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Flávio Bolsonaro faz afirmações falsas e evita respostas em sabatina da Globo

Candidato do PL apresentou informações contrariadas por dados oficiais e não esclarece pontos sobre Vorcaro, segurança pública e propostas econômicas

Vitória News 17/10/2026 06:47
Flávio Bolsonaro faz afirmações falsas e evita respostas em sabatina da Globo
Foto: Joédson Alves/ABr

O candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, participou de uma sabatina na TV Globo na noite desta sexta-feira (16), marcada por afirmações contestadas por dados oficiais, críticas ao Judiciário e respostas consideradas insuficientes em temas centrais da campanha eleitoral.

Durante pouco mais de 40 minutos, o senador falou sobre economia, segurança pública, direitos trabalhistas e o fim da reeleição presidencial. Também foi questionado sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro e as investigações envolvendo aliados políticos.

Em diferentes momentos, Flávio apresentou propostas sem detalhar como seriam executadas. Também fez declarações sobre as queimadas na Amazônia e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 que entraram em conflito com dados oficiais e decisões judiciais.

A entrevista ocorreu a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, quando Flávio Bolsonaro enfrentará Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Declaração sobre queimadas é contrariada por dados do Inpe

Uma das afirmações contestadas durante a sabatina envolveu os incêndios na Amazônia.

Ao criticar a política ambiental do governo federal, Flávio Bolsonaro declarou que outubro de 2026 havia registrado o maior número de queimadas da história brasileira.

“Esse foi o outubro com maior queimada na história da nação brasileira”, afirmou.

A declaração não é sustentada pelos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelo monitoramento de focos de calor no país.

Segundo os números apresentados pela Agência Brasil, até 15 de outubro a Amazônia havia registrado 9.544 focos de calor, quantidade distante dos maiores registros da série histórica, iniciada em 1989.

Além disso, o mês ainda não havia terminado, o que tornava inadequada uma comparação definitiva com todos os meses de outubro anteriores.

Flávio Bolsonaro não apresentou, durante a entrevista, dados que comprovassem sua afirmação.

Relação com Daniel Vorcaro continua sob questionamento

Outro momento importante da sabatina envolveu a relação do candidato com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro associado ao Banco Master.

Os entrevistadores questionaram Flávio sobre a captação de recursos para o filme Dark Horse, projeto cinematográfico sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.

O senador afirmou que não houve irregularidade no pedido de financiamento ao empresário e declarou que chegou ao nome de Vorcaro enquanto procurava possíveis investidores para a produção.

Segundo Flávio, o ex-banqueiro concordou em participar do projeto quando ainda não haviam surgido publicamente as suspeitas de irregularidades relacionadas ao Banco Master.

“E ele concordou quando não havia nada de errado”, afirmou.

O candidato, entretanto, foi confrontado com informações de que continuou cobrando recursos de Vorcaro mesmo depois da divulgação das suspeitas envolvendo a instituição financeira.

A reportagem da Agência Brasil menciona pedidos que chegaram a R$ 130 milhões e aproximadamente R$ 60 milhões destinados ao projeto.

Flávio insistiu que os esclarecimentos já haviam sido prestados e negou a existência de qualquer problema na operação. Não apresentou, porém, durante a sabatina, uma explicação detalhada capaz de encerrar os questionamentos sobre as negociações.

Os fatos relacionados ao financiamento precisam ser distinguidos de uma eventual responsabilização criminal, que depende de investigação e comprovação de irregularidades.

Flávio volta a negar tentativa de golpe em 8 de janeiro

O candidato também contestou as conclusões judiciais relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023.

Na ocasião, manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, em Brasília, após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022.

Durante a sabatina, Flávio negou que os acontecimentos tenham representado uma tentativa de golpe de Estado e voltou a atacar o julgamento de seu pai.

“Essa farsa, a história vai mostrar que foi totalmente armado para tentar tirar Bolsonaro da vida pública”, declarou.

A afirmação contraria as conclusões judiciais que fundamentaram condenações relacionadas à tentativa de ruptura institucional.

O senador também minimizou a participação de manifestantes nos ataques, utilizando como exemplo uma mulher que carregava uma Bíblia.

A existência de pessoas com diferentes graus de participação, entretanto, não elimina os fatos documentados sobre as invasões, a violência contra agentes de segurança e a destruição de patrimônio público.

Flávio voltou a defender Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão, e não confirmou se o pai teria algum cargo em seu eventual governo.

Em declarações anteriores, o candidato já havia manifestado a intenção de conceder indulto ao ex-presidente.

Eduardo Bolsonaro é defendido pelo irmão

Flávio também respondeu a perguntas sobre Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos e foi condenado no Brasil por coação no curso do processo.

O candidato classificou o irmão como vítima de perseguição política e afirmou que sua atuação no exterior será reconhecida no futuro.

“Ele é um perseguido político”, declarou.

Flávio negou, entretanto, que pretenda nomear Eduardo para o Ministério das Relações Exteriores caso seja eleito presidente.

Mudança de posição sobre a escala 6x1

A jornada de trabalho também foi abordada na entrevista.

Depois de meses de resistência à proposta de extinção da escala 6x1, Flávio Bolsonaro passou a defender a mudança e votou favoravelmente à medida aprovada pelo Congresso.

O senador afirmou que mudou de posição depois de ouvir trabalhadores durante viagens pelo país.

“Eu sempre defendi mais liberdade, inclusive para os trabalhadores montarem sua jornada de trabalho. Isso pressupõe que a escala 6x1 seja extinta”, afirmou.

A declaração, entretanto, não esclareceu como a liberdade de negociação individual defendida pelo candidato seria compatibilizada com as novas regras de descanso semanal.

Flávio também garantiu que pretende manter os direitos previstos na legislação trabalhista, sem detalhar eventuais mudanças na regulamentação das jornadas.

Combate às facções fica sem explicação prática

Na área de segurança pública, Flávio Bolsonaro prometeu classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações narcoterroristas.

A medida foi apresentada como uma das prioridades de seu eventual governo, mas o candidato não explicou quais instrumentos adicionais essa classificação ofereceria às forças de segurança ou de que maneira alteraria o enfrentamento das organizações criminosas.

Ele também defendeu mudanças na legislação para facilitar o acesso dos cidadãos a armas de fogo.

“O problema é que as armas estão nas mãos das pessoas erradas”, declarou.

Outro questionamento envolveu seu apoio a uma proposta para retirar a identificação de munições utilizadas pelas forças de segurança.

Os mecanismos de rastreamento são importantes para identificar a origem de munições, investigar desvios e auxiliar na apuração de crimes. Flávio não apresentou uma explicação detalhada sobre os efeitos da mudança que apoiou.

O senador também foi questionado sobre suas relações políticas com Rodrigo Bacellar e Márcio Canella, citados na entrevista em razão de suspeitas e investigações relacionadas ao crime organizado no Rio de Janeiro.

Flávio afirmou ter sido surpreendido pelas informações envolvendo os aliados. Defendeu o direito à ampla defesa e declarou que eventuais responsáveis por crimes devem ser punidos.

A existência de investigações ou suspeitas, por si só, não estabelece a culpa das pessoas mencionadas.

Promessas econômicas não apresentam garantias de arrecadação

Na economia, o candidato do PL afirmou que pretende promover um ajuste nas contas públicas superior a R$ 200 bilhões, utilizando, entre outras medidas, a venda de imóveis pertencentes à União.

Flávio não apresentou um levantamento detalhado dos bens que poderiam ser comercializados nem demonstrou quanto seria possível arrecadar com essas operações.

Também prometeu obter R$ 100 bilhões com a exploração de petróleo na margem equatorial brasileira.

O prazo anunciado entrou em conflito com as perspectivas atribuídas à Petrobras, segundo as quais a exploração comercial na região não começaria antes de 2033.

A diferença entre a promessa de arrecadação e o calendário esperado para o empreendimento coloca em dúvida a disponibilidade desses recursos no período indicado pelo candidato.

Flávio também afirmou que pretende extinguir pelo menos dez ministérios, sem especificar todas as pastas que seriam afetadas ou apresentar uma estimativa consolidada da economia decorrente da reorganização administrativa.

Candidato apresenta informação incorreta sobre cargos no governo Bolsonaro

Ao defender a redução da estrutura federal, Flávio afirmou que o governo de Jair Bolsonaro havia eliminado milhares de cargos em comissão.

Os números citados pela Agência Brasil, com base em levantamento publicado pelo UOL, contrariam essa afirmação.

De acordo com a checagem, a quantidade de cargos em comissão passou de aproximadamente 31,8 mil em 2019 para 46,2 mil em 2022.

O crescimento registrado no período não sustenta a apresentação de uma redução geral desses cargos como resultado da gestão anterior.

A comparação é relevante porque Flávio utilizou o histórico administrativo do pai como argumento para defender sua própria proposta de reorganização do governo federal.

Fim da reeleição é defendido sem definição sobre duração do mandato

Flávio Bolsonaro reiterou a intenção de apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição para acabar com a possibilidade de reeleição presidencial.

Segundo ele, a mudança deveria valer já para o mandato iniciado em 2027, caso vença as eleições.

O candidato não definiu, entretanto, se o mandato permaneceria com duração de quatro anos ou se haveria alteração no período.

“Partiu de mim apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição onde acaba a reeleição para presidente. E aí depende do Congresso a duração do mandato, se vai ser de quatro anos ou não”, afirmou.

A proposta também impediria que parentes do presidente até o terceiro grau disputassem a sucessão imediata.

Flávio afirmou não ter apego ao poder, embora tenha construído uma trajetória política de mais de duas décadas, com mandatos como deputado estadual e senador.

Qualquer mudança nas regras constitucionais dependeria de aprovação nas duas Casas do Congresso Nacional, em dois turnos de votação, com o apoio de três quintos dos parlamentares.

Almoço com dirigentes da Globo provoca reação da campanha de Lula

Outro episódio relacionado à sabatina ocorreu antes da entrevista.

Flávio Bolsonaro participou de um almoço com dirigentes do Grupo Globo, encontro confirmado pela emissora depois que a informação foi divulgada pela imprensa.

Segundo a empresa, o candidato foi recebido pelo presidente do grupo, José Roberto Marinho, e pelo vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet.

A Globo informou que nenhum integrante de sua equipe de jornalismo participou da reunião e explicou que encontros institucionais com representantes políticos fazem parte da rotina de seus executivos.

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva questionou o tratamento dispensado ao adversário.

O presidente havia participado de uma sabatina na mesma emissora na quinta-feira (15), mas não foi recebido previamente em um almoço semelhante.

A emissora sustentou que o encontro com Flávio teve caráter institucional e não envolveu os profissionais responsáveis pela cobertura jornalística.

Entrevista deixa questões sem esclarecimento

A sabatina expôs diferenças entre as promessas apresentadas por Flávio Bolsonaro e o detalhamento necessário para avaliar sua execução.

Nas propostas econômicas, faltaram informações sobre a viabilidade financeira e o calendário de arrecadação. Na segurança pública, o candidato não demonstrou como a classificação de facções como narcoterroristas produziria resultados concretos. Já no episódio envolvendo Daniel Vorcaro, manteve a versão de que não houve irregularidades, sem esclarecer integralmente os questionamentos apresentados.

A entrevista também incluiu declarações contrariadas por dados oficiais, como a afirmação sobre um suposto recorde histórico de queimadas na Amazônia, e informações contestadas por levantamentos jornalísticos, como a alegada redução de cargos em comissão no governo de Jair Bolsonaro.

Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, a sabatina acrescentou novos elementos ao debate eleitoral, mas deixou pendentes explicações importantes sobre propostas, números e relações políticas mencionadas pelo candidato.

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