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Economia

Morre aos 100 anos Carlos Carvalho, o 'dono da Barra'

FolhaPress 11/08/2024 12:13

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Morreu na noite deste sábado (10) Carlos Carvalho, 100, fundados e presidente do conselho da Carvalho Hosken. O empresário e engenheiro foi um dos principais responsáveis pelo avanço da exploração imobiliária da Barra da Tijuca, tendo atuado em empreendimentos usados nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A morte foi confirmada pela construtora em suas redes sociais. Segundo a empresa, ele morreu de causas naturais. O engenheiro deixa esposa, 4 filhos, 8 netos e 3 bisnetos. O velório será nesta segunda-feira (12), das 10h às 13h, no Crematório da Penitência (Caju).

"Sua trajetória visionária e inspiradora de empreendedorismo, desenvolvimento urbano da Barra e da cidade do Rio de Janeiro deixa um legado para essa e futuras gerações", afirmou a construtora, em nota.

Carvalho fundou com o colega de faculdade Jacques Hosken a construtora e imobiliária Carvalho Hosken, em 1951. Criada para fazer obras públicas, a empresa mudou de ramo nos anos 1970, quando o empresário já não tinha mais a companhia do sócio-fundador, mas sob garantia de não mexer no nome que já era conhecido.

Foi quando Carvalho viu no plano-piloto da Barra da Tijuca, elaborado pelo urbanista Lúcio Costa, uma oportunidade de negócio: comprar terras na região que, acreditava, seria o lugar para onde a cidade cresceria.

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Na época, a Barra era um areal, palco de inúmeras disputas de posse. Quando os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara se fundiram, em 1975, a Justiça decidiu que o direito era de quem tinha registro do imóvel.

"Corri para negociar com os reais donos logo, pagando menos", disse à Folha em entrevista em 2014.

A agilidade logo lhe deu a propriedade de 10 milhões de metros quadrados, 8% da região da Barra e de Jacarepaguá --tema objeto de disputas judiciais até os dias atuais. A concentração de terras lhe rendeu a alcunha de "dono da Barra", dividida com os empresários Pasquale Mauro (1927-2016) e o cingapurano Tjong Hiong Oei (1922-2012), também chamado de "chinês da Barra".

Carvalho foi um dos principais responsáveis pelo modelo de ocupação do bairro, marcado pelos condomínios fechados --ele próprio vivia em um deles.

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A partir da década de 1990, passou a investir no que ficou conhecido no mercado como "bairros planejados" --conjuntos de prédios nos quais as construtoras projetam a ocupação de prédios residenciais e atividades comerciais e com associações de moradores próprias.

O primeiro modelo foi o Rio 2, seguido do Península e Cidade Jardim. Um dos últimos modelos do tipo foi o Ilha Pura, utilizado durante as Olimpíadas de 2016 como a Vila dos Atletas.

O envolvimento de Carvalho nos projetos olímpicos deu nova notoriedade ao empresário e seu relacionamento com o poder público. Em entrevista à Folha em 2014, ele contou ter sido pressionado a erguer a Vila dos Atletas, sob pena de ter o terreno desapropriado.

"Era melhor eu fazer do que desapropriarem e alguém fazer prédios ruins e feios", disse, na ocasião.

Tornou-se assim responsável por 31 prédios, com 3.604 apartamentos, para receber 18 mil atletas. Em 2015, um ano antes das Olimpíadas, entrou na lista da Bloomberg como a 13ª pessoa mais rica do país, com uma fortuna avaliada à época em US$ 4,2 bilhões.

Como todo o mercado imobiliário suspeitava à época, muitas unidades encalharam. Dos 31 edifícios, 19 ainda estão fechados. A estimativa é que menos de 40% dos apartamentos tenham sido vendidos.

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Em negociação encaminhada em julho deste ano, o banco BTG Pactual está comprando da Carvalho Hosken os cerca de 2.500 imóveis remanescentes que não foram vendidos. A transação foi autorizada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

A Carvalho Hosken também integrou o consórcio responsável por erguer o Parque Olímpico, que concentrou a maior parte das competições dos Jogos cariocas. Em contrapartida, as empresas ganharam o direito de construir novos prédios no entorno da área --o empreendimento ainda não começou a ser explorado.

Carvalho se envolveu numa polêmica em entrevista à BBC Brasil, ao comentar o perfil de moradores que desejava para a área.

"Para botar tubulação de água e de luz, há um custo alto, e quem mora paga. Como é que você vai botar o pobre ali? Ele tem que morar perto porque presta serviço e ganha dinheiro com quem pode, mas você só deve botar ali quem pode, senão você estraga tudo, joga o dinheiro fora", disse Carvalho, na ocasião.

A fala foi criticada pelo presidente do comitê organizador da Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD). Posteriormente, ele disse que foi mal interpretado.

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