Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h30m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Gigantes do varejo tropeçam no próprio crediário

Juros altos, consumo enfraquecido e avanço do varejo digital pressionam redes tradicionais e expõem a fragilidade de modelos dependentes do crédito

Vitória News 18/08/2026 11:23
Gigantes do varejo tropeçam no próprio crediário
Imagem gerada por IA/VN

O varejo brasileiro de móveis e eletrodomésticos atravessa um de seus momentos mais delicados das últimas décadas. Duas marcas conhecidas por gerações de consumidores, Casas Bahia e Marabraz, recorreram à recuperação judicial após acumularem dificuldades financeiras que, embora tenham origens distintas, revelam um mesmo pano de fundo: o encarecimento do crédito, a retração do consumo e a transformação acelerada do mercado.

A situação mais grave é a das Casas Bahia. A empresa informou passivos superiores a R$ 17 bilhões e chegou à recuperação judicial após uma sequência de prejuízos e dificuldades para equilibrar uma estrutura construída para crescer em um cenário de juros baixos. A rede investiu pesadamente em tecnologia, logística e digitalização, ao mesmo tempo em que enfrentava concorrentes cada vez mais agressivos no comércio eletrônico. Quando o custo do dinheiro disparou, a equação deixou de fechar.

O impacto da crise ganha dimensão ainda maior quando se observa a presença histórica da empresa no Espírito Santo. Durante décadas, as Casas Bahia construíram uma forte rede de lojas no Estado, instalando unidades em municípios como Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Guarapari, Linhares, Colatina, São Mateus e Cachoeiro de Itapemirim. Em muitos desses locais, a marca se tornou referência para famílias que realizaram a compra do primeiro televisor, da primeira geladeira ou do primeiro conjunto de móveis por meio do tradicional carnê.

Durante anos, o crediário foi uma das principais armas das Casas Bahia. O modelo permitiu que milhões de brasileiros adquirissem bens duráveis em prestações compatíveis com a renda familiar. O problema é que esse mesmo mecanismo depende da existência de crédito abundante e relativamente barato. Com juros elevados, a inadimplência cresce, o financiamento fica mais caro e o consumidor passa a adiar compras consideradas não essenciais.

A Marabraz, por sua vez, enfrenta uma crise de menor dimensão financeira, mas igualmente preocupante. A empresa entrou em recuperação judicial com dívidas estimadas em cerca de R$ 140 milhões. Além das dificuldades provocadas pelo cenário econômico, pesaram conflitos societários e familiares que comprometeram a capacidade de gestão e de tomada de decisões estratégicas. O resultado foi uma empresa fragilizada justamente quando o mercado exigia rapidez, capital e capacidade de adaptação.

Embora as duas histórias apresentem diferenças importantes, elas convergem em um ponto central: ambas nasceram e cresceram vendendo produtos duráveis para consumidores dependentes de financiamento. Quando o crédito encolhe, o modelo de negócios sofre diretamente.

O avanço das plataformas digitais também alterou profundamente a dinâmica do setor. Empresas com estruturas mais leves, operações altamente automatizadas e alcance nacional passaram a disputar os mesmos clientes. A competição deixou de ocorrer apenas entre redes tradicionais e passou a envolver gigantes globais do comércio eletrônico, pressionando margens de lucro e exigindo investimentos permanentes em tecnologia.

No caso das Casas Bahia, a transformação é ainda mais simbólica. A empresa que durante décadas foi considerada uma das maiores redes varejistas do país chegou a operar centenas de lojas físicas e se tornou uma das marcas mais reconhecidas do mercado brasileiro. No Espírito Santo, sua presença ajudou a movimentar centros comerciais, gerar empregos e fortalecer cadeias de fornecedores e prestadores de serviços. A crise, portanto, ultrapassa os limites da companhia e serve como termômetro das dificuldades enfrentadas pelo varejo nacional.

As crises de Casas Bahia e Marabraz funcionam como um retrato das mudanças que atingem o comércio brasileiro. Não se trata apenas de má gestão ou de decisões equivocadas. Há erros administrativos, sem dúvida, mas também existe uma transformação estrutural em curso. O consumidor mudou, a concorrência mudou e o custo do dinheiro mudou.

No fim das contas, a lição parece simples. Durante muitos anos, vender a prazo foi a grande força dessas redes. Hoje, paradoxalmente, é justamente a dependência do crédito que se transformou em uma de suas maiores vulnerabilidades. Em um país onde a prestação sempre foi parte da cultura de consumo, o varejo descobriu que o crediário continua sendo um excelente aliado nos tempos de bonança, mas pode se tornar um adversário implacável quando a economia muda de direção.

Para milhares de capixabas, as Casas Bahia e a Marabraz não são apenas empresas em dificuldade. São marcas que fizeram parte da história de consumo de várias gerações. A recuperação dessas redes dependerá não apenas de ajustes internos, mas da capacidade de se reinventarem em um mercado cada vez mais digital, competitivo e menos tolerante a modelos de negócios excessivamente dependentes do crédito.



Compartilhe esta notícia
Anuncio - Raimundo - Bonus Senac 16 de julho — Capa (rail) SESC PICASSO CONTADOR - BONUS

Notícias Relacionadas