(FOLHAPRESS) - A indústria automotiva brasileira percebe que disputa entre EUA e China pode inviabilizar produção no Brasil, Heineken culpa brasileiros por queda de volume na compra de cerveja, quantas árvores custam o seu cafezinho e o que importa no mercado nesta quinta-feira (23).
**SEM CHIP, SEM CARRO**
Estava tudo bem para a indústria automotiva brasileira enquanto a falta de chips importados da China era um problema apenas das montadoras americanas e europeias. Agora, o buraco é mais embaixo -a questão está chegando na América do Sul.
A produção nacional de automóveis pode ser paralisada por uma crise global que envolve um dos maiores produtores de semicondutores do mundo.
Em duas semanas, montadoras brasileiras podem interromper suas linhas de produção caso não haja uma solução clara para o impasse.
As culpadas são as terras raras, protagonistas de uma série de imbróglios em 2025. O grupo de minerais, importante para a fabricação de produtos de alta tecnologia para veículos elétricos, é extraído e importado sobretudo pela China.
As disputas geopolíticas entre EUA e o país asiático desestabilizaram o fornecimento desses insumos globalmente: Pequim tenta controlar cada vez mais a exportação deles, enquanto os americanos querem aumentar seus estoques.
E COMO ISSO RESPINGA NO BRASIL?
No dia 12 de outubro, o governo holandês, sob forte pressão dos EUA, assumiu o controle da fabricante Nexperia, gigante de semicondutores que atua naquele país e é subsidiária do grupo Wingtech, de origem chinesa.
Na troca de comando, os holandeses destituíram o presidente chinês da companhia via ordem judicial. Alegaram que havia suspeita de transferência indevida de tecnologia para o país asiático e citaram o temor por uma escassez de chips de terras raras na Europa.
Pequim não perdeu tempo em responder: impôs restrições à exportação de componentes e tecnologias produzidas pela Nexperia em território chinês. A decisão limitou o envio de chips e peças montadas em fábricas da empresa no mundo todo.
O efeito cascata que termina no Brasil começa a se desenhar: importamos praticamente todos os semicondutores que usamos e muitos desses componentes vêm de fornecedores que compram chips da Nexperia. Ou seja, logo, deve faltar.
A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) manifestou preocupação com o assunto.
Começamos a receber notificações sobre uma iminente interrupção de fornecimento de peças. Nossa indústria pode começar a parar nas próximas duas ou três semanas", disse Igor Calvet, presidente da entidade, à Folha de S.Paulo.
Ele levou a questão para Geraldo Alckmin, ministro do Mdic (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), em reunião que aconteceu ontem.
Volkswagen, Stellantis, GM, Toyota, Hyundai e BYD estão entre as primeiras montadoras a serem prejudicadas pela escassez, uma vez que não têm opções de fornecedores nacionais para os chips.
O impacto da falta de semicondutores mexe não apenas com a indústria automotiva, mas com toda a cadeia de produtos eletrônicos, como a de celulares e computação, passando pelos setores elétrico e de eletrodomésticos.
**ÁGUA NO CHOPP DAS CERVEJEIRAS**
Na semana passada, você leu aqui que a Ambev, dona de 60% do mercado cervejeiro do país, viu uma queda no volume de vendas no último ano -tanto no Brasil quanto em outros mercados. A Heineken, principal concorrente da brasileira, lançou ontem resultados que mostram um movimento parecido.
Está na moda culpar o Brasil por resultados globais abaixo do esperado? Na edição de ontem da newsletter, discutimos o balanço da Netflix, que apontou a tributação brasileira como responsável por débitos inesperados.
Agora, a Heineken faz algo parecido. No balanço do terceiro trimestre, divulgado ontem, a cervejaria holandesa cita o enfraquecimento do sentimento do consumidor, sobretudo nos EUA e no Brasil.
4,3% foi o tamanho da queda no volume de cerveja vendido pela companhia de julho a setembro, em relação ao trimestre anterior.
O declínio foi maior do que o registrado no segundo trimestre do ano, quando houve contração de 4,1% nas vendas dos mais de 300 rótulos da companhia.
7,33 bilhões de euros foi a receita líquida do período.
No balanço, a empresa justificou a desaceleração dizendo que há incertezas comerciais na América do Norte e do Sul e crescimento lento contínuo na Europa.
VAI MELHORAR?
Não muito, na visão da Heineken -que pode servir de horizonte para a Ambev.
A holandesa disse esperar que os volumes de cerveja "diminuam modestamente" em todo 2025. O crescimento do lucro anual estaria no limite inferior de sua faixa de previsão de 4% a 8%.
Mesmo assim, o desempenho das ações da Heineken no pregão de ontem foi positivo. Os papéis terminaram a quarta-feira em alta de 1,05% na bolsa de Amsterdã. Isso acontece porque, ainda que os resultados tenham caído, ficaram alinhados com as expectativas do mercado.
RELEMBRANDO
Os três motivos citados por especialistas para a queda das vendas de cerveja da Ambev no Brasil são:
- Temperaturas mais frias ao longo do ano, o que reduz o apetite dos consumidores por cerveja.
- Ascensão de um estilo de vida mais saudável, que desincentiva o consumo de álcool.
- O aumento de volume produzido pela concorrência.
**GOSTO AMARGO NA BOCA**
Imaginar uma área desmatada do tamanho da cidade de São Paulo incomoda. Pensar no dobro disso incomoda muito mais.
A cafeicultura brasileira foi responsável direta pelo desmatamento de ao menos 313 mil hectares de floresta -tamanho equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo- nos últimos 25 anos, segundo levantamento inédito da Coffee Watch. Já pensou quantos cafezinhos isso dá?
COMO ASSIM?
A pesquisa, obtida no Brasil com exclusividade pela Folha de S.Paulo, aponta que, entre 2001 e 2023, a perda florestal em fazendas brasileiras de café somou 737 mil hectares, sendo 313 mil diretamente convertidas em cafezais.
Além disso, mais de 11 milhões de hectares de florestas foram perdidos em municípios onde há cultivo de café. Isso inclui o desmatamento indireto, que é aquele causado pela chegada de infraestrutura e o aumento da população na região.
QUAL É O PROBLEMA?
A organização diz que essa redução de área florestal compromete a qualidade do solo, aumenta os riscos de incêndios e afeta o regime de chuvas nas regiões cafeeiras, o que, entre outros fatores, contribui para a alta no preço do produto.
O relatório associa o desmatamento à instabilidade das chuvas nas regiões cafeeiras nos últimos anos. Em 2014, uma forte seca nas regiões produtoras comprometeu a safra. Desde então, oito dos últimos dez anos registraram déficits pluviométricos, segundo o relatório.
Com isso, as safras ficaram aquém do esperado e os estoques globais caíram, o que contribuiu para a alta de preços que o setor enfrenta há pelo menos dois anos.
PIORA
A pesquisa surge em um momento delicado para a cafeicultura brasileira: produtores daqui tentam provar para compradores europeus e americanos -os dois maiores mercados do mundo- que eles cultivam o grão de forma sustentável.
Uma das barreiras é a lei antidesmatamento aprovada pela União Europeia. Ela proíbe que países do bloco comprem diversos produtos agrícolas que tenham sido cultivados em áreas desmatadas após dezembro de 2020.
Na terça (21), a Comissão Europeia propôs uma flexibilização da norma, mas manteve o início da aplicação para 30 de dezembro de 2025.
Perder o mercado europeu neste momento seria desastroso para a cafeicultura brasileira, que já sofre um revés importante com a tarifa de 50% imposta por Donald Trump às importações brasileiras, medida que reduziu muito a venda desses bens para compradores americanos.
De repente, o café deixou um gostinho amargo na boca.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
NEM QUE A VACA TUSSA
Trump mostra resistência em relaxar as tarifas sobre o Brasil e diz que elas salvaram os pecuaristas dos EUA.
ELETROBRAS
Axia Energia é o novo nome da Eletrobras. A ideia da empresa, privatizada em 2022 pelo governo Jair Bolsonaro, é se afastar do nome que remete à época estatal.
PROBLEMAS NA ARGENTINA
O chanceler do país, Gerardo Werthein, pediu demissão a dias das eleições legislativas do país, que acontecem no domingo (26). O pleito pode ser decisivo para o governo de Javier Milei.
NÃO AGRADOU
Ontem, falamos na newsletter sobre o balanço trimestral da Netflix, visto como fraco pelo mercado. A reação da bolsa veio: as ações da companhia despencaram 8% no pregão da quarta-feira.
LUZ APAGADA
As lâmpadas LED vendidas no Brasil seriam as mais ineficientes da Europa, segundo um novo levantamento da Clasp.