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Economia

Braskem ostenta selos verdes e já foi 'líder em desenvolvimento sustentável' pela ONU

FolhaPress 07/12/2023 20:13

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar do desastre ambiental urbano em Maceió, que provocou o afundamento de cinco bairros e o deslocamento de mais de 200 mil pessoas nos últimos quatro anos, provocado pela extração de sal-gema pela Braskem, a petroquímica passou a publicar neste ano relatórios sobre sua atuação na esfera ESG (boas práticas de governança ambiental, social e corporativa). Até o momento, foram três relatórios, um em cada trimestre do ano.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A contradição mostra falhas de governança e regulação em várias estâncias do mundo corporativo, inclusive na tomada de decisão por parte de investidores, segundo especialistas.

Procurada pela Folha de S.Paulo, a Braskem afirma que tomou em Maceió medidas condizentes com a sua responsabilidade socioambiental. Diz também que não possui mais atividades relacionadas à extração de sal-gema no Brasil.

"Antes de 2018, não existiam indicativos de trincas ou rachaduras sobre as quais houvesse suspeita de relação com a atividade de extração de sal. Ao tomar ciência de que a subsidência [afundamento] estava acontecendo na região, a Braskem interrompeu definitivamente a extração local de sal-gema e iniciou as ações para mitigação de riscos e reparações", informou a empresa, por meio da sua assessoria de imprensa.

A companhia vem se esforçando nos últimos anos em adotar uma agenda de "empresa verde", com a produção, por exemplo, de plástico de origem renovável, feito a partir da cana-de-açúcar.

Chegou a confirmar sua participação na COP-28, a Conferência Global sobre Mudanças Climáticas, realizada em Dubai no início deste mês, mas teve que cancelar às pressas, depois que o escândalo do desastre ambiental em Maceió veio à tona.

A Braskem ostenta em seu site de relações com investidores participação em índices como ICO2 (carbono eficiente), IGCT (ações de empresas com governança corporativa mais negociadas) e S&P ESG (práticas ambientais, sociais e de governança), todos concedidos pela bolsa brasileira B3, além de ter integrado o americano Dow Jones Sustaiability Index por diversas vezes nos últimos anos.

SESC PICASSO

A empresa informa ainda ser associada de entidades com forte atuação em governança corporativa e sustentabilidade, como Instituto Ethos e o Pacto Global da ONU. Neste último caso, a petroquímica se apresenta como "Empresa líder em Desenvolvimento Sustentável pelo Pacto Global da ONU."

Lançado em 2000, o Pacto funciona como uma chamada das Nações Unidas para as empresas alinharem suas estratégias e operações a 10 princípios universais em Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção. A Braskem foi reconhecida por sua atuação em direitos humanos.

Questionado sobre a classificação concedida à petroquímica, o Pacto respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que a iniciativa de reconhecer empresas líderes em desenvolvimento sustentável deixou de existir há dois anos, mas "não era uma chancela", embora a Braskem continue como participante do Pacto Global.

"Diante do atual cenário envolvendo a empresa Braskem, o Pacto Global da ONU no Brasil encaminhou o tema a instâncias competentes para que se possam estabelecer as medidas adequadas", informou a entidade.

Já a B3 informou que os seus índices de governança "possuem critérios de elegibilidade e exclusão que levam em conta os segmentos de listagem das companhias, a liquidez das ações e o mecanismo de Tag Along (proteção a acionistas minoritários de uma companhia)". A instituição afirma estar "sempre atenta aos movimentos e demandas do mercado, para avaliar possíveis mudanças nas metodologias" dos indicadores.

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No último dia 5, a B3 anunciou a exclusão da Braskem do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial), "em função da situação de emergência decretada pela prefeitura de Maceió". A petroquímica, no entanto, esteve em quase todas as edições do índice, criado em 2005, deixando de integrá-lo apenas em 2021.

Questionado sobre a presença da Braskem entre as suas associadas, o Instituto Ethos preferiu não se pronunciar.

'Condenações por corrupção deveriam barrar empresas em índices ESG'

"Empresas como a Braskem e a Americanas [que este ano admitiu uma fraude contábil de R$ 25 bilhões] fomentam um mercado de selos de governança, que nada mais são do que o preenchimento de check-lists, que não garantem nada", diz o consultor em governança corporativa Renato Chaves, mestre em Ciências Contábeis pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro do comitê de auditoria da Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil).

Para ele, uma das primeiras perguntas que deveriam ser feitas a uma empresa que pretende aderir a um índice de governança é se ela já foi condenada por corrupção.

"Isso já excluiria automaticamente a Braskem de qualquer índice", diz Chaves, lembrando o envolvimento da empresa e seus dirigentes em esquemas denunciados pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Criada em 2002 a partir da união de diversas petroquímicas, a Braskem é controlada por Novonor (novo nome da Odebrecht) e pela Petrobras, alvos das investigações da Lava Jato.

"Empresas com históricos como este receberem um selo de governança é uma afronta à sociedade", diz Alexandre Di Miceli, sócio da consultoria em alta gestão Virtuous.

Na opinião do especialista, doutor e mestre em administração de empresas e finanças pela FEA-USP, com pós-doutorado pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica), existe uma lógica em parte do mundo corporativo que determina que os passivos devam ser deixados para alguém cuidar lá na frente.

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"O sociólogo Robert Jackall já indicava em seu livro 'Moral Mazes: the world of corporate managers' [Labirintos morais: o mundo dos gerentes corporativos] que a receita do sucesso para boa parte dos gestores é sair antes que os erros apareçam", afirma.

"É o que nós vemos nessas empresas: os diretores fazem o que querem, sem compromisso com a sustentabilidade do negócio, embolsam a venda de suas ações e deixam a companhia."

Para Renato Chaves, o investidor também é culpado, por não atrelar o interesse em dividendos às boas práticas das empresas. "Mas se a governança da Braskem é frágil, é porque a regulação é muito frágil também, a CVM deveria punir de maneira mais firme esse tipo de infração"', diz.

"Para as empresas, fica a sensação de que tudo pode, porque nada vai acontecer", afirma o consultor, lembrando que a Comissão de Valores Mobiliários mantém acordos de cooperação com Ministério Público Federal e Polícia Federal. "A CVM poderia se aproveitar das investigações realizadas nestas instâncias e punir as infratoras com rigor."

Em nota, a CVM respondeu à reportagem dizendo que atua nos "limites do seu mandato legal e da sua esfera de competência", que é definida por lei. E que eventuais acusados pela autarquia "estarão sujeitos às penalidades dispostas na legislação, especificamente, no art. 11 da Lei 6385/76."

Na opinião do consultor Einar Rivero, que esteve à frente das plataformas de informações financeiras Economática e TradeMap, os rankings e selos corporativos estão corretos, cumprem o seu papel de questionar a empresa sobre como funciona a sua gestão.

"Mas existem certos aspectos que vão muito além do que um check-list e demandam uma análise mais criteriosa do investidor", afirma o especialista, lembrando quais são as três funções principais do lucro de uma companhia: "Pagar dividendos aos acionistas, reinvestir no negócio e servir de reserva para problemas futuros."

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