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Economia

Fazenda suspeita de lavagem de dinheiro em programa defendido por Lira, e líderes cobram explicações

FolhaPress 06/02/2024 18:02

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, alertou lideranças do Congresso Nacional que o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) teria aberto margem para operações de lavagem de dinheiro de atividades ilícitas no país.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os indícios estão sendo investigados pelos fiscais da Receita Federal, após o custo do programa explodir no ano passado. O valor declarado pelas empresas chegou a R$ 17 bilhões, enquanto a estimativa era de um gasto anual de R$ 4,4 bilhões.

Números preliminares repassados pela área técnica ao Palácio do Planalto apontam que o custo do programa pode ter chegado até R$ 30 bilhões com as possíveis fraudes que vêm sendo detectadas pelo Fisco.

A interlocutores do Congresso e do empresariado Haddad vem afirmando em conversas reservadas que o programa precisa acabar, sob o risco de a política pública estar servindo de estímulo a irregularidades.

A revogação do Perse foi incluída pelo governo na MP (medida provisória) de reoneração gradual da folha de pagamentos para 17 setores e prefeituras, que enfrenta resistências na Câmara e no Senado.

Nos bastidores, líderes da Câmara dos Deputados ouvidos pela reportagem afirmam que, diante desses alertas de irregularidades, é preciso que a Fazenda apresente informações que comprovem que houve operações ilícitas. Eles dizem que, se há indícios de ilegalidades, é preciso apurar os fatos.

Parlamentares também cobraram da Fazenda maior esclarecimento sobre a renúncia efetiva de receita tributária decorrente do benefício fiscal. O valor da renúncia já gerou atrito público entre o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e Haddad.

SESC PICASSO

Autor do projeto de lei que deu origem ao Perse, o deputado Felipe Carreras (PSB-PE) apresentou três pedidos de requerimentos de informações à Fazenda nesse sentido, solicitando, entre outras coisas, um maior detalhamento da efetiva renúncia tributária por códigos da chamada CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas).

Nesta segunda-feira (5), em seu discurso na cerimônia que marcou a abertura do ano legislativo no Congresso, Lira citou nominalmente o Perse como uma "conquista", criticando a decisão do governo de acabar com o programa.

"Conquistas como a desoneração e o Perse, essencial para que milhões de empregos de um setor devastado pela pandemia se sustentem, não podem retroceder sem ampla discussão com este Parlamento", afirmou Lira.

O presidente da Câmara fez uma fala dura, com recados ao governo, afirmando que é preciso que o Palácio do Planalto cumpra com acordos firmados com o Legislativo.

"Seguiremos firmes na prática da boa política, pressuposto mais do que necessário para o exercício da própria democracia. E a boa política, como sabemos, apoia-se num pilar essencial: o respeito aos acordos firmados e o cumprimento à palavra empenhada", disse Lira, sob aplausos de congressistas presentes no plenário.

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As declarações ocorrem em um momento em que o presidente da Câmara elevou as críticas contra o ministro Alexandre Padilha (Secretaria de Relações Institucionais), responsável pela articulação política do Executivo no Legislativo.

O deputado avisou a interlocutores de Lula que, sem a troca de Padilha, a pauta do governo na Casa não avançará. Apesar da pressão, o petista afirmou a pessoas próximas que não pretende tirar Padilha do cargo.

Carreras deve se reunir com Haddad, parlamentares e representantes do setor nesta quarta-feira (7) para tratar do Perse. No mesmo dia, à tarde, ele organiza um ato em defesa do programa na Câmara, onde a resistência é maior contra o fim do regime.

"Tenho a expectativa de que o governo tenha a sensibilidade de não acabar com um programa tão exitoso, que cumpre com o seu papel", diz o deputado.

Em encontro na semana passada com o presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Paulo Solmucci, Haddad falou das possíveis fraudes e dos indícios de lavagem. O ministro projetou uma perda de R$ 100 bilhões de arrecadação em cinco anos, caso o Perse seja mantido.

O benefício do programa zera todos os tributos federais (IRPJ, CSLL, PIS e Cofins) em um setor que o Ministério da Fazenda considera que já se reergueu da pandemia e está em "franca recuperação".

É com base nesse argumento que a equipe econômica também tenta convencer senadores e deputados a extinguir o programa. A própria zeragem dos tributos federais do Perse é que estimula a lavagem, de acordo com o diagnóstico da Fazenda.

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Pela MP do Haddad, o fim do programa só estará completamente concluído em 2025, quando a cobrança do IR volta a vigorar.

A redução do benefício às empresas ainda em 2024 tira R$ 6 bilhões das receitas do governo, valor que pode subir a R$ 12 bilhões no caso de manutenção integral do incentivo, como querem os congressistas.

Por outro lado, o Ministério da Fazenda conta com uma economia de ao menos R$ 16 bilhões com a revogação do Perse.

Uma das organizadoras do ato em defesa da manutenção do Perse, a Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) alerta que a revogação pode gerar judicialização.

A FecomercioSP integra uma coalizão com várias entidades do setor produtivo, como a CNC (Confederação Nacional do Comércio) e a FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), que fazem parte da mobilização no Congresso.

"É muito ruim essa medida do governo porque ela muda a regra no meio do jogo", afirma o coordenador do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Guilherme Dietze.

Ele contesta a avaliação do governo de que o setor já se recuperou da pandemia e não precisa mais do programa emergencial. De acordo com Dietze, os dados de turismo nacional mostram que o setor ainda está quase 10% abaixo do nível pré-pandemia.

Dietze ressalta que o programa estava previsto para acabar em 2026 e que o seu fim antecipado causaria insegurança jurídica.

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