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Economia

Brasil tem muito níquel, mas grandes mineradoras focam aço em vez de baterias

FolhaPress 04/10/2025 13:05

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao se pesquisar o nome dos minerais considerados críticos, dificilmente se encontrará uma lista onde o níquel não aparece. Esse metal está presente em alguns modelos de baterias de veículos elétricos e, por isso, a demanda por ele tende a crescer de forma exponencial nos próximos anos.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Mas no Brasil, o nono maior produtor de níquel e dono da terceira maior reserva do mundo, esse mineral não atende aos requisitos da cadeia de bateria e é quase todo direcionado para a indústria do aço.

A Anglo American -que está transferindo seus ativos em Goiás para a chinesa MMG- e a Vale, no Pará, têm como produto final o ferroníquel, uma liga metálica importante para a produção de aço inoxidável. Já a pequena Atlantic Nickel, com uma mina na Bahia, vende um produto ainda muito inicial para empresas que fazem parte da cadeia de baterias.

"Só o elemento químico é o mesmo, mas estamos falando de dois produtos completamente diferentes", afirma José Antônio Rodrigues Júnior, engenheiro metalurgista especialista em níquel.

E, se depender apenas do planejamento dessas empresas, o cenário no Brasil continuará igual nos próximos anos, mesmo com a demanda por níquel para baterias crescendo.

As siderúrgicas são as principais clientes do mercado global de níquel e consomem 66% de toda a produção mundial -contra 16% da indústria de baterias. Mas a substituição do ferroníquel pela sucata na indústria do aço em países ricos e o crescimento da procura por veículos elétricos tendem a reduzir essa diferença.

A consultoria Fastmarkets estima que, em 2035, 31% do mercado de níquel atenderá as baterias, enquanto a participação do aço inoxidável cairá para 55%. Já a Agência Internacional de Energia estima que em 2040 quase metade da produção de níquel atenderá a produção de tecnologias ligadas à descarbonização, enquanto a demanda total, independentemente do destino, deve crescer 70%.

SESC PICASSO

Não à toa, a China vem investindo pesado em plantas de níquel na Indonésia, responsável por mais da metade da oferta, para produzir o mineral como matéria-prima das baterias. E isso, na visão de especialistas, também poderia ser feito no Brasil, ainda que as mineradoras não estejam interessadas ao menos no curto prazo, segundo elas disseram à reportagem.

O minério de níquel extraído e processado na Indonésia vem de depósitos semelhantes aos das grandes minas do Brasil, os chamados minérios lateríticos. Até pouco tempo, o produto oriundo dessa rocha era direcionado sobretudo para a indústria do aço, mas os chineses desenvolveram uma tecnologia que mudou esse cenário.

Por meio de um processo à base de ácido sulfúrico e altíssimas pressões, as refinarias chinesas -localizadas na Indonésia- conseguem desenvolver o precipitado de hidróxido misto (MHP, na sigla inglês), um produto intermediário na produção de baterias. De lá, a grande maioria do MHP segue para a China, onde vira sulfato de níquel, um produto ainda mais próximo da produção de baterias.

Analistas apontam que o uso dessa tecnologia tem maior viabilidade econômica em projetos que ainda não saíram do papel, o que dificulta sua adoção nas grandes plantas em operação no Brasil. O processo, no entanto, poderia ser usado nos projetos de níquel recém-adquiridos da Anglo American pela chinesa MMG-no Mato Grosso e no Pará. A empresa não descarta a hipótese, mas qualquer decisão viria no longuíssimo prazo, principalmente considerando os atuais baixos preços do níquel.

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De acordo com Olivier Masson, analista principal da Fastmarkets, nas grandes plantas em operação no Brasil tanto a Vale quanto a MMG, que assumirá os negócios da Anglo American em breve, poderiam redirecionar seus processos industriais para produzir um outro produto da cadeia das baterias: o chamado matte de níquel.

"Desenvolvimentos futuros neste mercado podem ser mais voltados para o lado da bateria do que para o ferroníquel, até porque não é muito difícil ou caro converter ferroníquel em matte para, em seguida, fazer sulfato", diz Masson. "Tudo o que você precisa fazer é adicionar um conversor ao final de um processo de ferroníquel."

A própria Vale já produz matte na Indonésia a partir de um processo semelhante. Outros exemplos são a mineradora francesa SLN, na Nova Caledônia, que adotou essa rota por um período, e a chinesa Tsingshan, que deslocou parte de sua produção de ferro-gusa de níquel (produto semelhante ao ferroníquel) na Indonésia para produzir matte -atendendo a produção de baterias.

A mudança teria lógica, inclusive, financeira, segundo os analistas. De acordo com a Fastmarkets, nos próximos dez anos o mercado de níquel para baterias crescerá 12% ao ano, enquanto o ferroníquel apenas 2,5%. "Não há mais ferroníquel sendo produzido na Europa e, assim como a Anglo American saiu de seus ativos de ferroníquel no Brasil, a South32 está vendendo sua fundição de ferroníquel na Colômbia. Essas tendências sugerem indiretamente que os investidores têm favorecido o níquel para baterias", afirma Masson.

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O último novo projeto de ferroníquel no Brasil, por exemplo, não foi para frente. A britânica Horizonte Minerals pretendia construir uma planta no Pará, mas precisou parar as obras devido a dívidas acumuladas e à dificuldade de atrair investidores para o projeto.

Ainda assim, à reportagem a MMG afirmou que a mudança de rota não faz parte dos planos da companhia, ao menos para a planta adquirida da Anglo American. "Neste estágio do ciclo, a adaptação tecnológica necessária para converter a produção em níquel para baterias exigiria investimentos de capital muito elevados, considerados atualmente inviáveis tanto sob o ponto de vista econômico quanto técnico", disse por nota.

"Temos uma visão positiva para o mercado de níquel no médio e longo prazo, impulsionado tanto pela transição energética quanto pela demanda crescente do aço inoxidável, fundamental para o desenvolvimento industrial e de infraestrutura em escala global", acrescentou.

Já a Vale afirmou que o ferroníquel produzido no Brasil é uma parte importante de seu portfólio de níquel, "permitindo que a empresa forneça níquel para todas as aplicações, incluindo aço inoxidável, aplicações especiais e os mercados de veículos elétricos". A empresa produz níquel para baterias no Canadá e na Indonésia e no final de abril ampliou sua produção de ferroníquel no Pará.

A Atlantic Nickel, por sua vez, não tem planos de avançar, ao menos por ora, na cadeia de baterias. A empresa extrai um minério diferente do que o das grandes mineradoras e geralmente comercializa o produto concentrado para distribuidores da China, Europa e Canadá -que vendem para empresas da cadeia de baterias. "Nós não temos planos, porque requereria um volume maior para se justificar o investimento", diz Tony Lima, diretor de operações da empresa.

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