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Economia

Dólar dispara para R$ 5,85 e Bolsa cai, com eleições dos EUA e contas públicas do Brasil em foco

FolhaPress 01/11/2024 16:57

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar apresenta forte alta nesta sexta-feira (1°), com dados fracos de emprego dos Estados Unidos e a proximidade do fim das eleições presidenciais do país sob os holofotes.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Além disso, no Brasil, temores de investidores com as contas públicas ainda são fatores de pressão. Fernando Haddad, ministro da Fazenda, estará em viagem à Europa na próxima semana, tornando "praticamente impossível", segundo um interlocutor, que o governo apresente uma definição sobre o pacote de revisão de gastos nos próximos dias.

Às 15h33, a moeda norte-americana subia 1,30%, a R$ 5,856, em sessão marcada por alta volatilidade. Esse é o maior patamar para a divisa desde o início da pandemia: no fechamento de 15 de maio de 2020, estava cotada em R$ 5,841.

Já a Bolsa tinha forte queda de 1,02%, aos 128.379 pontos.

O mercado repercute pressões externas e domésticas no câmbio desta sexta-feira.

A começar pela ponta do exterior, o relatório "payroll" (folha de pagamento, em inglês) dos Estados Unidos apontou que 12 mil postos de trabalho foram criados no mês de outubro, ante 254 mil no mês anterior. A expectativa de analistas consultados pela Reuters era de 113 mil novas vagas.

Por outro lado, o relatório também mostrou que a taxa de desemprego americana se manteve em 4,1% no mês, exatamente em linha com o esperado.

A forte desaceleração, segundo especialistas, foi causada por furacões recentes, como o Milton, e greves trabalhistas —em especial a paralisação na Boeing—, o que dificulta uma interpretação mais acertada sobre o significado dos dados desta sexta.

A leitura, apesar disso, é de que o mercado de trabalho está, de fato, mais enfraquecido do que se achava anteriormente, e os agentes financeiros passaram a precificar o peso do relatório sobre a decisão de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) da semana que vem, marcada para 5 e 6 de novembro.

SESC PICASSO

Na ferramenta CME Fed Watch, a probabilidade da autoridade monetária continuar o ciclo de cortes com uma redução mais branda, de 0,25 ponto percentual, marcava 98%. Antes dos dados, estava em 89%.

O movimento derrubou os rendimentos dos Treasuries, os títulos ligados ao Tesouro norte-americano, o que, por sua vez, tirou parte da atratividade do dólar para os investidores. A moeda chegou a cair momentaneamente no Brasil, atingindo a mínima de R$ 5,76 na sessão.

Mas a valorização do real não conseguiu se sustentar. Segundo analistas, os principais motivos para a permanência do dólar em patamares tão altos no Brasil são a proximidade das eleições presidenciais dos EUA e a cautela em relação à cena fiscal.

"Com a eleição norte-americana na reta final e sem qualquer perspectiva para o plano de contingenciamento de gastos do governo brasileiro, parece não haver um único motivo para que o dólar volte a cair", disse Eduardo Moutinho, analista de mercados do Ebury Bank.

Pesquisas de intenção de voto indicam que o candidato republicano Donald Trump e a atual vice-presidente democrata Kamala Harris estão em empate técnico. No mercado de apostas, porém, as chances de um retorno do republicano Casa Branca marcam 66%, segundo a plataforma Polymarket.

As promessas econômicas de Trump incluem aumento tarifário sobre as importações, especialmente as chinesas, e um possível corte de impostos —medidas que são vistas como inflacionárias e que podem influenciar o Fed a manter juros elevados por mais tempo, o que fortalece o dólar.

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"O mercado espera uma vitória de Trump, que, por diversos fatores, tende a fortalecer o dólar durante seu mandato e a manter a inflação e os juros elevados por mais tempo. Kamala, por outro lado, sem o apoio do Senado, provavelmente enfrentaria limitações para implementar mudanças significativas, o que manteria o dólar em um patamar um pouco mais baixo em relação a outras economias", afirma Keone Kojin, economista da Valor Investimentos.

Já na ponta doméstica, os investidores seguem atentos às contas públicas: para eles, é preciso ajustes na ponta das despesas, e não só reforços na arrecadação, para garantir a longevidade do arcabouço fiscal.

O mal-estar do mercado começou na terça-feira, quando Haddad afirmou que as propostas de corte de gastos prometidas pelo governo estão sob análise do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que cabe ao petista definir quando o conjunto será fechado.

A pretensão de encaminhar ao Congresso Nacional ainda em 2024 um pacote de revisão de gastos estruturais foi anunciada pela ministra Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) em 15 de outubro. Na ocasião, afirmou que as medidas seriam enviadas após as eleições municipais, findadas no último domingo.

Para Matheus Massote, especialista em câmbio da One Investimentos, o fato de o pacote fiscal ainda precisar da aprovação de Lula pode "dificultar o processo e afastar a concretização das medidas".

Já na quarta-feira, Haddad disse que há convergência com a Casa Civil em torno da elaboração do pacote, mas ressaltou que o plano passa por análise jurídica e ainda não tem prazo para ser apresentado.

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Em entrevista a jornalistas, ele ainda afirmou que deve ser necessário aprovar uma emenda constitucional para efetivar medidas em análise, ressaltando que elas terão "o impacto necessário para o arcabouço ser cumprido". As falas aliviaram parte dos temores dos investidores, mas não foram o suficiente para arrefecer a pressão sobre o câmbio.

Temores de que a regra seja insustentável a partir de 2027 têm contribuído para a avaliação mais pessimista da política fiscal já no momento presente, o que se reflete nas taxas de juros e no câmbio.

"O real já tem um problema doméstico que é a falta de apresentação de um plano crível de corte de gastos. Isso prejudica tanto a curva de juros quanto o câmbio", disse Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

A equipe econômica do governo, agora, avalia criar um limite global para as despesas obrigatórias, que seguiria o mesmo índice de correção do arcabouço fiscal (expansão de até 2,5% acima da inflação ao ano).

Caso os gastos obrigatórios avancem acima desse patamar, gatilhos de contenção seriam acionados para ajudar a manter a trajetória de despesas sob controle.

A definição sobre o pacote de corte de gastos, porém, poderá mais tempo que o desejado pelo mercado. Haddad estará fora do país, em viagem a quatro capitais europeias, entre segunda-feira (4) e sábado (9).

Isso, somado às reuniões de política monetária do Fed e do BC, bem como às eleições americanas, "em trazido muita tensão, e o investidor procura se proteger no dólar, o que pode trazer novas máximas nos próximos dias", diz Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos.

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