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Economia

China faz pente-fino em projetos de transportes para entrar em concessões no Brasil

FolhaPress 29/06/2025 06:30

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Capacidade de tração de trens, velocidade média, raio mínimo da curva do traçado, quantidade de carga a ser transportada por dia. Esses são apenas alguns exemplos dos dados que um grupo de especialistas da estatal China State Railway Group, controladora das ferrovias chinesas, pediu ao governo brasileiro.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A solicitação, entregue no dia 16 de junho à cúpula do Ministério dos Transportes e obtida pela Folha, mostra que os chineses querem entrar nas concessões logísticas do Brasil e fazem cálculos finais para dar seus lances em projetos ferroviários, além de portos, hidrovias e até rodovias, repetindo um movimento que já consolidaram no setor elétrico.

O raio-X dos projetos nacionais, com estimativas de crescimento de produção do agronegócio e setor mineral, foi pedido aos Transportes, incluindo órgãos como ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Infra SA, Secretaria Nacional de Transporte Rodoviário, Secretaria Nacional de Portos e Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação.

O ministério, ao pedir que cada órgão reúna os dados, alertou para que se compartilhe somente dados públicos e que se tome cuidado com informações de caráter sigiloso.

Por trás desse movimento, está uma série de reuniões e encontros bilaterais realizados nos últimos meses, incluindo visitas presidenciais entre Brasil e China e constantes viagens de equipes técnicas de ambos os países.

SESC PICASSO

A movimentação chinesa ocorre pouco depois da ida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim, em maio, para participar do Fórum China–Celac, que reúne países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. No encontro, foi feita declaração de apoio ao livre comércio e assinatura de 20 acordos bilaterais e anunciada a atração de cerca de R$ 27 bilhões em investimentos chineses no Brasil, com foco também em projetos de energia renovável e mobilidade.

Em maio, uma delegação de 11 autoridades chinesas fez visitas de campo a obras como as ferrovias Fico e Fiol, que pretendem cortar o Brasil de leste a oeste, interligando a área produtora de grãos de Mato Grosso ao litoral baiano, em Ilhéus. O grupo chinês também passou pelo porto de Santos, que está próximo de realizar o leilão de seu novo terminal de contêineres, previsto para ser o maior empreendimento deste tipo já realizado pelo Brasil.

O governo brasileiro pretende consolidar as informações até o dia 2 de julho. O movimento é visto como etapa preparatória para investimentos chineses no setor logístico. "Não é de agora que estamos tratando desses temas com a China. Na prática, o que está ocorrendo, neste momento, é a formalização do governo chinês em busca de dados técnicos para embasar suas prioridades", disse à Folha o ministro interino dos Transportes, George Santoro.

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Na área portuária, os chineses também pediram dados sobre os portos fluviais de Manaus, Santarém, Itaituba, Barcarena, todos vocacionados para ampliar a saída de carga do agro pelo "arco norte do país". A integração com o porto de Chancay, no Peru, com saída de carga pelo Pacífico, também é um dos temas do levantamento técnico. Isso passa por dados de volume de tráfego de corredores como a BR-163, BR-364, BR-060, BR-080.

Dados de hidrovias da amazônia, como o rio Madeira, também foram solicitados, assim como informações sobre empresas de navegação, tarifas, cronogramas e carga transportada nos últimos cinco anos.

"Estamos conduzindo o estudo conforme planejado, mas durante o processo identificamos que alguns dados básicos precisam ser coletados com mais profundidade, como o consumo e transporte de grãos no Brasil, avaliação financeira dos projetos da Fiol e da Fico, normas técnicas e condições de operação de algumas ferrovias, rodovias e portos", escreveu o Centro de Avaliação de Projetos de Engenharia da China State Railway Group, em carta ao Ministério dos Transportes.

A reportagem procurou associações e instituições que atuam como intermediários dos negócios entre Brasil e China, mas não quiseram se posicionar sobre o assunto.

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A presença dos chineses na área logística nacional, apesar de menor que a investida no setor elétrico, já coleciona peças importantes no quebra-cabeça dos transportes. No setor portuário, a Cofco, conglomerado agrícola da China, controla um terminal em Santos (STS-11) desde 2022. Já a estatal China Merchants Port tem atuação no terminal de contêineres de Paranaguá.

O plano do governo de criar uma nova rota ferroviária no país, ligando o agro do Centro-Oeste ao Atlântico, chamou a atenção dos chineses, porque lhes daria o controle de boa parte da carga produzida pela América Latina, tendo Chancay no Pacífico e o Porto Sul, na Bahia, no Atlântico.

Principais pedidos dos chineses:

- Dados financeiros e de projeto das ferrovias em construção, principalmente Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste) e Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste)

- Dados técnicos e operacionais das ferrovias Norte-Sul, Ferronorte (Rondonópolis-Santos), estrada de ferro Carajás e estrada de ferro Vitória-Minas

- Volumes de carga importada e exportada por ferrovia, entre 2019 e 2024

- Normas e fluxo de tráfego em rodovias (BR-163, BR-364, BR-060, BR-080)

- Capacidade e planos de expansão de portos fluviais e marítimos

- Condições de navegação no rio Madeira, com dados sobre navegação interior, empresas, cronogramas e tarifas

- Rotas e destinos de soja e milho do Centro-Oeste e exportações por porto

- Distribuição internacional de grãos por estado (MT, GO, RO, MS)

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