Representantes do governo federal, entidades de classe e do setor produtivo se reuniram nesta terça-feira (5), na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), para discutir novas estratégias de fortalecimento das exportações brasileiras. O foco principal está nas micro e pequenas empresas (MPEs), que, embora representem cerca de 40% dos exportadores nacionais, respondem por apenas 0,8% do valor total exportado pelo país.
Apoio diante de barreiras comerciais
Durante o encontro, o embaixador Laudemar Aguiar Neto, secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), alertou para os obstáculos enfrentados por produtos brasileiros no exterior. “Estamos falando de barreiras disfarçadas, verdadeiras sanções. Essa situação é inédita e exige ações coordenadas”, afirmou o diplomata.
O fortalecimento da cadeia produtiva nacional por meio da agregação de valor aos produtos exportados foi um dos principais temas discutidos. Um dos exemplos citados foi o do setor cafeeiro, que emprega cerca de 2 milhões de brasileiros, mas que ainda exporta majoritariamente o café em grão verde, com pouco valor agregado. Outra pauta importante foi a diversificação de destinos das exportações, hoje concentradas majoritariamente na China e nos Estados Unidos.
“Desde 2009, a China é o nosso principal parceiro comercial, com destaque para petróleo, minério de ferro e soja. Mas é urgente expandir para além da China e dos Estados Unidos”, completou o embaixador.
Ele ainda destacou o papel do Itamaraty e de órgãos como ApexBrasil e MDIC no apoio à diversificação da pauta exportadora: “A Embraer nunca fechou tantos contratos e nunca vendeu tanto quanto nos últimos anos. A perspectiva, dependendo do que acontecer com os Estados Unidos, continua sendo positiva.”
Força-tarefa para orientar pequenos negócios
Com foco em orientar os pequenos empresários sobre as transformações no cenário do comércio exterior, a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) e a ACSP anunciaram a formação de uma força-tarefa em parceria com a Fecomércio, o Sebrae e o próprio MDIC. A proposta é oferecer informações e capacitações sobre riscos e oportunidades, especialmente diante da iminente ratificação do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.
O presidente da CACB, Alfredo Cotait, reforçou a importância do acompanhamento próximo das negociações: “A gente tem que estar muito próximo dessas discussões, acompanhar e verificar o impacto que isso pode trazer, benéfico ou não para os pequenos. Então, nós estamos organizando uma ação conjunta com outras entidades para poder acompanhar”, afirmou.
Entenda os principais pontos do acordo Mercosul–União Europeia
O acordo, em fase final de negociação, pretende criar uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Seus principais objetivos incluem:
Redução de tarifas: eliminação gradual de tarifas de importação para a maioria dos produtos;
Abertura de mercados: ampliação do acesso a mercados europeus por empresas brasileiras e vice-versa;
Cooperação multissetorial: parcerias em serviços, investimentos, propriedade intelectual, meio ambiente, energia, entre outros;
Segurança jurídica: estabelecimento de regras claras e transparentes para empresas dos dois blocos;
Promoção do desenvolvimento sustentável: incentivo a práticas ambientais e sociais responsáveis.
A expectativa é que cerca de 90% dos produtos comercializados entre os blocos tenham tarifa zero com a entrada em vigor do tratado. Apesar disso, representantes da indústria nacional alertam que os benefícios diretos poderão ser limitados, especialmente para o setor industrial, que enfrenta baixa competitividade. O agronegócio, por outro lado, permanece como o segmento mais beneficiado.
Para ampliar os ganhos, foi sugerido que o Brasil identifique, já na primeira leva de produtos com tarifa reduzida, aqueles com maior potencial de aproveitamento pelas MPEs.
Iniciativas para inserção internacional das pequenas empresas
Um dos maiores desafios debatidos durante o encontro foi o acesso efetivo das micro e pequenas empresas ao mercado internacional. Para contornar essa dificuldade, os participantes defenderam o fortalecimento das chamadas missões compradoras — eventos nos quais compradores estrangeiros são trazidos ao Brasil para realizar negociações in loco. Esse modelo reduz custos logísticos e amplia as chances de fechamento de contratos. Um exemplo citado foi o acordo com uma gigante asiática do setor cafeeiro, que dobrou as exportações brasileiras de café para a China, saltando de 120 mil para 240 mil toneladas em um ano.
Criação do fundo FUNPEX
Outra novidade anunciada foi o lançamento do Fundo de Promoção às Exportações de Micro e Pequenas Empresas (FUNPEX). O objetivo é custear passagens e hospedagens de empreendedores selecionados para participar de ações comerciais no exterior. A proposta é fruto de uma parceria entre o setor público e instituições como a ApexBrasil, Sebrae, CACB e MDIC.
O fundo já conta com minuta de decreto, modelo de edital e plano de captação de recursos internacionais. A ideia é garantir que mesmo os empreendedores com recursos limitados possam participar de ações estratégicas de exportação.
“Quando uma pequena empresa passa a exportar, ela melhora sua capacidade produtiva, aumenta os salários dos seus empregados e fortalece o ecossistema local. É um movimento transformador”, destacou o embaixador Laudemar Aguiar.
Compromisso com uma política comercial inclusiva
Ao final do evento, ficou reafirmado o compromisso das instituições envolvidas em promover uma política comercial mais inclusiva, capaz de fortalecer os pequenos negócios e ampliar a presença do Brasil no comércio internacional. O objetivo é garantir crescimento sustentável com geração de emprego, inovação e diversificação da pauta exportadora brasileira.
Fonte: Br61