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Economia

Crédito consignado bate recorde de reclamações em 2025

FolhaPress 27/06/2025 13:34

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio ao escândalo das cobranças indevidas do INSS e ao lançamento do consignado CLT, as reclamações sobre empréstimos com desconto em folha cresceram 91,2% entre janeiro a maio de 2025 em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da plataforma consumidor.gov, do Ministério da Justiça.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

O portal de defesa do consumidor registrou 50.563 queixas sobre crédito consignado no acumulado deste ano, o maior valor da série histórica do portal, que se inicia em 2014. O montante supera inclusive 2021 -foi quando a margem consignável para aposentados subiu a 40%, o que estimulou ofertas agressivas pelos bancos.

Neste ano, as queixas de consumidores já vinham em alta no primeiro trimestre, mas passaram a aumentar ainda mais a partir de março, após o lançamento do consignado CLT e da operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU (Controladoria-Geral da União) e que investiga descontos não autorizados em benefícios do INSS.

Quando se olha as queixas específicas sobre o crédito consignado a aposentados, houve 27.950 reclamações nos primeiros cinco meses do ano, um crescimento de 73,3% ante janeiro a maio de 2024. Somente no mês passado, foram registradas 7.300 queixas, um salto de 266% ante mesmo período do ano passado.

Na avaliação de especialistas, as informações amplamente divulgadas pela mídia sobre a investigação da PF e da CGU levaram muitos aposentados e seus parentes a checarem os extratos do INSS para verificar possíveis cobranças irregulares.

SESC PICASSO

Para Ione Amorim, economista e consultora do programa de serviços financeiros do Idec, essa checagem pode ter levado muitos aposentados a constatarem cobranças irregulares de consignado.

Os dados do consumidor.gov mostram que, em maio, os problemas mais reclamados sobre o consignado INSS foram cobrança por serviço não contratado, com 25,66% das queixas, seguido de não entrega de documento relacionado ao serviço (16,07% do total) e de cobrança indevida ou abusiva para alterar ou cancelar contrato (10,15%).

"Muitos idosos são enganados, não se dão conta que o consignado é um crédito. Imaginam que é alguma antecipação do 13º, e depois não percebem que os seus benefícios vão sofrendo descontos", afirma ela. "Com o escândalo das associações do INSS, muitos foram olhar com cuidado suas contas."

É a mesma avaliação do Procon-SP. "Pode ser que os consumidores, alertados pelas notícias dos débitos indevidos de associações, tenham passado a verificar com mais atenção seus extratos e constatar o débito indevido, efetuando reclamações, posto que no dia a dia o consumidor demora a perceber os descontos indevidos."

CONSIGNADO CLT

No caso do crédito consignado a trabalhadores do setor privado e funcionários públicos, o total de queixas no acumulado do ano até maio foi de 22.613, uma alta ainda mais pronunciada, de 119,2% na comparação anual.

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As reclamações foram impulsionadas pelo lançamento do crédito consignado CLT, novo produto para trabalhadores do setor privado com negociação em leilão dentro do aplicativo da carteira de trabalho digital. O programa entrou em vigor no final de março.

As principais queixas no mês passado foram a não entrega do contrato ou documentação relacionada ao serviço (15,41% das queixas), contestação de cálculo de juros e saldo devedor (10,06%) e dificuldades para obter boletos de quitação (8,11%).

"Muitas reclamações recentes sobre o consignado privado e de funcionários públicos refletem a forma pouco transparente da oferta de crédito do consignado CLT, com muita gente aceitando as ofertas sem informação suficiente", afirma Amorim.

COMPROMETIMENTO DA RENDA

Para a especialista do Idec, é importante que o consumidor compreenda que, no momento em que contrata um consignado, está comprometendo sua renda mensal por um determinado período de tempo.

"Ela está reduzindo seus recursos para sobrevivência mensal, e isso faz com que a pessoa não tenha renda integral. É um impulsionador de endividamento das famílias, e cria uma dependência sistemática de crédito que pode levar à busca de linhas de crédito mais caras".

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Amorim é uma das autoras de um estudo que mostra que, apesar das taxas de juros serem mais baixas nesse tipo de empréstimo, uma combinação de ofertas abusivas, falta de fiscalização e regulação frágil torna o consignado um estímulo ao endividamento prolongado de idosos.

Isso porque o comprometimento da renda pode chegar a até 45%, quando se considera na conta o cartão de crédito consignado, e o prazo de pagamento é de até 96 meses, ou oito anos.

"O consignado tem essa característica de que conforme a pessoa vai pagando, mais margem consignável vai abrindo, e os bancos oferecem de novo aquele crédito. É uma oferta bastante agressiva", reforça Rafael Schiozer, professor titular de Finanças da FGV EAESP.

Para a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), os dados da plataforma se comparam a um total de mais de 6 milhões de operações de consignado registradas no primeiro trimestre de 2025.

"O número de queixas representa menos de 0,05% do total de empréstimos do primeiro trimestre de 2025", afirma Amaury Oliva, diretor executivo de Cidadania Financeira e Relações com o Consumidor da Febraban. "É um número pequeno quando pensamos no total de operações."

Na avaliação de Oliva, as reclamações ao consumidor.gov são importantes para que a Febraban melhore suas ações de autorregulação. Desde 2020, segundo a associação de bancos, já houve 1.461 sanções aplicadas pelos bancos a correspondentes bancários por descumprimento de normas internas para o consignado.

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