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Itajaí vira maior economia de Santa Catarina, mas vive dilema com porto

FolhaPress 14/03/2024 10:59

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Impulsionada por seu porto e pelos milionários empreendimentos imobiliários tendo a praia Brava como cartão-postal, Itajaí desbancou Joinville e virou a maior economia de Santa Catarina e a terceira do Sul do país. Mas vive incertezas sobre o desempenho futuro justamente devido ao porto, com parte das operações paradas há mais de um ano.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os edifícios não são gigantescos como os da vizinha Balneário Camboriú, mas seus apartamentos na região da praia e em bairros como o Fazenda também chegam a custar R$ 50 milhões. Em 2023, foram negociados na cidade cerca de R$ 3 bilhões em 3.300 imóveis, segundo o Sinduscon (sindicato das indústrias) da Foz do Rio Itajaí, que inclui Navegantes, Penha e Balneário Piçarras.

De 131 empreendimentos lançados em Itajaí, 70 (ou 53,4%) tinham unidades com preço a partir de R$ 1 milhão, segundo dados da consultoria Brain. Em 23 deles (17,6%), o preço inicial era de R$ 3 milhões.

O que diferencia a cidade da badalada vizinha é que os imóveis atingem um público de primeira moradia –não de veraneio–, há limitação na altura de edifícios e Itajaí atraiu condomínios logísticos devido ao porto.

As construções não podem ter mais de 105 m de altura (cerca de 35 andares), conforme o Plano Diretor, e, na praia Brava, o limite é de cinco pavimentos. Em Balneário, ao contrário, há torres de até 290 m de altura.

"Há a pecha de cidade portuária não ser tão atrativa, mas ela se tornou não só a maior economia do estado como, ao contrário do entorno, as pessoas a escolhem como local de primeira moradia. De cada 10 que compram um imóvel na cidade, 3 são de fora", afirmou o engenheiro Fábio Inthurn, presidente do Sinduscon e CEO da Lotisa.

A empresa tem oito empreendimentos em andamento, com cerca de 1.300 imóveis em construção, e, para o empresário, o momento imobiliário atual não é surpresa. "O que tem em comum na maioria dos construtores é que quase todos possuem uma grande velocidade de venda e quase não têm estoques."

Itajaí virou a maior economia de Santa Catarina ao atingir um PIB de R$ 47,7 bilhões, segundo o IBGE, e a terceira do Sul, atrás de Curitiba e Porto Alegre.

SESC PICASSO

O crescimento em um ano –os dados são referentes a 2021– foi de 44%. Joinville, com R$ 45 bilhões, supera de longe a capital do estado, Florianópolis, terceira (R$ 23,5 bilhões). Quando se analisa o PIB per capita, a diferença é ainda maior: R$ 210,7 mil em Itajaí, enquanto Joinville alcança R$ 74,5 mil e Florianópolis, R$ 45,6 mil.

Entre fevereiro de 2023 e janeiro deste ano, a cidade teve valorização imobiliária de 12,53%, segundo o índice FipeZap, ante a média de 5,19% de 50 cidades monitoradas.

Entre as não capitais, fica atrás apenas de Itapema (+19,42%), São José (+19,35%), ambas em Santa Catarina, e Vila Velha (ES), com 14,21% de valorização. Supera Joinville (+10,26%) e Balneário Camboriú (+9,46%).

Já o preço médio do metro quadrado foi de R$ 10.624, atrás de Itapema (R$ 12.660) e Balneário (R$ 12.822), mas há incorporadoras investindo em projetos milionários, com apartamentos de R$ 20 milhões fora da praia Brava, algo que não se imaginava há alguns anos.

"Como as cidades [Balneário e Itajaí] são muito próximas e virou praticamente tudo uma coisa só, Itajaí despontou em razão da sua pujança econômica e esse perfil mais diverso. A Vokkan fez um grande investimento em Itajaí para o desenvolvimento de um complexo logístico multissetorial que será anunciado em breve. Enxergamos a cidade como um dos pontos mais estratégicos da região Sul", afirmou André Miranda, sócio e diretor de negócios da empresa.

Para o economista-chefe da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Pablo Bittencourt, Itajaí soube aproveitar uma política adotada pelo estado desde meados da década de 2000 com a redução de impostos para importação.

"Muitas empresas começaram a colocar seus centros de distribuição em Santa Catarina e preferiram a região de Itajaí por causa do porto."

O setor logístico existente na cidade e que atua no comércio exterior fez com que ela liderasse, em 2023, o ranking de importações no país, com US$ 13 bilhões (cerca de R$ 65 bilhões).

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Além disso, empresas exportadoras se instalaram na cidade, o que gerou disputa por espaço e a valorização imobiliária atual, que superou 70% nos últimos quatro anos.

Isso gerou negócios como o Infinitá Treehouse, da Blue Heaven, com apartamentos de 350 m² a 805m² no bairro Fazenda, cercados por vidro do chão ao teto, com vista para a baía de Itajaí e preços de R$ 7 milhões a R$ 22 milhões.

"Balneário tem novos lançamentos a R$ 80 mil o m², a própria praia Brava já tem empreendimentos a R$ 60 mil o m². É reflexo de Balneário Camboriú, lá é mais escasso e mais caro, então tinha de crescer [para as cidades vizinhas]", afirmou o CEO da Blue Heaven, Fabrício Bellini.

Segundo ele, após as restrições da pandemia compradores passaram a buscar espaços maiores e confortáveis. "Com o preço de Balneário, compra um apartamento maior aqui. Em Balneário, um apartamento de 300 m² o mercado fala em R$ 30 milhões [...] Mas, se não fosse Balneário, a gente também não estaria vivendo todo esse reflexo."

O PORTO E O FUTURO

Empresários, exportadores e o setor público afirmam que hoje Itajaí diversificou sua economia e não é mais dependente exclusivamente do porto, porém admitem que a paralisação na principal atividade do local gera incertezas para os próximos anos.

O porto teve um revés quando terminou o contrato de arrendamento com a APM Terminals, que pertence ao grupo Maersk, em dezembro de 2022. Desde então, dois dos quatro berços de atracação deixaram de movimentar contêineres. O porto seguiu com operações de navios para transporte de veículos, celulose, cargas em geral e turismo.

Um contêiner pode gerar na cadeia logística R$ 1.800, segundo Egidio Antônio Martorano, presidente da câmara de transporte e logística da Fiesc.

Depois de atingir o pico em 2020, com 545.338 contêineres, o total caiu a 350.083 em 2022 e quase zerou no ano passado, com apenas 334, segundo dados do porto. Isso mostra a dimensão do impacto que a paralisação parcial já provocou na economia local.

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Martorano afirmou que a mudança no governo federal, ano passado, provocou alteração no modelo de negócio do porto, o que contribuiu para atrasar a definição.

"Houve um projeto de concessão, do qual a Fiesc participou, que previa a autoridade portuária privada. Com a mudança do governo, resolveu-se não ser privado e manter a autoridade portuária pública [...] Houve um período de transição a meu ver mal conduzido", afirmou.

O secretário do Desenvolvimento Econômico de Itajaí, Thiago Morastoni, admitiu que há possibilidade de a cidade perder o posto de maior economia do estado com essa indefinição no porto, mas que é difícil mensurar o real impacto.

"Nossa operação principal em Itajaí é a atividade portuária, mas ela não foi a única. Aí vem exatamente o ponto que nos fez crescer tanto. A gente fortaleceu essa que era a nossa principal atividade, mas ampliamos as matrizes econômicas. O porto continua sendo importantíssimo para Itajaí, mas ele já não é mais a única força motriz da economia", disse.

Não seria a primeira vez que poderia ocorrer uma inversão de posições no PIB. Em 2014, Itajaí passou a liderar o ranking estadual (com dados de 2012), mas voltou a ser superada por Joinville no ano seguinte.

Segundo a Superintendência do Porto de Itajaí, foi assinado um contrato com uma empresa com prazo de dois anos, que pode ser renovado por igual período, para a retomada das operações. A previsão é que o primeiro navio atraque em maio.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é aguardado por políticos locais para o ato, e espera-se que ele anuncie um edital para o arrendamento por um prazo de 35 anos, considerado ideal para que haja investimentos robustos no local. Isso já tem gerado corrida entre empresas do setor.

"O peso do porto é fundamental. A gente celebra o resultado [do PIB], mas com preocupação, pois é reflexo de 2021 e o porto estava operando", disse Rodrigo Viti, diretor comercial do Grupo Allog, que tem sede em Itajaí, onde emprega mais de 200 pessoas, e atua principalmente no comércio marítimo.

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