Estudos identificam mais de 120 tecnologias emergentes e apontam mudanças profundas na qualificação exigida pelo setor.
Reunidos nos Cadernos Prospectivos da Base Industrial de Defesa, os oito estudos analisam mudanças tecnológicas, organizacionais e ocupacionais previstas para áreas consideradas estratégicas. Ao todo, foram identificadas mais de 120 tecnologias emergentes com potencial para alterar a estrutura da indústria ao longo da próxima década.
A inteligência artificial e a cibersegurança aparecem em todos os segmentos analisados. Engenharia digital, sensores inteligentes, gêmeos digitais e integração digital do ciclo de vida também estão entre as tecnologias com presença mais ampla.
As transformações alcançam setores como indústria aeroespacial, sistemas de defesa cibernética, plataformas militares terrestres, marítimas e fluviais, munições, mísseis, foguetes, sistemas de comando e controle, além de equipamentos militares.
O avanço tecnológico tende a reduzir o peso de algumas atividades estritamente operacionais e aumentar a importância de funções relacionadas à integração de sistemas, análise de dados, monitoramento, gestão tecnológica e tomada de decisões em ambientes complexos.
Com isso, competências como engenharia de sistemas, cibersegurança, tecnologias digitais, gestão do ciclo de vida e governança deverão ganhar espaço. Entre as habilidades consideradas importantes estão capacidade de analisar e integrar sistemas, interpretar dados, resolver problemas complexos e tomar decisões baseadas em evidências.
Pensamento analítico, visão sistêmica, adaptabilidade e capacidade de aprendizado contínuo também aparecem como características cada vez mais relevantes para quem pretende atuar na indústria de defesa.
A mudança deverá exigir atualização de currículos, criação de cursos de especialização e programas de requalificação profissional, além de maior aproximação entre empresas, Forças Armadas, universidades, centros de pesquisa e instituições de formação técnica.
A indústria de defesa, no entanto, não se limita à fabricação de armamentos. O setor envolve aeronaves, navios, veículos, satélites, radares, drones, sistemas de comunicação e soluções de segurança digital. Muitas dessas tecnologias possuem aplicação civil e podem ser utilizadas em áreas como agricultura, logística, monitoramento ambiental e prevenção de desastres.
Apesar das oportunidades, os estudos apontam obstáculos importantes para o Brasil. Entre eles estão a dependência de tecnologias estrangeiras, dificuldades de financiamento, fragmentação das cadeias produtivas, falta de profissionais especializados e vulnerabilidades na área de segurança cibernética.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dessas competências pode ampliar a capacidade de inovação do país, reduzir a dependência externa e fortalecer setores considerados estratégicos para a soberania nacional.
A expansão internacional da indústria brasileira de defesa reforça esse movimento. As autorizações para exportações do setor alcançaram US$ 1,8 bilhão no primeiro semestre deste ano, crescimento de 29%. Produtos brasileiros da área de defesa já chegaram a 150 países por meio de 130 empresas exportadoras.
Entre os principais produtos comercializados estão aeronaves e componentes, munições, explosivos, armamentos e serviços de engenharia de elevado valor agregado. O desafio agora é fazer com que o avanço das vendas seja acompanhado pela capacidade de desenvolver tecnologia e formar profissionais preparados para uma indústria cada vez mais digital, integrada e sofisticada.