Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h41m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Disputa histórica entre Brasil e EUA sobre algodão é roteiro de retaliação contra Trump

FolhaPress 03/04/2025 11:11

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Uma disputa entre Brasil e Estados Unidos travada na OMC (Organização Mundial do Comércio) no início dos anos 2000 é considerada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como uma espécie de roteiro caso o país decida retaliar a gestão de Donald Trump por causa do tarifaço imposto contra produtos brasileiros.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Na quarta-feira (2), Trump estabeleceu uma sobretaxa de 10% sobre todas as importações do Brasil. O país já havia sido afetado por tarifas nos setores de aço, alumínio e autopeças.

Na análise de como responder ao tarifaço, o embate entre Brasil e EUA que se arrastou por cerca de 12 anos em torno do setor do algodão é constantemente apontado por assessores de Lula como um caso de sucesso que pode ser reeditado, ao menos em parte.

No fim de 2002, o Brasil recorreu à OMC contra subsídios que os americanos davam a seus exportadores de algodão. A queixa era que a política agrícola americana não permitia uma competição justa nos mercados internacionais, o que afetava agricultores brasileiros.

A OMC deu ganho de causa ao Brasil, mas os EUA resistiram a cumprir as determinações da organização. Isso fez com o que o governo Lula da época pedisse à OMC o direito de retaliar comercialmente os americanos. O pleito foi concedido.

SESC PICASSO

A disputa atravessou a gestão Dilma Rousseff e só foi resolvida em 2014, mediante um acordo. O ponto visto pelo Palácio do Planalto como fundamental para convencer os EUA a negociarem uma solução foi a ameaça do Brasil de atingir os americanos na área de propriedade intelectual, na chamada retaliação cruzada.

Em 2014, a Casa Branca aceitou encerrar a questão e compensar o Brasil em US$ 300 milhões.

A Camex (Câmara de Comércio Exterior) chegou a publicar uma lista dos setores que poderiam ser atingidos numa retaliação. Entraram patentes de medicamentos, produtos químicos e biotecnológicos agrícolas e cultivares, além de direitos autorais para o setor audiovisual, entre outros. Também estava previso a possibilidade de o Brasil cobrar adicionais dos americanos para a renovação de patentes no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

"A autorização concedida ao Brasil para aplicar contramedidas também nas áreas de serviços e propriedade intelectual constitui reconhecimento de que, no presente caso, não seria ‘praticável’ ou ‘efetivo’ adotar contramedidas apenas na área de bens, e de que ‘as circunstâncias são suficientemente sérias’ para justificar recursos a medidas em outras áreas", dizia trecho de resolução da Camex publicada em 2010.

CONTADOR - BONUS

A leitura de autoridades que trabalharam diretamente com o caso é que a ameaça de retaliação foi mais eficiente contra o setor audiovisual.

No Brasil, a opção por uma retaliação cruzada é considerada mais adequada por duas razões. Primeiro, propriedade intelectual é um segmento que efetivamente pode causar os danos para convencer os EUA a negociarem, uma vez que eles mantêm superávits nessa área com praticamente todo o mundo.

Por outro lado, afasta o principal risco de uma sobretaxação de bens americanos: a de gerar efeitos colaterais indesejados para a economia brasileira.

Os principais produtos importados pelo Brasil dos EUA em 2024 foram motores e máquinas, óleo combustível, aeronaves e gás natural, além de medicamentos. Aplicar um imposto linear sobre essa pauta poderia gerar um choque inflacionário, por exemplo.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Interlocutores do governo Lula dizem que pretendem esgotar todas as opções de negociação antes de decidir sobre uma retaliação contra os EUA. Em nota horas após o anúncio de Trump desta quarta, o governo Lula disse avaliar "todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral, inclusive recurso à Organização Mundial do Comércio, em defesa dos legítimos interesses nacionais".

A principal diferença do caso atual para o do algodão é que, agora, o Brasil não esperaria por uma autorização da OMC para retaliar. A ação junto à organização citada pelo nota do governo é um gesto simbólico, de valorização do sistema multilateral de solução de controvérsias.

A organização está paralisada por uma obstrução dos EUA iniciada há quase 10 anos. Mesmo que estivesse em funcionamento, um julgamento no órgão pode se arrastar por anos, e o governo Lula considera que precisa ter a flexibilidade para reagir com rapidez ao tarifaço de Trump.

Por isso, o governo costurou, junto com a bancada ruralista, a aprovação de um projeto de lei no Congresso que autoriza o governo a adotar medidas retaliatórias mesmo sem um julgamento no âmbito da OMC. A ideia foi criar um arcabouço legal que permita ao país responder de forma mais rápida caso seja submetido a medidas protecionistas que gerem impacto no comércio internacional.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas