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Mudanças de locais de votação atingem milhares; impacto eleitoral ainda é desconhecido

Justiça Eleitoral confirma transferências em diferentes estados, mas falta cruzar as seções afetadas com os votos de Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno

Vitória News 19/10/2026 07:45
Mudanças de locais de votação atingem milhares; impacto eleitoral ainda é desconhecido
Foto: Lula Marques/ABr

A mudança de locais de votação às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 levanta dúvidas sobre a comunicação aos eleitores e os possíveis efeitos sobre o comparecimento às urnas. Levantamentos divulgados nos últimos dias apresentam números diferentes de seções transferidas, enquanto a identificação completa das mudanças e dos resultados eleitorais anteriores ainda depende de informações detalhadas da Justiça Eleitoral.

No sábado (17), a Agência Brasil informou que 4.352 seções eleitorais tiveram seus endereços alterados para a votação de 25 de outubro. O número corresponde a 0,87% das 499.248 seções do país.

Na atualização divulgada no domingo (18), entretanto, reportagem da Folha de S.Paulo apontou um levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com 1.397 seções transferidas, envolvendo 402.599 eleitores.

A diferença entre os dois números exige esclarecimento sobre os critérios utilizados e a atualização das informações. O TSE informa que os registros podem ser modificados conforme as zonas eleitorais comunicam as alterações.

Quatro estados concentravam mais de 2,2 mil seções alteradas no primeiro levantamento

Segundo os dados divulgados em 17 de outubro, São Paulo registrava 982 seções com endereços modificados, seguido por Minas Gerais, com 514, Rio de Janeiro, com 431, e Bahia, com 312.

Somados, esses quatro estados respondiam por 2.239 das 4.352 seções mencionadas no levantamento inicial, aproximadamente 51,4% do total.

O levantamento, porém, não apresenta uma distribuição detalhada dessas alterações por município, zona eleitoral e endereço anterior.

Sem essa relação, não é possível identificar em quais bairros e comunidades ocorreram todas as transferências nem quantificar o eleitorado atingido em cada localidade.

Rio Grande do Sul confirma mudanças em três municípios

Uma das informações mais detalhadas foi divulgada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), no domingo (18).

Segundo o órgão, as alterações para o segundo turno atingem quatro locais de votação, distribuídos por três municípios, envolvendo nove seções eleitorais.

Em Manoel Viana, a seção 62 retornará à Escola Municipal de Ensino Fundamental Alberto Pasqualini, após ter funcionado provisoriamente em outro endereço no primeiro turno.

Em São Luiz Gonzaga, as seções 8, 81 e 118 voltarão à Escola Municipal de Ensino Fundamental José Bonifácio. As seções 84 e 105 retornarão à Escola Municipal de Ensino Fundamental Ernestina Amaral Langsch.

Em Uruguaiana, as seções 97, 185 e 231 terão alteração de local em razão das enchentes. O TRE-RS identifica a Escola Estadual de Ensino Fundamental República do Uruguai como o local relacionado à transferência.

O tribunal esclareceu que algumas mudanças representam o retorno de seções a seus endereços originais, depois de terem funcionado em espaços provisórios no primeiro turno.

A informação é relevante porque nem toda transferência registrada entre os turnos decorre de uma nova interdição ou de uma decisão tomada inesperadamente.

Confresa, em Mato Grosso, teve escola interditada

Outro caso identificado ocorreu em Confresa, no nordeste de Mato Grosso.

Chuvas intensas e ventos fortes registrados nos dias 9 e 10 de outubro provocaram danos na Escola Estadual de Desenvolvimento Integral da Educação Básica Creuslhi de Souza Ramos.

Um laudo elaborado em 11 de outubro recomendou a interdição preventiva do prédio.

Diante da situação, a Justiça Eleitoral determinou a transferência das seções que funcionavam na unidade para a Escola Municipal Tapiraguaia, também localizada no setor Vila Nova.

A medida foi formalizada pela 28ª Zona Eleitoral, por meio de portaria, e vale para a votação do segundo turno.

Nesse caso, a justificativa apresentada envolve a segurança dos eleitores e dos profissionais que trabalham nas seções.

Rio de Janeiro também registrou mudanças anteriores ao primeiro turno

No Rio de Janeiro, é necessário distinguir as transferências realizadas entre o primeiro e o segundo turno das mudanças definidas durante a preparação das eleições.

O TRE-RJ informou que 277 locais de votação foram alterados em 2026 na comparação com as eleições de 2024, atingindo aproximadamente 670 mil eleitores.

Desse total, 72 locais foram modificados por razões de segurança, diante de avaliações sobre áreas consideradas de risco.

Essas mudanças foram anunciadas antes do primeiro turno de 4 de outubro e, portanto, não podem ser automaticamente incluídas no conjunto de transferências ocorridas depois daquela votação.

A distinção é essencial para evitar uma interpretação equivocada dos dados e para qualquer análise sobre possíveis consequências na disputa presidencial.

É possível saber se Lula ou Flávio Bolsonaro venceu nas seções alteradas?

Sim. A Justiça Eleitoral disponibiliza dados oficiais da votação presidencial por seção eleitoral, permitindo identificar quantos votos cada candidato recebeu no primeiro turno.

Entretanto, para responder à pergunta sobre as seções transferidas, é necessário conhecer precisamente quais delas mudaram de endereço entre 4 e 25 de outubro.

Depois disso, os resultados precisam ser cruzados com os boletins de urna ou arquivos de votação por seção.

A comparação permitiria identificar quantas seções transferidas deram maioria de votos a Lula, quantas favoreceram Flávio Bolsonaro e qual foi o total de votos de cada candidato nos locais atingidos.

Também seria necessário comparar esses resultados com os das seções que permaneceram nos mesmos endereços.

Até o momento, os dados consultados não permitem concluir se as alterações atingiram proporcionalmente mais áreas onde Lula ou Flávio Bolsonaro teve maior votação.

O fato de um estado ter registrado muitas transferências não significa que elas estejam concentradas nos municípios ou bairros favoráveis a determinado candidato.

Mesmo a predominância de votos de um candidato entre as seções alteradas não demonstraria, isoladamente, a existência de uma ação deliberada para prejudicá-lo. Seria necessário investigar as justificativas de cada mudança e as circunstâncias em que ocorreu.

Coligação de Lula pede comunicação individual aos eleitores

A preocupação com a divulgação das transferências chegou ao TSE por meio de uma solicitação da coligação liderada pelo PT.

O pedido defende que os eleitores atingidos recebam informações individualizadas sobre os novos locais de votação, por meios como e-Título, mensagens telefônicas e correio eletrônico.

A coligação também solicitou a divulgação de uma relação consolidada contendo os municípios, zonas e seções afetadas, acompanhados dos endereços antigos e novos.

Entre as medidas propostas estão a instalação de faixas informativas e a presença de equipes de orientação nos locais anteriormente utilizados.

A preocupação é que eleitores que desconheçam a transferência se dirijam ao endereço habitual e encontrem dificuldades para chegar à nova seção dentro do horário de votação.

A possibilidade de dificuldades é especialmente relevante para idosos, pessoas com deficiência e moradores de áreas com transporte limitado.

TSE afirma que mudanças não reduzem número de seções

O Tribunal Superior Eleitoral esclarece que a responsabilidade pelas alterações é das zonas eleitorais, conforme as condições estruturais e operacionais dos municípios.

Entre as justificativas estão reformas, interdições de prédios, problemas de acessibilidade e danos provocados por eventos climáticos.

O tribunal também ressalta que transferir uma seção para outro prédio não significa eliminá-la nem reduzir a quantidade de eleitores aptos a votar.

Segundo dados apresentados pela Justiça Eleitoral, em 2022 ocorreram alterações de endereço em 5.822 seções entre os dois turnos, equivalentes a 1,17% do total daquele pleito.

A comparação mostra que transferências entre turnos não são inéditas, embora a ocorrência anterior não dispense a necessidade de transparência e comunicação adequada em 2026.

O que ainda precisa ser esclarecido

A apuração permite identificar mudanças específicas no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso, além de confirmar que São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia concentravam a maior quantidade de seções alteradas no levantamento inicialmente divulgado.

Ainda faltam, porém, três informações fundamentais para dimensionar completamente a situação: uma relação nacional consolidada das seções transferidas, o número definitivo de eleitores afetados e o cruzamento desses locais com os resultados presidenciais do primeiro turno.

A divulgação desses dados permitiria avaliar se as transferências estão distribuídas de maneira semelhante entre diferentes regiões e perfis eleitorais ou se apresentam alguma concentração que mereça investigação adicional.

Enquanto essas informações não estiverem reunidas, não existe fundamento suficiente para afirmar que as mudanças beneficiam ou prejudicam qualquer uma das candidaturas.

A principal questão já comprovada é a necessidade de garantir que os eleitores sejam informados sobre as alterações antes de 25 de outubro, para que a mudança de endereço não se transforme em obstáculo ao exercício do voto.

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