Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 09h41m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Desemprego e pobreza já preocupam mais que inflação na Argentina

FolhaPress 23/07/2024 13:01

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Trabalhador da construção, o argentino Elio Cabelier, 31, está preocupado. "Sempre ganhei a vida fazendo casas, piscinas, trabalhando como pedreiro registrado. Mas a situação agora é pior que no ano passado. Os salários não chegam ao fim do mês."

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Nascido na cidade de Gualeguaychú (Entre Ríos), Cabelier hoje mora no norte da Grande Buenos Aires. Na família, três de seus irmãos mais velhos também buscam trabalho. Com o setor em crise —as obras públicas foram interrompidas pelo governo do presidente Javier Milei e o mercado imobiliário está travado pela recessão econômica—, ele não descarta se mudar para o Brasil.

"A esperança é a última que morre, mas é preciso encontrar uma forma de fomentar o trabalho e ajustar o país. A Argentina é rica em tudo, é uma pena que esteja assim", resume.

A busca por emprego é um problema crescente no país vizinho, enquanto a inflação deixa de ser a maior preocupação. É o que mostra um levantamento, feito de 5 a 9 de junho, pela consultoria Opina Argentina.

Pela primeira vez, o desemprego, com 37%, apareceu como o principal motivo de preocupação para 2.591 entrevistados pela internet, que foram questionados sobre qual seria o maior problema que o governo Milei deveria solucionar.

"No último mês, a percepção desse problema subiu oito pontos percentuais, relegando a inflação ao segundo lugar, com 29%. Quanto maior a idade, maior é a preocupação com o desemprego", concluiu a consultoria.

No levantamento de maio, as duas respostas apareceram empatadas, com 29%. A inflação liderava a lista de preocupações desde setembro de 2023.

O medo de perder o emprego (54%) permaneceu estável no último mês. Este sentimento é de 27% entre os menores de 29 anos, mas de 57% entre aqueles com mais de 55 anos.

SESC PICASSO

Na sexta-feira (12), o Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) divulgou que a inflação mensal de junho foi de 4,6%, mostrando uma leve aceleração ante o mês anterior (4,2%). No ano, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) é de 271,5%.

Há duas semanas, o instituto divulgou que a taxa de desemprego chegou a 7,7% no primeiro trimestre, ante 5,7% no fim do ano passado —a maior para o primeiro trimestre desde o fim da pandemia. Isso significa aproximadamente 300 mil novas pessoas sem trabalho desde o trimestre anterior.

"Não chega a ser ainda um desemprego dramático, de 14%, 15%, mas as pessoas estão prestando atenção ao que vai acontecer no futuro", avalia o economista Fábio Giambiagi, pesquisador associado do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas).

Nesse cenário, diz ele, é natural que as pesquisas comecem a identificar um receio das pessoas em relação ao mercado de trabalho. "Em partes, o problema não é tanto o desemprego em si, mas a precariedade do emprego."

Com a posse de Milei, em dezembro de 2023, teve início um programa de choque na economia, com corte de gastos e de subsídios, demissões no Estado e congelamento de aposentadorias.

CONTADOR - BONUS

O PIB (Produto Interno Bruto) do país caiu 2,6% no primeiro trimestre, em relação ao quarto trimestre de 2023, e acumulou dois trimestres seguidos de baixa (em valores ajustados sazonalmente). Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o PIB de janeiro a março caiu 5,1%.

A recessão atingiu os consumidores com força e prejudica as vendas do comércio, enquanto os cortes de gastos de Milei paralisaram projetos estatais de infraestrutura e provocaram grandes perdas de postos de trabalho em diferentes setores.

A queda do consumo afeta fortemente as pequenas e médias empresas do país, que são fonte de 70% dos postos de trabalho, segundo entidade que as representa.

De acordo com Daniel Rosato, presidente da IPA (Associação Argentina das PMEs Industriais), o setor atravessa uma situação difícil em decorrência das políticas implementadas pelo governo.

Um estudo elaborado pelos economistas Fernando Bercovich e Martín Kalos indica que a contração da atividade econômica segue acelerando após seis meses consecutivos de queda, o que impacta nas PME industriais.

"Elas primeiro abriram mão de suas margens de lucro, depois anteciparam férias, cortaram horas extras e suspenderam trabalhadores, e agora estão em processo de aceleração de demissões", segundo o texto.

O relatório indica que para muitas dessas empresas o próximo passo é iniciar o processo de fechamento. "É muito difícil recuperar o emprego quando as empresas são destruídas, mesmo que a economia volte a crescer."

Entre os grandes empresários, uma crítica recente custou a Teddy Karagozian, do setor têxtil, o posto de conselheiro do presidente. Em uma entrevista na TV, ele disse que o mercado não vê com bons olhos as medidas econômicas do governo.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Ele disse que as medidas tomadas pelo ministro da Economia, Luis Caputo, são financeiras e que "o desemprego no setor privado é notório".

Milei, por sua vez, tem argumentado que o país precisa colocar as finanças em ordem após anos de déficits fiscais que levaram a calotes regulares da dívida soberana e feriram a reputação do país com investidores globais.

Desde que assumiu o poder, ele tem estimulado os mercados com um foco firme no superávit fiscal, o que, por enquanto, conseguiu produzir. Mas analistas apontam que os resultados foram garantidos com a "paz dos cemitérios" de uma economia atingida, com o crescimento da pobreza e da falta de moradia.

Um estudo recente realizado pela Universidade Católica Argentina concluiu, a partir de dados do Indec, que a pobreza atingia 55% da população e a indigência, 18% no primeiro trimestre.

Outro levantamento, da consultoria Trespuntozero, perguntou a 1.140 argentinos, de 24 a 26 de junho, qual era o principal problema atualmente: 30,5% apontaram a pobreza e 26,8% a inflação.

O governo argentino tem rebatido os dados de aumento da pobreza. A um jornalista, Milei chegou a dizer que, se tantas pessoas não chegassem ao fim do mês —por estarem desempregadas ou não ganharem o bastante para a sobrevivência—, haveria um grande número de mortos nas ruas.

No fim do mês passado, o presidente associou a pobreza ao pensamento socialista. "Quando alguém deixa de ser pobre, o socialismo perde um cliente", disse ele, ao participar da CPAC Brasil, em Balneário Camboriú (SC).

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas