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Economia

Lucro de fabricantes de armas da Europa dispara na crise com Trump

FolhaPress 03/03/2025 13:36

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A decisão europeia de elevar os gastos militares levou a uma segunda-feira de euforia nos mercados do continente, com ações de empresas do setor de defesa puxando altas históricas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O referencial FTSE 100, da Bolsa de Londres, atingiu o maior índice desde que foi criado, em 1984, com quase 9.000 pontos nesta segunda (3). A BAE Systems, fabricante de diversos armamentos, viu suas ações subirem quase 15%.

Ela é a sexta maior empresa de defesa do mundo, e a primeira não-americana no ranking do Sipri (Instituto para Estudos da Paz de Estocolmo, na sigla em inglês), com uma receita anual de US$ 30 bilhões (R$ 176 bilhões). O setor militar acumula alta de 36% no ano na Bolsa londrina.

A tendência foi registrada em todo o continente. A Rheinmetall, maior da área na Alemanha, viu suas ações subirem quase 12%, mesmo índice da carro-chefe italiana Leonardo. Já as ações da Thales francesa subiram 13,2%, enquanto as da sueca Saab chegaram a quase 11% de elevação e as da norueguesa Kongsberg, 14,4%.

O índice Stoxx Europe Aeroespace anda Defence, que mede variações em 600 firmas em diversos mercados europeus aferiu os maiores ganhos em um dia desde 2020, com 7,9% de aumento, acumulando mais de 30% no ano até aqui.

Tudo isso é cortesia da nova realidade geopolítica trazida pela volta de Donald Trump à Casa Branca, em particular a feroz altercação entre o presidente e o colega Volodimir Zelenski, que chocou o mundo na sexta passada (28).

SESC PICASSO

O ucraniano visitava Trump para fechar um acordo de exploração mineral que, na sua visão, poderia mover o americano para longe de Vladimir Putin.

O republicano alinhou-se ao russo na sua percepção dos motivos que levaram Moscou a invadir a Ucrânia em 2022 e, pior para Kiev, abriu negociações de paz bilaterais sem incluir os agredidos ou seus parceiros europeus.

O resultado foi desastroso, com Trump e seu vice, J.D. Vance, batendo boca e humilhando Zelenski ao vivo, com jornalistas presentes. O ucraniano acabou deixando a Casa Branca sem acordo nenhum e ainda teve de ler o americano escrever que ele poderia voltar "quando estivesse pronto para a paz".

Restou a Europa, que está atordoada com a agressividade de Trump, que de todo modo nunca havia tratado bem o continente em seu primeiro mandato (2017-2021). O republicano tem desdém histórico pela Otan, a aliança militar criada pelos EUA com seus aliados europeus em 1949 para barrar a expansão soviética na região.

O clube chegou a ter a "morte cerebral" decretada pelo presidente francês, Emmanuel Macron. A chegada de Joe Biden à Casa Branca em 2021 reativou os laços transatlânticos, mas foi a guerra de Putin que renovou o senso de missão do clube.

CONTADOR - BONUS

Em todo o continente, países começaram a elevar seus gastos militares, acelerando uma tendência que já vinha surgindo desde que Putin anexou a Crimeia, em 2014. De lá para cá, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres), os aliados dos EUA na Otan dobraram sua despesa bélica.

Há dez anos, apenas 3 dos então 28 membros da Otan gastavam acima dos 2% do PIB previstos como meta pela organização. Agora, são 24 de 32. Ainda assim, o valor global do continente é ainda inferior ao total que a Rússia gasta, levando em consideração o critério de paridade de poder de compra —pouco mais de US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões).

De volta ao poder, Trump retomou a pressão para mais gasto europeu, exigindo 5% do PIB dos países para defesa. Isso é irreal: a Polônia, membro da Otan que mais investe no setor, gastou em 2024 4,12% de seu PIB.

O americano comanda a maior máquina militar da história, que soma 39,4% do gasto global com defesa —seus colegas de Otan, somados, chegam a 22,1%. Mas em proporção do PIB estão em 3,4%.

Para complicar, Trump ameaça deixar Kiev sem ajuda militar, o que obriga uma despesa maior dos europeus se eles quiserem se manter contrários a Putin. Além disso, Vance disse em um discurso em Munique que os parceiros podem não ter a presença militar dos EUA, constante desde o pós-guerra e que hoje soma mais de 60 mil militares no continente, para sempre.

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Com tudo isso, os líderes europeus se reuniram no domingo (2) em Londres para mais uma rodada de promessa de aumento de gastos, um projeto que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que será apresentado nesta terça (4).

O anfitrião, o premiê Keir Starmer, já havia anunciado uma elevação de seu gasto de 2,3% do PIB para 2,5% em 2027 e até 3% no final da década. O mesmo Macron anunciou que vai comprar mais 30 caças franceses Rafale e colocou suas forças nucleares, que são independentes das americanas e britânicas na Otan, à disposição da defesa continental.

O ambiente levou à euforia nos mercados nesta segunda. Há, contudo, limites. Por sofisticada que seja, a indústria europeia não tem o mesmo escopo e capacidade produtiva da americana, tendo falhado até em entregar a meta de munição que havia previsto para a Ucrânia.

Com efeito, são empresas americanas as que mais lucraram com a guerra até aqui, em particular no aumento da carteira de clientes de seu caça de quinta geração F-35, que está virando padrão no continente. Com mais dinheiro e vontade política, contudo, esse jogo poderá mudar.

O futuro premiê alemão, Friedrich Merz, já disse ser a favor da criação de um fundo europeu para elevar as despesas com defesa. Seu país, que vive a maior estagnação econômica em décadas, tem muito a lucrar: a Rheinmetall é a principal fabricante de tanques e blindados do continente, por exemplo.

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