Despesas crescem acima da arrecadação no início do ano e reforçam alertas sobre pressão fiscal e aumento da dívida pública
As despesas públicas brasileiras já ultrapassaram R$ 560 bilhões em 2026, segundo dados consolidados pela plataforma Gasto Brasil, que monitora em tempo real os gastos das três esferas de governo. Do total apurado até o início de fevereiro, mais de R$ 230 bilhões correspondem a despesas da União, cerca de R$ 160 bilhões dos estados e do Distrito Federal e aproximadamente R$ 175 bilhões dos municípios.
Os valores englobam gastos com pessoal e encargos sociais, investimentos, inversões financeiras e demais despesas correntes. No mesmo período, a arrecadação tributária somou cerca de R$ 480 bilhões, o que indica que a despesa pública já supera a receita acumulada em 2026.
O descompasso ocorre em um cenário de atenção redobrada à política fiscal. De acordo com o primeiro Relatório de Acompanhamento Fiscal do ano, divulgado pela Instituição Fiscal Independente, o déficit primário legal registrado em 2025 foi de R$ 9,5 bilhões, equivalente a 0,1% do Produto Interno Bruto, dentro do limite permitido pela meta fiscal. Já o déficit efetivo, que considera todas as despesas, alcançou R$ 61,7 bilhões, ou 0,5% do PIB, contribuindo para o avanço da dívida pública.
Para 2026, a lei orçamentária ampliou as exceções ao arcabouço fiscal de 6,7% para 8,2% das despesas totais, o que representa cerca de R$ 230 bilhões fora das regras fiscais. A IFI avalia que essa ampliação eleva os riscos na execução do orçamento, especialmente nas despesas previdenciárias, consideradas sensíveis a revisões de parâmetros e subestimações.
Outro ponto de preocupação é o peso das despesas obrigatórias, que reduz o espaço para gastos discricionários e investimentos públicos. Segundo a IFI, esse espaço varia entre 5% e 10% do orçamento, limitando a capacidade do governo de ampliar investimentos e afetando o potencial de crescimento da economia.
Diante desse quadro, a avaliação é de que o governo federal deve priorizar, em 2026, uma gestão fiscal de curto prazo, com foco em evitar a ampliação do déficit primário. Medidas estruturais de ajuste, como reformas administrativas, previdenciárias ou novos aumentos de tributos, tendem a ser adiadas em razão do ambiente político e eleitoral.
Mesmo com o esforço para zerar o déficit, o resultado projetado ainda ficaria distante do superávit primário superior a 2% do PIB considerado necessário para estabilizar a trajetória da dívida pública no médio prazo.