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Economia

Dólar fecha em R$ 5,91, maior valor nominal da história, em reação a aumento da isenção de IR

FolhaPress 27/11/2024 18:49

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar disparou 1,81% nesta quarta-feira (27) e fechou cotado a R$ 5,913, o maior valor nominal da história. O recorde anterior era de R$ 5,905, atingido em 13 de maio de 2020, no estouro da pandemia de Covid-19.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A máxima nominal histórica desconsidera a inflação do cálculo.

O movimento no câmbio foi em reação à notícia de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vai fazer um pronunciamento em cadeia nacional para anunciar a elevação da faixa de isenção da tabela do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física) para R$ 5.000.

Na transmissão, prevista para ir ao ar às 20h30, Haddad também deve explicar o pacote de corte de gastos que vem sendo costurado pela Fazenda nas últimas semanas.

A notícia, veiculada às 13h45, fez efeito imediato no dólar. Então cotada a R$ 5,83, com o mercado à espera das medidas fiscais, a moeda norte-americana foi a R$ 5,90 em poucos minutos. Na máxima da sessão, às 15h50, chegou a R$ 5,929.

Já a Bolsa despencou 1,73%, aos 127.668 pontos.

O aumento da faixa de isenção, confirmado pela Folha de S.Paulo, é defendido por integrantes do governo como contraponto político a medidas do pacote que atingirão benefícios sociais.

Interlocutores da equipe econômica apostam na medida como uma maneira de aplacar o impacto negativo do pacote sobre quem recebe o salário mínimo.

A espera pelo pacote fiscal completa um mês nesta semana. Prometidas para depois das eleições municipais, que acabaram em 27 de outubro, as medidas -e a expectativa prolongada- têm pautado os ânimos dos investidores.

A notícia envolvendo o IR, para o mercado financeiro, "demonstra falta de comprometimento do governo com a situação fiscal do país", diz Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos.

SESC PICASSO

"Todo mundo está aguardando o anúncio do pacote para entender aonde vão as contas públicas, de onde sairão os cortes, e o governo continua pensando em medida populista. Ele diz que vai cortar o aumento do salário mínimo, que é o que se espera, e, com a outra mão, vai isentar o IR para quem ganha até R$ 5.000."

A faixa de isenção hoje é de dois salários mínimos (R$ 2.824). No PLOA (Projeto de Lei Orçamentária) de 2024, não há previsão nem mesmo de reajustar a faixa de isenção com o aumento do salário mínimo já previsto.

A correção da tabela é uma promessa de campanha de Lula, que cobra a medida de Haddad desde o início do governo.

A expectativa é que a ampliação da faixa de isenção traga um impacto negativo de R$ 40 bilhões no Orçamento, diz André Valério, economista sênior do Inter.

"Isso neutraliza as expectativas de redução de gastos que estavam sendo esperadas pelo mercado e alimenta temores de que o governo federal não irá corrigir o desequilíbrio fiscal existente, além de gerar impulso fiscal adicional que não é bem-vindo no contexto atual de uma atividade econômica aquecida."

O anúncio de pronunciamento também repercutiu no mercado de títulos do Tesouro Direto, que suspendeu as negociações por cerca de 1h30 em meio à alta volatilidade.

As medidas de contenção de gastos endereçam temores do mercado sobre a sustentabilidade do arcabouço fiscal, o conjunto de regras que visa o equilíbrio das contas públicas do país.

CONTADOR - BONUS

Para os agentes financeiros, é preciso ajustes na ponta das despesas, e não só reforços na arrecadação, para diminuir a dívida pública.

"É difícil entender a lógica usada na administração das contas públicas, que é a do populismo. É incoerente. O governo precisa equilibrar as contas, e a arrecadação já é recorde, então só precisa cortar gastos. Daí ele vai prejudicar a arrecadação, aumentando a isenção do IR, e não traz nada efetivo sobre o corte de gastos", afirma Denis Medina, economista e professor da Faculdade do Comércio.

O pacote foi prometido ainda em meados de outubro pela ministra Simone Tebet (Planejamento e Orçamento), e a expectativa dos agentes econômicos têm crescido desde então.

Os sucessivos adiamentos desgastaram a imagem de Haddad ao evidenciarem as dificuldades políticas para estruturar o plano, de acordo com representantes de setores econômicos ouvidos pela reportagem. A demora elevou a pressão por medidas que sejam robustas e tenham números críveis, o que deve ser ainda mais cobrado se o aumento da isenção do IR se concretizar.

O tamanho do corte é estimado por integrantes do governo em R$ 70 bilhões -entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões em 2025, e de R$ 40 bilhões em 2026.

Até terça, porém, negociações ainda não concluídas sobre ajustes nas regras de Previdência dos militares impediam que um número fosse cravado.

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Além dos benefícios dos militares, dentre as medidas que devem ser anunciadas estão mudanças para limitar os ganhos do salário mínimo. Também está em discussão o fortalecimento de ferramentas antifraude em benefícios sociais, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que é pago a idosos ou pessoas portadoras de deficiência de baixa renda.

"O que pega mal é que você está trabalhando há séculos em um pacote para mostrar responsabilidade fiscal, aí praticamente explode o pacote quando vem essa notícia. Tira o foco e divide as atenções", diz Daniel Leal, estrategista de renda fixa da BGC Liquidez.

Em resposta, o real foi na contramão das principais moedas globais nesta sessão, que apresentaram fortes ganhos em relação ao dólar.

No índice DXY, que compara a divisa norte-americana a uma cesta de outras seis moedas fortes, a queda foi de 0,72%. O mercado internacional respondeu a uma bateria de dados econômicos dos Estados Unidos, de olho nos próximos passos do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA).

O PCE (índice de preços de consumo pessoal, na sigla em inglês) veio em linha com o esperado pelo mercado. Indicador favorito do Fed para inflação, ele mostrou uma aceleração de 0,2% em outubro ante o mês anterior. No ano, subiu para 2,3% -em setembro, estava em 2,1%.

Já a segunda estimativa do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, divulgada mais cedo pela manhã, não mostrou alterações em relação à primeira leitura, confirmando que a economia norte-americana cresceu 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Na ferramenta CME Fed Watch, as chances de um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião marcavam 66,3%; as de manutenção no atual patamar de 4,50% e 4,75% reuniam as apostas restantes.

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