.
Vi empresas nascerem em salas modestas e se transformarem em referências. Vi negócios considerados sólidos desaparecerem sem aviso prévio. Conheci empresários brilhantes, administradores competentes, sonhadores incorrigíveis e alguns que confundiam autoconfiança com imunidade aos riscos.
E, entre todas as lições que o tempo me ofereceu, uma permanece intacta: produzir riqueza é difícil. Administrar o dinheiro dos outros costuma ser muito mais.
O Espírito Santo sempre revelou extraordinária capacidade para gerar riqueza. O café construiu fortunas. O comércio consolidou grupos empresariais respeitados. A mineração, a siderurgia, a logística portuária, transporte de passageiros e o setor de rochas ornamentais projetaram empresas capixabas muito além das fronteiras do Estado.
Os capixabas aprenderam a plantar, produzir, vender, exportar e prosperar.
Produzir riqueza, definitivamente, nunca foi o nosso problema.
A questão parece começar quando alguns desses empreendedores resolvem ingressar no fascinante universo da administração de recursos de terceiros.
A observação contém uma dose de ironia, admito.
Mas também contém uma dose considerável de história.
Durante décadas, a Corretora Cabral desfrutou de prestígio e credibilidade junto a investidores que enxergavam naquela instituição um porto seguro para suas economias. Em uma época em que a confiança era considerada quase uma garantia financeira, poucos imaginavam que reputação e segurança patrimonial nem sempre caminham na mesma velocidade.
A Lima & Lima também ocupou posição de destaque. Reunia nomes conhecidos, respeito no mercado e a expectativa de que o Espírito Santo consolidasse instituições financeiras capazes de atravessar gerações.
Mas o futuro possui uma característica curiosa.
Ele raramente demonstra respeito pelos planos elaborados no presente.
O caso do Banco Santos Neves talvez tenha sido o mais emblemático de todos. O sobrenome carregava história. O banco cresceu, expandiu operações e alimentou o orgulho daqueles que acreditavam na capacidade do Espírito Santo de possuir uma instituição financeira privada forte, competitiva e duradoura.
Parecia o nascimento de um campeão regional.
Mas o mercado financeiro tem um hábito desagradável: não se impressiona com sobrenomes ilustres, fotografias emolduradas ou discursos otimistas pronunciados em solenidades.
O mercado prefere números.
E números possuem um defeito cruel.
Não respeitam biografias.
Décadas depois, a Dacaza surgiria como uma nova promessa. Cresceu, expandiu operações e passou a ser apontada como exemplo do dinamismo empresarial capixaba. Para muitos observadores, representava a demonstração de que o Espírito Santo havia conquistado espaço em um segmento tradicionalmente dominado pelos grandes centros econômicos do país.
Mais uma vez, a realidade resolveu escrever um roteiro diferente daquele imaginado pelos otimistas.
Naturalmente, seria injusto atribuir essas histórias a alguma característica exclusivamente capixaba. O Brasil inteiro está repleto de instituições financeiras que nasceram cercadas por expectativas grandiosas e terminaram ocupando espaço apenas na memória dos investidores.
As referências históricas aqui mencionadas não constituem julgamento sobre pessoas, famílias ou empresas. Servem apenas como exemplos de uma realidade observada ao longo de décadas, em um setor onde sucesso e fracasso costumam caminhar muito mais próximos do que imaginam os entusiastas do mercado.
Ainda assim, a sucessão de episódios desperta reflexão.
Enquanto aprendemos a exportar café para o mundo, movimentar minério, operar portos, produzir aço, transformar granito em riqueza e construir grupos empresariais admirados, continuamos encontrando dificuldades em uma atividade aparentemente simples: administrar recursos que pertencem a terceiros.
Talvez porque produzir riqueza exija talento, coragem e visão empresarial.
Administrar o patrimônio dos outros exige tudo isso e mais alguma coisa.
Exige disciplina permanente.
Exige controles rigorosos.
Exige capacidade de reconhecer limites.
E exige uma virtude cada vez mais escassa nos ambientes onde circulam grandes fortunas: a humildade.
Depois de 65 anos de atividade profissional ininterrupta, aprendi também que os grandes tropeços raramente chegam anunciando suas intenções. Eles costumam aparecer discretamente, vestidos de oportunidade, acompanhados por projeções otimistas e pela confortável sensação de que o sucesso acumulado no passado oferece proteção contra os riscos do futuro.
O tempo demonstra que não oferece.
Os fatos mudam de endereço.
Os personagens trocam de nome.
As empresas surgem, crescem e desaparecem.
Mas certas lições insistem em permanecer.
Ao final dessa viagem pela memória, talvez a diferença entre criar riqueza e administrar riqueza seja mais simples do que parece.
A primeira atividade depende da capacidade de enxergar oportunidades.
A segunda exige a sabedoria de jamais esquecer que o dinheiro em questão pertence a outra pessoa.
E essa, como a história demonstra com admirável persistência, continua sendo uma das tarefas mais difíceis do mundo dos negócios.