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Economia

Com aumento do risco fiscal, mercado prevê manutenção da Selic em 10,50%

FolhaPress 13/06/2024 09:37

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As chances de que novos cortes na Selic sejam feitos pelo Banco Central neste ano diminuíram ao longo das últimas semanas, avaliam analistas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As recentes derrotas do ministro Fernando Haddad (Fazenda) em seu esforço para aumentar a arrecadação provocaram uma elevação no risco fiscal e, agora, diversas instituições esperam que a taxa básica de juros seja mantida nos atuais 10,50% nas próximas reuniões.

Algumas, inclusive, não antecipam cortes nem em 2025, como é o caso do Itaú e da XP.

A projeção do Itaú Unibanco foi alterada na última segunda-feira (10). Antes, o banco esperava mais um corte na Selic, chegando a 10,25% em dezembro.

"Em meio às expectativas de inflação crescentes (já parcialmente desancoradas), atividade econômica resiliente e maiores incertezas doméstica e externa, entendemos que não há mais espaço para cortes adicionais de juros", escreveu Mario Mesquita, economista-chefe do banco, em relatório.

Nesta quarta (12), o Santander mudou sua projeção para a Selic ao fim deste ano de 9,75% para 10%, destacando que a inflação, a expansão fiscal e os preços das commodities pioraram desde a última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, em maio.

"O caminho mais prudente [para o BC] é interromper o ciclo de corte [na Selic] até que os riscos e a inflação projetada melhorem", diz Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina do Goldman Sachs.

SESC PICASSO

A estimativa para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) deste ano aumenta desde abril, se afastando cada vez mais da meta estipulada de 3%. Segundo o último Focus, o mercado espera, em média, uma alta de 3,90% no índice deste ano.

Com o mercado de trabalho aquecido e as enchentes no Rio Grande do Sul, o IPCA acelerou de 0,38% em abril para 0,46% em maio, acima das projeções.

"É uma leitura que reforça nosso cenário de que o BC deve interromper o ciclo de corte de juros já na próxima reunião [de junho]", diz Alexandre Maluf, economista da XP.

Outro fator que deve elevar os preços ainda mais é a alta do dólar, que saltou da faixa dos R$ 5,10 para os R$ 5,40 no último mês.

"Caso o câmbio se mantenha nos atuais patamares por um longo período de tempo, diminui a possibilidade de afrouxamento monetário pelo BC no futuro, podendo até subir [a Selic] a depender da magnitude dos efeitos", afirma Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Reserach.

Os juros futuros —contratos que levam em conta a expectativa quanto à Selic futura— apontam para o cenário de alta na taxa de juros em 2025. Nesta quarta, o contrato para julho de 2025 terminou o pregão a 11,07%. Ou seja, uma alta de 0,5 ponto percentual na taxa em um ano.

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Segundo Ramos, a desvalorização do real e a alta nos juros futuros são reflexo do aumento da preocupação de investidores com a saúde fiscal do Brasil. "O ambiente, que vem azedando gradualmente, piorou com mais intensidade nos últimos dois meses, com a mudança substancial nas metas fiscais."

Em abril, o governo trocou a meta de 2025 objetivo de um superávit de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem deu lugar à intenção de zerar a diferença entre gastos e arrecadação. O mercado, porém, segue com a previsão de déficit próximo a 0,7% do PIB nos dois anos.

"O governo tem pouca vontade política de controlar e cortar o gasto", diz Ramos.

Apesar do cenário de aversão a risco, o economista ainda vê espaço para dois cortes na Selic este ano, considerado que o Fed (banco central dos EUA) também reduza sua taxa, "mas com convicção cada vez menor". Seriam reduções de 0,25 ponto percentual cada uma, uma em novembro e outra em dezembro, levando a taxa para 10%.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, compartilha desta visão. "A percepção de risco maior é que o governo provavelmente terá que revisar a meta fiscal, pois não temos mecanismo para controlar [os gastos]. Acabou a confiança no arcabouço", diz.

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Segundo Rafaela, além de as últimas tentativas do ministro Fernando Haddad de elevar a arrecadação terem falhado, os gastos estão maiores do que o previsto no Orçamento. "O gasto subiu muito mais do que o esperado, e esperamos uma atitude [do governo] em resposta que não veio", diz a economista, que alterou sua previsão da Selic ao fim de 2024 de 9,75% para 10,50%.

Para os analistas, a estratégia de equilibrar as contas públicas pelo lado da arrecadação se mostra insuficiente.

"O arcabouço nunca funcionou como âncora fiscal. O mercado nunca comprou essa ideia. É preciso pensar de maneira mais crítica sobre o tamanho do gasto", diz Ramos.

Uma das alternativas para conter as despesas trabalhadas por Haddad e Simone Tebet (Planejamento) é a desnvinculação do salário mínimo a benefícios como o INSS, alvo de críticas por parte de alas do governo.

Sung, da Suno, afirma que o desgaste interno no governo Lula também é um fator por trás do aumento do risco fiscal.

"O maior problema não é apenas a mudança na meta, mas a falta de direcionamento do Executivo em relação à dinâmica de receita e despesa à frente, algo que não foi atacada pelo governo de forma significante", diz Sung.

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