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Economia

Mudança climática veio para ficar e vendemos menos casacos, diz empresário de moda

FolhaPress 07/11/2024 02:25

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dona de marcas como Le Lis, Dudalina, John John e Bo.bô, a empresa de varejo de moda Veste, antes chamada de Restoque, embarca em uma série de mudanças, que abrangem desde os resultados de sua reestruturação de dívida até os ajustes que a crise climática vai levar ao guarda-roupa do consumidor.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Segundo o CEO da Veste, Alexandre Afrange -empresário da família fundadora, que em 2007 conduziu a venda do controle, e voltou anos depois como diretor-, a mudança climática veio para ficar, e a empresa tem se preparado para criar coleções de inverno mais leves. A venda de casacos caiu mais de 25%, mas a ideia é preservar a margem bruta, alterando o mix de produtos.

"Tivemos uma inversão e uma coleção mais leve. Isso vai ser assim, acho que teremos de prestar atenção nisso por muito tempo", afirma.

A reorganização das marcas, que a empresa vem fazendo há alguns anos começou pela Le Lis e chega agora à última delas, a John John. A grife ganha um novo conceito, expandindo sua identidade mais noturna e escura para oferecer uma linha de roupas brancas, pensando em novas ocasiões de uso.

"Os jovens, que antigamente eram os inimigos do fim, hoje querem terminar rápido para aproveitar o dia. Estamos ampliando o portfólio para trazer a coleção também para ser usada durante o dia", diz Afrange.

PERGUNTA - A empresa passou dificuldades há alguns anos, teve um novo aporte em 2022 e o seu retorno. Como está hoje?

ALEXANDRE AFRANGE - Meu retorno foi em 2020, preparando a empresa operacionalmente para voltar a ser pujante e poder ter esse aporte, e os credores entenderem que a empresa valia a pena.

P - Na recuperação extrajudicial?

SESC PICASSO

AA - Foi antes disso. Eu comecei em janeiro de 2020. O pessoal tinha levantado dinheiro na Bolsa em dezembro de 2019. Quando veio a pandemia, aquele recurso acabou indo para outro caminho, os juros subiram, a dívida muito alta. Foi um momento propício para começar a fazer coisas que precisavam ser feitas.

A minha volta marca esse momento em que começamos a reorganizar as marcas, buscando a essência delas, para sair daquela situação que estava complicada, com decisões erradas ao longo de muito tempo. Fizemos todo esse trabalho, que começou pela Le Lis e passou pela Bobô. A Dudalina e a Individual eram marcas que, lá atrás, antes de eu sair, não estavam sob a minha responsabilidade. Eu entendi a operação, e a gente agiu.

Na John John, que vinha muito bem, deixamos para fazer a reorganização por último. No último ano, eu tenho perdido vendas. Mas estamos nos reorganizando, com estrutura completamente nova. Agora se começa a ver os resultados. Abrimos uma loja com um conceito novo da John John e começa essa virada nela também, a exemplo do que fizemos com as outras.

P - O que é essa mudança?

AA - A John John sempre foi uma marca para a balada e a noite. Nós percebemos, especialmente depois da pandemia, que a noite mudou. Muitos eventos passaram para o dia. Os jovens, que antigamente eram os inimigos do fim, hoje querem terminar rápido para aproveitar o dia.

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Estamos ampliando o portfólio da John John para trazer a coleção também para ser usada durante o dia, obedecendo todo o conceito dela de espírito jovem, irreverente. Mudamos a equipe inteira, de estilo, comercial e planejamento.

A loja nova vai trazer isso na arquitetura. Será branca e preta, para refletir o dia e a noite, diferente das lojas mais escuras. Nos números, não se vê ainda essa mudança. Prevemos começar a ver isso a partir do quatro trimestre.

P - Qual é a sua opinião sobre o impacto do avanço das plataformas chinesas sobre o varejo brasileiro? Elas não competem com o seu produto?

AA - É outro posicionamento. Quando existe isonomia tributária, a concorrência é muito positiva. Mas é ruim para o mercado como um todo quando uma plataforma chinesa vem para cá com uma alíquota diferente de impostos e um benefício que nós, os que pagamos imposto, não temos.

Os magazines brasileiros, que têm gente competente há muitos anos, sofrem. Isso respinga para todo mundo. Não é concorrente direto meu, mas eu me solidarizo. O Congresso já aprovou pelo menos uma taxa de importação de 20%. Foi maravilhoso e já é um começo. Não é ainda o que precisa ser, mas acho que estamos no caminho. Foi fruto de um movimento intenso do setor como um todo para buscar isonomia tributária.

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Quando se compete de igual para igual, se eles têm preço, a gente tem qualidade. Se eles têm preço, nós temos relacionamento com os clientes. No Brasil, nós temos relacionamento com os clientes. A China está lá longe. Tem preço, tem apelo, agora, como é o ESG? Não sabemos. Nós sabemos quais são as nossas responsabilidades, que deveriam ser do mundo inteiro.

P - E as mudanças climáticas? Como isso interfere no estilo? Esse ano não teve inverno, mas houve mudanças bruscas de temperatura, não?

AA - Mudança climática veio para ficar. Olhando para isso, a gente já vem se preparando na concepção da coleção para ter um inverno mais leve. Esse ano, por exemplo, já vendemos 26% ou 29% menos casacos do que no ano passado, mas já foi projetado.

E não por isso eu deixei que o meu faturamento caísse. Tivemos uma inversão e uma coleção mais leve. Isso vai ser assim, acho que teremos de prestar atenção nisso por muito tempo.

P - A roupa de inverno tem uma rentabilidade maior?

AA - Não necessariamente. Temos um foco de rentabilidade. E no nosso mix, ela tem uma composição. Então, de acordo com o nosso planejamento, se planejamos ter menos mercadoria de inverno, vamos planejar ter mais um outro tipo de mercadoria. Na média, a margem bruta vai estar preservada. Esse é o objetivo.

RAIO-X | ALEXANDRE AFRANGE

Formado em administração pelo Mackenzie, o empresário iniciou sua carreira em 1988 e foi o CFO responsável pelo início da expansão da Le Lis. Após a venda do controle do grupo, em 2007, deixou o negócio entre 2014 e 2020. Em seu retorno, assumiu como diretor geral de operações e hoje ocupa o posto de CEO da Veste

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