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Economia

Congresso e STF ensaiam contrarreforma da Previdência, mas especialistas defendem aperto nas regras

FolhaPress 22/11/2025 13:13

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Decisões do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal) podem flexibilizar as regras de aposentadoria no Brasil num momento em que especialistas defendem medidas na direção contrária, para endurecer as exigências de concessão de benefícios e evitar um colapso das contas públicas no futuro.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

No movimento mais recente, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), anunciou para a próxima terça-feira (25) a votação de um projeto de lei complementar que regulamenta a aposentadoria especial de agentes comunitários de saúde, com o potencial de gerar despesas bilionárias e pressionar a Previdência Social.

O anúncio ocorreu horas após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicar o atual chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, para assumir uma cadeira no STF. A escolha desagradou Alcolumbre, que defendia o nome de seu aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga. A reação do parlamentar foi vista por integrantes do Executivo como retaliação explícita.

Não se trata, porém, de uma iniciativa isolada. A Câmara dos Deputados aprovou, em outubro, uma PEC (proposta de emenda à Constituição) para beneficiar os mesmos agentes comunitários de saúde, que hoje somam cerca de 366 mil trabalhadores. Na ocasião, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), chegou a vestir um colete da categoria em evento no qual defendeu a proposta.

O STF, por sua vez, pode derrubar dispositivos da reforma da Previdência de 2019, entre eles a alíquota maior (de até 22%) para servidores públicos, a cobrança de contribuição de uma parcela mais abrangente de inativos e a exigência de idade mínima nas aposentadorias especiais de quem trabalha em atividades prejudiciais à saúde. O julgamento está programado para o início de dezembro.

SESC PICASSO

O economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que algumas iniciativas, embora possam parecer ter mérito de forma isolada, não cabem no conjunto da obra.

O RGPS (Regime Geral de Previdência Social) já convive com um déficit na casa dos R$ 320 bilhões, equivalente a 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto). O desequilíbrio deve dobrar em 25 anos e passar dos 5% do PIB a partir de 2051. Flexibilizações nas regras atuais tendem a agravar o quadro.

"Entre sócios de uma empresa, existe a figura jurídica legal da responsabilidade compartilhada. No Brasil, vigora uma espécie de regime de irresponsabilidades compartilhadas: Executivo, Legislativo e, por vezes, Judiciário, que tomam decisões sem levar em conta o conjunto. É uma anomalia do sistema, ninguém olha para o corpo como um todo", critica Giambiagi.

O projeto de lei pautado por Alcolumbre resgata benefícios já extintos na administração pública federal há mais de duas décadas, como as chamadas integralidade (direito à aposentadoria com o mesmo salário da ativa) e paridade (garantia de mesmo reajuste concedido aos servidores ativos).

Também fixa idades mínimas reduzidas para a aposentadoria dos agentes comunitários de saúde, de 50 anos para mulheres e 52 anos para homens.

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O projeto passou pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que tem entre suas atribuições avaliar a adequação orçamentária e financeira das propostas, ou seja, quais são os impactos das alterações e como elas serão financiadas. No entanto, ela foi aprovada sem que houvesse qualquer estimativa.

A PEC aprovada pela Câmara era ainda mais benevolente e, além de resgatar paridade e integralidade, permitia aumentar o valor de aposentadorias já concedidas. Ainda criava uma compensação paga pela União a estados e municípios para arcar com as benesses.

O governo estimou inicialmente um impacto atuarial de até R$ 200 bilhões (o número reflete o aumento das obrigações futuras, mas não representa desembolso imediato). Em gastos efetivos, o efeito seria de pelo menos R$ 25 bilhões nos primeiros dez anos, sem contar revisões retroativas.

O pesquisador Rogério Nagamine, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), afirma esses projetos são um retrocesso. Para ele, além do impacto da mudança em si, o maior risco é abrir a porteira para que pressões de outros grupos prosperem no Congresso.

Em estudo recente, Nagamine analisou as regras de aposentadoria especial em países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Em geral, o benefício é concedido a ocupações consideradas perigosas ou árduas. As mais comuns contemplam bombeiros e militares (19 países), mineiros e policiais (18 países), bailarinos, pilotos de avião e trabalhadores marítimos (11 países), maquinistas de trem (nove países) e enfermeiros (oito países).

Onze países não oferecem nenhuma opção de aposentadoria antecipada, segundo o estudo. A categoria de professores, beneficiada no Brasil com idade mínima reduzida, tem aposentadoria especial só em quatro países da OCDE.

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"A gente está indo na direção contrária do mundo, que está restringindo as possibilidades de aposentadoria antecipada. Enquanto isso, a gente está ampliando, como esse exemplo do agente comunitário, ou retrocedendo via Judiciário", afirma. Ele diz não ter localizado nenhum país que ofereça aposentadoria especial para agentes de saúde, à exceção dos enfermeiros.

Nagamine chama a atenção ainda para o fato de que, nos países da OCDE, os segurados especiais são cerca de 10% dos beneficiários, percentual que chega a 40% do Brasil quando se considera também os aposentados rurais.

"A consequência é que já temos um sistema que é insustentável no médio e longo prazo, e que estamos tornando ainda mais insustentável", afirma. Segundo ele, flexibilizações aprovadas agora podem exigir uma reforma mais dura e brusca à frente.

Para Giambiagi, uma questão inevitável será discutir o salário mínimo, hoje piso da remuneração dos trabalhadores e também dos aposentados. Para ele, o melhor seria desvincular os benefícios previdenciários e reajustá-los apenas pela inflação, mas há dúvidas sobre a viabilidade jurídica dessa mudança, pois a vinculação pode ser considerada cláusula pétrea (imutável por emenda constitucional).

Porém, o economista destaca que a concessão de benesses para determinados grupos torna o debate cada vez mais difícil. "Se [o Congresso] aprova um benefício em função de lobbies, dificulta que outros grupos aceitem algum tipo de perda. Vigora o regime do cada um por si", diz.

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