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Economia

Cade vê risco de passagem aérea subir se a Azul comprar a Gol

FolhaPress 24/03/2024 17:19

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A eventual compra da Gol pela Azul poderia levar a um aumento no preço das passagens aéreas, o que preocupa integrantes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A questão deve ser levada em conta pelo tribunal administrativo da autarquia caso a operação seja efetivada.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os receios são gerados principalmente após uma experiência anterior, a compra da Webjet pela Gol, em 2011. A operação foi aprovada em 2012 e, depois disso, foi observado aumento de preços no mercado. Procuradas, Azul e Gol preferiram não se pronunciar.

Um estudo de 2023 do Departamento de Estudos Econômicos da autoridade antitruste observou que os preços da Gol aumentaram entre 7,68% e 16,42% após a operação na maioria dos cenários analisados.

"Os resultados apontam para uma elevação da tarifa média da Gol, no período pós-operação, nas rotas em que havia uma ameaça de entrada por parte da Webjet no período pré-operação", diz a análise.

A possibilidade de aumento de preço a partir da combinação das duas companhias vem em um momento de esforço do governo federal na direção oposta, de buscar medidas para diminuir o custo dos bilhetes aéreos.

Em estudo estão medidas de crédito para investimentos sustentáveis, além de mudanças regulatórias tanto para diminuir o grau de judicialização como para abrir o mercado interno a companhias estrangeiras.

SESC PICASSO

A Gol está em recuperação judicial nos Estados Unidos e busca reestruturar sua dívida. A Azul estaria interessada em adquirir a rival e assim aumentar a sua presença no mercado brasileiro.

Cleveland Prates, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e ex-conselheiro do Cade, aponta que a junção de duas concorrentes pode reduzir custos operacionais que existiriam mantendo-as separadas.

"Para pensar do ponto de vista do antitruste, concorrência e preço são importantes, mas outra coisa relevante é o ganho de eficiência", diz.

Outro ponto importante na análise, afirma Prates, é avaliar o grau de abertura do mercado e como eliminar barreiras para potenciais interessadas em explorar a demanda.

"Se uma fusão como essa acontecer e outras empresas puderem entrar no mercado, não haverá maiores problemas do ponto de vista da concorrência", diz.

CONTADOR - BONUS

No caso da aviação civil, dois pontos são preponderantes na análise do Cade. Programas de fidelidades e slots (horários de chegada ou partida) em aeroportos, principalmente em Congonhas e Santos Dumont.

As duas companhias têm seus respectivos programas de fidelidade. A Gol tem o Smiles, e a Azul, o TudoAzul. Para aprovar a eventual operação, é possível que o Cade exija contrapartidas --por exemplo, que um dos programas seja vendido para uma possível nova entrante no mercado brasileiro.

No caso de slots em Congonhas e Santos Dumont, ambos os aeroportos têm limitações ao crescimento --já que estão com os horários preenchidos.

Hoje, a Gol tem 40% dos 3.802 slots semanais em Congonhas, enquanto a Azul tem 14,7%. As duas operações, somadas, ficariam com quase 55% do total de slots, na frente da hoje primeira colocada no aeroporto, a Latam, que tem 41,4% dos slots.

No Santos Dumont, a situação ficaria ainda mais concentrada. O aeroporto tem 1.178 slots na semana, dos quais 33,5% estão com a Gol, e 32,1%, com a Azul. Juntas, elas teriam quase dois terços de todos os voos, enquanto a Latam ficaria com o terço restante.

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"O objetivo da Azul, se isso for para a frente, não é ficar com as aeronaves da Gol, ela está interessada é nos slots nos aeroportos", resumiu Prates.

Para aprovar uma eventual operação entre Gol e Azul, seria necessário vender parte desses slots, aponta quem acompanha o tema. Isso não foi pedido pelo Cade quando ele autorizou a compra da Webjet pela Gol. O remédio imposto na época foi a exigência de efetivamente usar 85% dos slots no aeroporto de Santos Dumont.

Muitas vezes as empresas não utilizam os slots, algumas vezes por razões autorizadas pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e outras não.

Reportagem da Folha mostrou que as companhias aéreas tiveram abono em mais de dois terços dos slots não utilizados em Congonhas e Santos Dumont.

Desse total, em 5.085 casos foram apresentadas como justificativas causas fora da capacidade de gerenciamento das empresas (69% do total).

Em 2023, a Latam foi a líder do mercado brasileiro de aviação em quantidade de passageiros. A companhia transportou 36,2 milhões de passageiros, à frente da Gol, com 31,9 milhões, e da Azul, com 27,2 milhões.

Em percentual, a Latam teve 37,8% do mercado, a Gol, 33,3%, e a Azul 28,4%.

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