Bloco reúne 11 países e movimentou US$ 38 bilhões em comércio com o Brasil em 2025; encontro de líderes está previsto para novembro em Manila
O Brasil intensificou a articulação diplomática para ampliar sua participação na Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e conquistar o status de Parceiro de Diálogo Pleno do bloco.
A movimentação ocorre a cerca de dois meses da 49ª Cúpula da Asean e reuniões relacionadas, prevista para novembro nas Filipinas.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, encerrou nesta semana uma viagem por Singapura e Tailândia na qual o fortalecimento da relação brasileira com o Sudeste Asiático esteve entre os principais temas das agendas políticas e comerciais.
Desde 2022, o Brasil possui o status de Parceiro de Diálogo Setorial da Asean. A intenção do governo é avançar para uma relação mais ampla, que permita maior participação nos mecanismos políticos, econômicos e institucionais do grupo.
Nenhum país da América Latina possui atualmente o status de Parceiro de Diálogo Pleno da Asean.
Cúpula será realizada em Manila
A 49ª Cúpula da Asean e as reuniões relacionadas estão previstas para ocorrer em Metro Manila, nas Filipinas.
O governo filipino informou recentemente que os encontros serão realizados entre os dias 13 e 15 de novembro, sob o tema “Navigating Our Future, Together”.
Nesta semana, altos funcionários dos países da Asean já se reuniram em Manila para preparar a agenda do encontro de novembro, incluindo as relações externas do bloco.
Além da cúpula principal, o período terá reuniões envolvendo outros importantes mecanismos regionais, entre eles a Asean+3, formada pelos integrantes do bloco juntamente com China, Japão e Coreia do Sul, e a Cúpula do Leste Asiático.
Brasil busca ampliar participação
Atualmente, a Asean mantém 12 Parceiros de Diálogo: Austrália, Canadá, China, União Europeia, Índia, Japão, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Rússia, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos.
O Brasil integra outra categoria, a de Parceiro de Diálogo Setorial, ao lado de países como Alemanha, Noruega, África do Sul, Suíça e Emirados Árabes Unidos.
A mudança pretendida pelo governo brasileiro ampliaria o alcance institucional da relação com o grupo e abriria espaço para uma cooperação mais abrangente em áreas políticas, econômicas e sociais.
Em julho, Mauro Vieira participou em Manila de uma reunião trilateral entre Brasil, Filipinas — que exerce a presidência da Asean em 2026 — e o secretariado da organização.
Em agosto, o secretário-geral da Asean, Kao Kim Hourn, realizou uma visita de trabalho ao Brasil, a primeira de um chefe da organização ao país. As reuniões trataram da ampliação da cooperação em comércio, investimentos, economia digital, minerais críticos e pequenas e médias empresas.
Singapura entra na articulação
Durante a visita de Mauro Vieira a Singapura, entre os dias 6 e 8 de setembro, o chanceler se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Vivian Balakrishnan.
Entre os assuntos discutidos esteve justamente a possibilidade de aprofundar o envolvimento brasileiro com a Asean durante a presidência de Singapura, que começa em 2027.
As conversas também envolveram comércio, investimentos, agronegócio, digitalização e sustentabilidade.
Outro ponto relevante foi a entrada em vigor, em 1º de agosto, do acordo de livre comércio entre Mercosul e Singapura, considerado pelo governo brasileiro mais uma porta de entrada para ampliar negócios no Sudeste Asiático.
Comércio cresceu dez vezes
O interesse brasileiro acompanha a rápida expansão comercial com a região.
O comércio entre Brasil e os integrantes da Asean passou de cerca de US$ 3 bilhões em 2003 para aproximadamente US$ 38 bilhões em 2025.
Com esse volume, o bloco já figura entre os principais parceiros comerciais do Brasil.
Entre 2023 e 2025, as exportações brasileiras para Singapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia — os cinco principais mercados brasileiros dentro da Asean — alcançaram US$ 68,5 bilhões.
No mesmo período, o Brasil acumulou superávit de aproximadamente US$ 36 bilhões nas relações comerciais com esses países.
Singapura ocupa posição de destaque. Em 2025, o comércio bilateral chegou a US$ 10,7 bilhões, crescimento de 23% em relação ao ano anterior.
Tailândia e agronegócio
Depois de Singapura, Mauro Vieira seguiu para Bangkok, onde cumpriu agenda com autoridades e representantes empresariais da Tailândia.
As conversas envolveram comércio, investimentos, ciência, tecnologia, inovação, biocombustíveis e segurança alimentar.
Um dos interesses brasileiros é a retomada das exportações de carne bovina para o mercado tailandês, suspensas em 2024.
Brasil e Tailândia movimentaram aproximadamente US$ 5,7 bilhões no comércio bilateral em 2025.
Os dois governos também discutiram cooperação no combate ao crime organizado transnacional, incluindo tráfico de pessoas e fraudes cibernéticas.
Região ganha peso na estratégia brasileira
A aproximação com a Asean ocorre em um cenário de diversificação dos mercados externos brasileiros.
Formada por Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Timor-Leste e Vietnã, a associação reúne algumas das economias que mais crescem na Ásia.
Para o governo brasileiro, a ampliação das relações com a região pode abrir novos mercados para o agronegócio, produtos industriais e serviços, além de atrair investimentos e fortalecer a cooperação em tecnologia, energia e economia digital.
A decisão sobre a elevação do Brasil à condição de Parceiro de Diálogo Pleno depende dos integrantes da Asean. Com a aproximação da cúpula de novembro e a presidência de Singapura a partir de 2027, os próximos meses serão decisivos para a estratégia brasileira de ampliar sua presença institucional no Sudeste Asiático.
Fonte: Asean, Ministério das Relações Exteriores, Ministério das Relações Exteriores de Singapura, Governo das Filipinas e ABr