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Economia

Candidatos à presidência devem debater corte de gastos como Milei fez, diz Zeina Latif

FolhaPress 10/06/2025 13:34

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting e ex-economista chefe da XP, candidatos à presidência no próximo ano devem se espelhar no líder argentino, Javier Milei, para levar a agenda de corte de gastos ao debate eleitoral.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Caso contrário, as condições políticas para aprovar uma reforma estruturante no fiscal do Brasil não serão satisfatórias, afirmou ela em evento da Moody's nesta terça-feira (10).

Eleito em 2023, Milei tem feito cortes na máquina pública com uma "motosserra", como ele próprio se refere. O saneamento das contas do país fez a inflação cair de mais de 210% ao ano, antes da posse do ultra-liberal, para os atuais 47,3%. Por outro lado, levou a uma deterioração do clima social, já que os cortes empurraram milhares de argentinos ao desemprego e à fome.

A defesa de Latif -e de vários outros economistas- é por uma discussão que coloque o corte de gastos em foco, visando um equilíbrio mais duradouro e sustentável das contas públicas. Nesse sentido, as eleições do próximo ano podem ser um ponto de virada.

Para ela, o governo federal hoje está diante de um Orçamento rígido, "no qual há espaço para cortes, mas não muito", e com pouco capital político a essa altura do mandato para passar medidas de impacto no Congresso Nacional.

SESC PICASSO

"Vejo razões para esperar uma renovação política. A questão é o quanto as coisas podem mudar, e isso dependerá da qualidade do debate durante a campanha. O próximo presidente, mesmo que tenha enorme capital político, terá de negociar junto aos outros Poderes, seja pedindo uma nova exclusão dos precatórios [dívidas decorrentes de sentenças judiciais], seja reduzindo a meta fiscal", afirmou.

E, em troca, ele terá de propor reformas estruturais. Não dá para pedir para flexibilizar o Orçamento sem um esforço de contrapartida."

A análise segue a esteira da crise do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), cujo aumento proposto no mês de abril visava aumentar a arrecadação para fechar as contas do ano. A medida gerou reflexos políticos na política, bate-cabeça entre ministros e até um mal-estar com o BC (Banco Central), o que levou a recuos e reformulações na proposta.

CONTADOR - BONUS

No último domingo, o ministro Fernando Haddad (Fazenda) se reuniu com líderes do Congresso para negociar um novo pacote, que, inicialmente, prevê apenas medidas pelo lado da ampliação da receita. Entre os ajustes, estão: o aumento da taxação de apostas esportivas, mudança na tributação de instituições financeiras e a cobrança de Imposto de Renda de 5% sobre títulos atualmente isentos, como LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letras de Crédito Agrícola).

O governo também vai apresentar um projeto de lei complementar para realizar um corte estimado em 10% em isenções fiscais, cujo modelo ainda será definido em discussão com o Congresso.

Propostas para o reduzir as despesas de forma estrutural serão discutidas numa nova reunião. Haddad não detalhou quais são as medidas nessa discussão, mas ponderou que as iniciativas têm sido discutidas com o Congresso e outras já estão em tramitação, incluindo o projeto do supersalários e do aperto na previdência dos militares.

"O ambiente das eleições será do governo chutando a lata e tentando aprovar o pacote com medidas aqui e ali. E o Congresso, de alguma forma, aprovará esse pacote, porque, caso contrário, haverá um apagão orçamentário. O Congresso não quer ser responsável por essa situação, especialmente porque ele aprovou todas as medidas de aumento de gastos no passado, então ele é parte do problema também", avalia Latif.

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O risco de um apagão foi admitido pelo secretário de Orçamento Federal do Ministério do Planejamento, Clayton Montes, durante a apresentação do PLDO (projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) em abril.

A partir de 2027, os precatórios entram no limite de gastos do arcabouço fiscal, como previsto pelas regras atuais. Com isso, boa parte do espaço destinado a despesas não obrigatórias -hoje cerca de 10% do Orçamento- terá de ser enxugado, e o que sobrar ainda será repartido com emendas parlamentares. "Para 2027, o número é bastante comprometedor. Já comprometeria a realização de políticas públicas. O valor não comporta todas as necessidades do Poder Executivo", disse Montes.

Diante do cenário, Latif vê uma notícia ruim e duas boas. "A ruim é óbvia: não há dinheiro", diz.

"Já as boas podem não ser das mais apaixonantes no curto prazo, mas são importantes no médio e longo prazos. A primeira é que o fardo dessa conta está vindo para o governo atual, já que antes costumava ser repassado para o próximo governo. E a segunda: essa agenda, antes restrita aos economistas, agora está pautando o Congresso. É um debate mais refrescante que está infectando o ambiente político."

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