Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 12h34m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Milei anuncia como se fosse sua obra em gasoduto que era vitrine dos peronistas

FolhaPress 13/01/2025 13:29

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo de Javier Milei tem anunciado como sua uma obra que estava entre as principais vitrines da gestão anterior, do peronista Alberto Fernández: a reversão da estrutura para levar gás do campo de Vaca Muerta ao norte da Argentina, exportá-lo para a Bolívia e, talvez futuramente, ao Brasil.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Com o projeto, há expectativa de uma economia anual de US$ 1 bilhão (R$ 6,09 bilhões, em valores atuais), de acordo com a Secretaria de Energia, o que o transforma em estratégico para o país, dado o problema crônico de falta de reservas em dólares na Argentina.

Uma parte da obra é o Gasoduto de Integração Federal, de 122,8 km, entre Tío Pujio e La Carlota (ambas na província de Córdoba), ligando o Gasoduto Central ao Gasoduto Norte.

Para a sua conclusão, no primeiro semestre de 2025, ainda está prevista a reversão do fluxo em quatro plantas compressoras (Lumbrera, Lavalle, Dean Funes e Ferreyra) invertendo, assim, a direção do gás que vinha da Bolívia pelo Gasoduto Norte.

Dos US$ 740 milhões (R$ 4,5 bilhões) de investimento, US$ 540 milhões (R$ 3,3 bilhões ou 73%) foram financiados a partir de um empréstimo com a CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe).

O acordo foi anunciado pelo então ministro da Economia e rival de Milei na campanha presidencial, Sergio Massa, em janeiro de 2023, e aprovado em abril do mesmo ano, ainda durante o governo Fernández.

Milei só assumiria a Casa Rosada oito meses depois, em dezembro.

Seu governo defende que a obra teve início em fevereiro de 2024, por uma decisão da atual gestão.

SESC PICASSO

Em uma publicação no X, a Chefatura de Gabinete argentina comemorou a inauguração da ligação.

"Inauguramos a reversão do Gasoduto Norte, na província de Córdoba, um projeto estratégico para o país, promovido pelo atual governo", anunciou.

O Gasoduto de Integração é uma obra complementar à etapa dois do Gasoduto Perito Moreno (antigo Presidente Néstor Kirchner).

Seu potencial de transporte é de até 15 milhões de m³ de gás por dia, abastecendo sete províncias argentinas: Córdoba, Salta, Jujuy, Santiago del Estero, Catamarca, La Rioja e Tucumán, também por meio de estruturas já existentes.

A propaganda de um projeto de infraestrutura é um ponto fora da curva na agenda do presidente ultraliberal. Uma de suas primeiras medidas foi justamente o congelamento de obras e novas licitações.

Isso era apontado pelo governo como necessário para reduzir gastos, mas também acertou em cheio o setor da construção.

Uma nota divulgada pelo governo relata que, quando Milei assumiu o cargo, a primeira seção da obra não tinha sido atribuída ao vencedor da licitação e estava superfaturada, enquanto as outras duas seções não foram licitadas.

"Em fevereiro deste ano, por decisão do governo nacional, as obras começaram e, nove meses depois, elas estão concluídas."

CONTADOR - BONUS

"Vamos recuperar a autossuficiência energética que foi destruída pela administração anterior", afirmou na cerimônia de lançamento do trecho o ministro da Economia, Luis Caputo.

Alberto Fernández inaugurou em 9 de julho de 2023 o primeiro trecho de outra obra fundamental para o transporte do gás natural de Vaca Muerta aos principais centros consumidores: o GPNK (Gasoduto Presidente Néstor Kirchner).

Ao chegar ao poder, Milei elegeu Cristina Kirchner —ex-presidente, viúva de Néstor e ex-vice-presidente de Fernández— como uma de suas principais antagonistas políticas. E o processo de "deskirchnerização" empreendido pelo atual governo tem diferentes capítulos.

Um deles foi mudar o nome do CCK (Centro Cultural Kirchner), um prédio histórico de Buenos Aires transformado em espaço de manifestações artísticas e que homenageava Néstor, para "Centro Cultural Palácio Libertad - Domingo Faustino Sarmiento" (outro ex-mandatário).

Em novembro, viria o golpe mais duro, com a troca de nome do GPNK para "Gasoduto Perito Francisco Pascasio Moreno", cientista e desbravador da Patagônia e que também dá nome a um dos mais famosos campos de gelo do país.

Em uma publicação em seu site oficial, a Secretaria de Energia sob Milei diz que o GPNK enfrentou atrasos e custos elevados devido à gestão anterior, com a licitação inicial suspensa em 2019 e retomada em 2021.

Anuncio - Raimundo - Bonus

A construção do primeiro trecho foi concluída sem as plantas compressoras de Tratayén e Salliqueló, essenciais para o seu funcionamento pleno.

Segundo a pasta, Milei herdou o projeto inacabado, resultando em importações caras e dívidas de US$ 11 milhões (R$ 67 milhões), e o atual governo finalizou o gasoduto, agora operando a 24 milhões de m³/dia, após concluir as plantas em julho e outubro.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Economia da Argentina ainda não respondeu.

Mesmo contando com a reserva de Vaca Muerta, nas últimas duas décadas, os argentinos importaram US$ 20 bilhões (R$ 121,8 bilhões) de gás boliviano.

Só que além da economia potencial para os cofres argentinos, as reservas da Bolívia estão em declínio e podem não estar disponíveis após 2029, o que também preocupa o Brasil.

No ano passado, o Brasil assinou um acordo com a Argentina para a importação de gás a partir de Vaca Muerta, apesar dos atritos entre o presidente Lula (PT) e Milei.

O acordo prevê a importação de três milhões de metros cúbicos de gás por dia, com possibilidade de chegar a 30 milhões de metros cúbicos diários em 2030, a um preço mais competitivo do que o do mercado interno.

Os estudos em andamento consideram quatro rotas para a importação: uma pelo Uruguai, uma pelo Paraguai, um terminal de gás liquefeito e a mais provável e rápida delas, a inversão de fluxo do gasoduto Bolívia-Argentina. Uma opção ligando Argentina e Uruguaiana (RS) permanece em discussão.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas