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Economia

Demora em obter crédito do BNDES trava planos de expansão da maior mineradora de lítio do Brasil

FolhaPress 01/09/2025 09:21

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ano depois de anunciar um crédito de R$ 487 milhões junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a Sigma Lithium ainda não recebeu o dinheiro, o que a obrigou a diminuir o ritmo de sua expansão. A maior mineradora de lítio do Brasil está em aperto financeiro e tem dificuldades de encontrar uma instituição financeira disposta a ser a fiadora do empréstimo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O empréstimo foi divulgado em 29 de agosto de 2024 como o recurso que tornaria possível a ampliação da produção de lítio da empresa. Hoje, a Sigma tem capacidade de extrair até 270 mil toneladas de lítio concentrado por ano e seu objetivo era chegar a 520 mil ainda neste ano, o que a colocaria como uma das maiores mineradoras do mundo neste setor. Sem o dinheiro, no entanto, não foi possível passar da terraplanagem.

O valor disponibilizado pelo BNDES cobre quase todos os investimentos para a ampliação e é visto como essencial pela empresa. O crédito, anunciado à época, previa uma taxa de juros anual de 7,45% por 16 anos, bem abaixo da atual taxa Selic, de 15%. O dinheiro viria do Fundo Clima, disposto a apoiar empreendimentos ligados à redução de gases de efeito estufa na atmosfera –lítio é a principal matéria-prima das baterias de carros elétricos.

SESC PICASSO

Mas, para efetuar o empréstimo, o BNDES exigiu que a empresa apresentasse uma carta fiança assinada por algum banco brasileiro. Nenhuma instituição financeira procurada pela empresa, no entanto, aceitou até agora ser a fiadora da Sigma. O prazo se encerra em abril do ano que vem, mas as negativas atrapalharam os planos da empresa.

A atual situação financeira da empresa, que tem sofrido com os baixíssimos preços do lítio no mercado internacional, dificulta a obtenção da carta fiança, segundo pessoas próximas da mineradora. Em 2023, por exemplo, o lítio chegou a custar cerca de US$ 8.000 a tonelada, mas, quando a Sigma iniciou seus primeiros embarques para a China, o preço já estava próximo de US$ 2.488 por tonelada. Desde então, já beirou U$ 700 e hoje está em US$ 900.

A queda foi drástica para a empresa, que viu o preço de suas ações despencar 80% desde maio de 2023. Com a desvalorização, a empresa passou a valer 1 bilhão de dólares canadenses, quando antes valia quase 6 bilhões. A Sigma está listada na Bolsa de Toronto e na Nasdaq.

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A queda do preço afetou as receitas da empresa, que preferiu segurar o ritmo das vendas para evitar o mercado em baixa. No último dia 15, por exemplo, a Sigma anunciou uma queda 23% no volume de vendas no segundo trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano passado e de 34% em relação ao primeiro deste ano.

"Retiramos temporariamente o produto do mercado durante períodos de intensa volatilidade de preços para preservar o poder de precificação e proteger as margens de longo prazo", informou a empresa em comunicado a investidores. A estratégia, no entanto, tende a afetar o caixa da empresa, já impactado pelas vendas a preços menores nos últimos meses. Ao final do segundo trimestre de 2024, por exemplo, a empresa tinha um caixa de US$ 75 milhões, que agora é de US$ 15 milhões.

A Sigma diz estar em estágio avançado de discussões com bancos internacionais. "A volatilidade observada no preço do lítio —com variação de aproximadamente 50% no segundo trimestre de 2025— levou a companhia a adotar uma postura cautelosa, optando por aguardar mais um trimestre para buscar condições de mercado mais favoráveis à conclusão dessas operações", afirmou em nota.

Segundo a nota, a empresa não tem buscado mais bancos nacionais, devido ao patamar alto da Selic. Mas frisou que seu plano de investimentos segue conforme previsto.

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De acordo com Rossandro Ramos, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas em lítio no Brasil, a queda do preço do lítio se justifica pelo excesso de oferta pelos chineses, donos de uma das maiores produções do mundo.

"A China viabilizou a produção de lítio com uma concorrência irracional a partir da lepidolita, um mineral com baixo teor de lítio; enquanto o nosso tem 1,6%, o deles tem 0,6%. Mas agora, o governo está criando novas regras, para limitar essa concorrência, o que deve ajudar a aumentar os preços novamente", diz.

"De qualquer forma, essa dor da Sigma é a dor de todos que carecem de uma política de financiamento. Muitos projetos aprovados pelo BNDES podem travar nas garantias de financiamento", complementa.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, há receio dentro do setor de que outras mineradoras sofram as mesmas dificuldades no edital de R$ 5 bilhões do BNDES dedicados a projetos de minerais críticos. Como grande parte dessas empresas têm valor de mercado bem abaixo da Sigma, o entendimento de executivos é que dificilmente algum banco estaria disposto a ser seus fiadores. Dos R$ 46 bilhões que o BNDES analisa, quase metade é de projetos de lítio ou terras raras.

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