O Brasil registrou um marco expressivo em 2024: 672 mil pacientes estão utilizando a cannabis medicinal como alternativa terapêutica, segundo dados do anuário da Kaya Mind divulgado nesta terça-feira (26). Esse número representa um crescimento de 56% em relação ao ano anterior, evidenciando a popularização e a aceitação dessa forma de tratamento no país. Com um faturamento que atingiu R$ 853 milhões este ano — 22% superior ao de 2023 —, o mercado de cannabis medicinal segue em plena expansão e já projeta alcançar R$ 1 bilhão em 2025. Em 2021, o segmento movimentava R$ 144 milhões, valor que saltou para R$ 364 milhões em 2022, demonstrando um crescimento exponencial nos últimos anos.
A expansão desse mercado acompanha o aumento na oferta de produtos, que já somam mais de 2.180 opções disponíveis, incluindo óleos, cápsulas e sprays. Segundo Maria Eugenia Riscala, CEO da Kaya Mind, essa variedade reflete as diferentes necessidades dos pacientes e a integração progressiva da cannabis medicinal à prática médica brasileira. Outro fator que impulsiona o setor é a evolução na regulamentação. Este ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou o cultivo da cannabis para fins medicinais em casos específicos, ampliando as possibilidades de acesso ao tratamento. Além disso, 413 empresas estrangeiras exportaram produtos para o Brasil em 2024, fomentando a diversificação da oferta no mercado nacional. Thiago Cardoso, chefe de Inteligência da Kaya Mind, destaca o impacto dessas mudanças: "Esse avanço permite que mais pacientes encontrem soluções terapêuticas adequadas às suas necessidades e posiciona o Brasil como um mercado competitivo e inovador no cenário global".
Apesar dos avanços, o acesso ainda é limitado para muitos pacientes. Quase metade (47%) depende da importação de produtos, um processo burocrático e caro, enquanto 31% recorrem às farmácias e 22% a associações. Estas últimas desempenham papel essencial para quem enfrenta dificuldades financeiras, como a TO Ananda, no Tocantins. Segundo Jonadabe Oliveira da Silva, vice-presidente da associação, mesmo pessoas mais conservadoras estão superando preconceitos ao observar os benefícios proporcionados pelo tratamento. "Estão quebrando [tabus] depois de ver pacientes", afirma. A TO Ananda, que completa dois anos, surgiu a partir da experiência de sua presidente, que encontrou na cannabis uma solução eficaz para dores crônicas. A entidade já conta com apoio da Defensoria Pública e da Fiocruz e planeja parcerias com laboratórios e universidades em 2025.
O mercado de cannabis medicinal no Brasil não apenas cresce em números, mas também em impacto social. Além de transformar a vida de pacientes, o segmento começa a atrair novos profissionais, como Jonadabe, que está migrando da carreira de cabeleireiro para estudar cultivo e mercado da cannabis. Com a expectativa de regulamentações mais acessíveis e a ampliação do diálogo sobre os benefícios terapêuticos, o Brasil se posiciona como um dos protagonistas desse mercado em ascensão, moldando um futuro em que a cannabis medicinal pode se tornar uma ferramenta essencial na medicina do país.