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Economia

Depois de bater R$ 6,30, dólar despenca com leilões do BC e pacote fiscal no Congresso

FolhaPress 19/12/2024 18:48

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar despencou 2,28% nesta quinta-feira (19) e fechou cotado a R$ 6,124, sob efeito dos dois leilões realizados pelo BC (Banco Central) pela manhã.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A autoridade monetária vendeu mais US$ 8 bilhões para o mercado na modalidade à vista -a maior intervenção em um único dia desde 1999, quando o país adotou o regime de câmbio flutuante.

A moeda estava em alta firme na abertura das negociações e chegou a tocar R$ 6,30 pela primeira vez, mas a segunda atuação do BC reverteu o movimento.

Os investidores, em paralelo, seguiram atentos à tramitação do pacote fiscal do governo no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados aprovou, em primeiro turno, o texto-base da PEC (proposta de emenda à Constituição).

Os dois leilões realizados pelo BC nesta manhã se somaram a uma sequência de intervenções da autoridade monetária desde a semana passada. Foram nove ao todo, somando mais de US$ 20 bilhões injetados no mercado.

O primeiro desta quinta, de US$ 3 bilhões, acolheu seis propostas entre 9h15 e 9h20. O segundo, de US$ 5 bilhões, aceitou 10 propostas entre 10h35 e 10h40.

"O primeiro, a princípio, não surtiu o efeito esperado. Com isso, o BC fez o segundo leilão, que garantiu uma apreciação do real", diz André Valério, economista sênior do Inter.

Os leilões são intervenções do BC no câmbio. Na prática, eles servem para aumentar a quantidade de dólares disponíveis para os investidores, seguindo a lei da oferta e demanda. Ou seja, quanto mais moeda puder ser comprada, menor vai ser a cotação dela.

"As intervenções do BC se justificam pelo excesso de volatilidade e pelo forte fluxo de saída de dólares. Nos dez primeiros dias de dezembro, o fluxo de saída foi de US$ 6,79 bilhões, bem acima da média histórica para esse período, portanto o leilão é uma solução para prover esse fluxo e impedir uma desvalorização desordenada do real", explica Valério.

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As intervenções têm contido a disparada do dólar nos últimos dias, oriunda da crescente desconfiança do mercado quanto à capacidade do governo de equilibrar as contas públicas. Só em dezembro, a moeda norte-americana acumula alta de 4,45% em relação ao real. No ano, registra valorização de 29%.

O futuro presidente do BC, Gabriel Galípolo, negou que a disparada seja fruto de um ataque especulativo do mercado financeiro e afirmou que a percepção dele sobre o tema tem sido bem aceita pelos membros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Não é correto tentar tratar o mercado como um bloco monolítico, vamos dizer assim, como se fosse uma coisa só, que está coordenada andando em um único sentido. Basta a gente entender que o mercado funciona, geralmente, com posições contrárias", disse. "A ideia de ataque especulativo enquanto algo coordenado não representa bem o movimento que está acontecendo no mercado hoje."

Na entrevista a jornalistas, Galípolo, que assumirá o comando da instituição em 1º de janeiro, esteve ao lado do atual presidente, Roberto Campos Neto.

Campos Neto disse que o BC resolveu intervir no câmbio em reação a "operações atípicas no volume que estão acontecendo". Ele citou que os dividendos pagos pelas empresas estão acima da média, que o fluxo financeiro no ano está bastante negativo, apontando para ser um dos piores anos recentes da história, e que as pessoas físicas estão tirando maior volume de recursos do país.

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"A gente tenta fazer uma intervenção que se contrabalanceie em relação ao fluxo que está vendo e, geralmente, fatia o volume que entende que é o razoável para suprir essa liquidez em alguns dias", afirmou Campos Neto.

O movimento no câmbio acontece em meio à tramitação do pacote de corte de gastos do ministro Fernando Haddad (Fazenda) no Congresso Nacional.

A PEC que integra o pacote foi aprovada com boa margem. O placar foi de 344 a 154, sendo que são necessários ao menos 308 votos para fazer uma alteração constitucional. O texto ainda pode ser alterado por meio de destaques. Depois, há a votação em segundo turno.

Desde quarta havia o temor entre lideranças governistas e até mesmo do centrão de que o Executivo não teria o apoio necessário para garantir a aprovação da PEC do pacote. A votação precisou ser adiada diante do risco de derrota.

Diante desse cenário, o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), editou um ato da Mesa Diretora para permitir que deputados que estivessem fora de Brasília pudessem votar remotamente e avisou que quem não votasse teria desconto no salário (o chamado "efeito administrativo").

A PEC aprovada muda o critério de concessão do abono salarial (espécie de 14º salário pago a parte dos trabalhadores com carteira assinada). O texto prevê que, para os trabalhadores que receberão o benefício em 2025, será elegível quem recebia o equivalente a dois salários mínimos do ano-base (neste caso, 2023). O valor equivalente seria o de R$ 2.640.

Mas o texto foi desidratado. O governo Lula sofreu um revés na tentativa de impor um comando mais forte para extinguir brechas que permitem supersalários na administração pública, entre outras medidas alteradas pelos parlamentares.

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O Congresso corre contra o tempo na tentativa de concluir a apreciação dessas medidas ainda esta semana, antes do início do recesso parlamentar na sexta-feira.

Mas, mesmo que o pacote seja aprovado, a conclusão é que ele ainda não é o suficiente para estancar a crise das contas públicas.

"O pacote é medíocre e insuficiente. O governo vai ter que apresentar medidas adicionais para tentar reancorar as expectativas que foram desancoradas por conta do próprio governo. Ele criou a situação atual com uma comunicação truncada na apresentação do pacote, e foi uma grande frustração. Caso aprovado, parte do problema será endereçado, mas ainda falta mais", diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

Já na cena internacional, os investidores repercutiram o corte de 0,25 ponto do Fed sobre a taxa de juros dos EUA, agora na banda de 4,25% e 4,50%. Ainda que tenha vindo exatamente em linha com as expectativas do mercado, não foi uma escolha unânime entre os diretores da autarquia: um deles votou pela manutenção da taxa.

O Fed ainda projeta que a taxa terminal de 2025 será de 4% -ou seja, que haverá apenas 0,50 ponto de redução no ano que vem.

Em entrevista coletiva após a decisão, Jerome Powell, presidente da autarquia, observou que o ritmo mais lento dos cortes projetados para o próximo ano refletia leituras de inflação mais altas em 2024.

"Deste ponto em diante, é apropriado avançar com cautela e buscar o progresso da inflação... a partir de agora, estamos em uma posição em que os riscos estão equilibrados", disse Powell.

A sinalização fez a moeda disparar globalmente, com investidores precificando um dólar ainda mais forte no próximo ano em meio às possíveis políticas econômicas do presidente eleito Donald Trump.

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