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Economia

Aposentadoria abre disputa por vaga em órgão que julga causas bilionárias

FolhaPress 08/02/2024 15:51

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Perto de completar 75 anos, José Benedito Franco de Godoi pediu a palavra para agradecer a presença de seus pares. Era a última sessão do desembargador no TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Tirar a amizade da vida é tirar o sol do universo", discursou, em citação ao escritor, filósofo, poeta, advogado e político romano Marco Túlio Cícero. Disse também que pretendia, a partir daquele momento, estudar.

Não demorou a começarem as especulações sobre quem seria o substituto. Franco de Godoi abria uma rara cadeira em lugar que advogados acostumados ao tribunal, ouvidos pela Folha, consideram a joia da coroa do Judiciário: as Câmaras Reservadas de Direito Empresarial.

São dez desembargadores (em um universo de 356 que atuam no TJ-SP) que tratam de disputas empresariais, às vezes bilionárias. Julgam recuperações judiciais, falências e brigas acionárias. A mais rumorosa delas no país, no momento, tinha Franco de Godoi como relator: o pedido de anulação da arbitragem na contenda entre J&F e Paper Excellence. As duas aspiram ao controle acionário da Eldorado Celulose.

Enquanto ele discursava em sua despedida, já acontecia a discussão sobre quem o substituiria. Um dos nomes comentados foi o de Tasso Duarte de Melo.

A aposentadoria de um desembargador tem o poder de embaralhar processos já encaminhados ou quase definidos. Nas duas câmaras empresariais, companhias disputam milhões, pedem recuperações judiciais ou podem ter falência decretada.

A briga entre J&F e Paper se arrasta desde 2018 e o pedido de anulação da arbitragem (que declarou a Paper vitoriosa) faz parte de um tabuleiro de xadrez pelas ações da Eldorado. O dinheiro para concluir a compra está em um fundo de investimento administrado pelo Itaú. O valor aplicado hoje em dia está em R$ 8,6 bilhões.

Outro campo de batalha está na posse de terras. O Incra recomendou que o negócio seja desfeito porque uma empresa estrangeira seria dona ou arrendatária de mais terras do que o permitido por lei. Nesta quarta-feira (7), o MPF (Ministério Público Federal) solicitou à 1ª Vara Federal de Três Lagoas (MS) a anulação do acordo assinado em 2017.

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De acordo com advogados e ex-desembargadores ouvidos pela reportagem, é difícil que as empresas consigam influir na escolha de quem vai para a Câmara Empresarial, mas isso não as impede de se informar sobre os perfis de diferentes nomes. Informações de como votaram em ações anteriores, que tipos de sentença deram e qual o seu modo de pensar são valiosas.

Segundo um ex-desembargador, há "intermediários", gente que jura conseguir influir no processo, mas faz apenas uma promessa que não tem como cumprir.

A versão paulista é o maior tribunal de Justiça do país. São 19,3 milhões de ações em andamento em 1º grau, o que representa 27% do total de processos em tramitação no Brasil. O total de magistrados é de 2.522, espalhados em 1.570 varas e 320 comarcas. O orçamento para este ano é estimado em R$ 15,9 bilhões.

As duas câmaras empresariais, com cinco desembargadores cada, são consideradas joias da coroa porque seus integrantes recebem atenção às vezes indesejada. Isso por causa da importância e do valor das causas. Eles também analisam menos recursos do que seus pares em outras áreas do TJ. Estas podem chegar a dez por mês, enquanto em outras câmaras, estimam advogados, o número é de 50 por semana.

A quantidade de apelações distribuídas entre os dez desembargadores, no final de 2023, era de 4.499.

Para juízes que passaram pelo TJ-SP e advogados, é um cargo que pode ser desafiador e exasperante ao mesmo tempo.

São processos que costumam envolver muitos advogados, pedidos de audiência quase diários e solicitações variadas, às vezes feitas por diferentes escritórios que defendem a mesma empresa, e pedidos de liminares. As petições são gigantescas. Um ex-desembargador afirmou à reportagem sentir que seus votos eram analisados com lentes de lupa pelas partes, sempre em busca de um erro ou contradição no voto dado.

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Os advogados, segundo ele, são sempre de alto nível. Daqueles que recebem por hora e em dólar. Os pareceres apresentados pelas empresas também costumam ser escritos por professores renomados do Direito brasileiro.

Tudo isso faz parte do desafio de estar ali: dar um parecer que não possa ser contestado.

Mas o desgaste cobra o preço e, entre as pessoas entrevistadas, a conclusão foi que é preciso gostar muito da matéria para postular a vaga.

Há recompensas. Uma delas é o prestígio que o posto carrega, o que pode ser útil após a aposentadoria. Eles costumam ser cobiçados por grandes escritórios de advocacia e seus pareceres privados carregam relevância.

Apenas na contenda pela Eldorado, há seis ex-desembargadores que assinam documentos para a J&F e um para a Paper. A conclusão é oferecem peso aos argumentos da companhia pelo simples fato de que estiveram na Câmara de Direito Empresarial ou Privado.

É como se a passagem pelo cargo fosse uma aposta no futuro da carreira.

Quem passou pela câmara lembra que há pressão, o trabalho é complexo e o salário é o mesmo de qualquer outro desembargador nomeado para outra câmara. Mas não é pouco dinheiro.

A remuneração básica é de R$ 37.589,95. Há rubricas como vantagens pessoais, vantagens eventuais e gratificações que podem mais do que dobrar o salário. O de Franco de Godoi, segundo as informações públicas no site do TJSP, em outubro do ano passado, foi de R$ 86.674,74. Não era o maior. O desembargador Abnen Athar de Paiva Coutinho, da 11ª Câmara de Direito Criminal, recebeu R$ 118.172,79.

Para ser escolhido, é preciso fazer campanha interna. A vaga é preenchida por eleição em que votam os 25 integrantes do órgão especial do Tribunal de Justiça. O desembargador que cobiçá-la precisa se apresentar a cada um e avisar ser candidato. Ele pode representar um grupo de magistrados que compartilham sua visão de mundo. Há o relacionamento social entre todos eles, o que pode servir como lobby informal. Como se fosse a política de um clube fechado para poucos.

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Em caso de empate (o que é possível, se ocorrerem abstenções), é escolhido o mais antigo no tribunal.

A votação pode ser acirrada. O desembargador Natan Zelinschi Arruda foi eleito em 2022 para a 2ª Câmara Empresarial pelo critério da antiguidade. Ele empatou com Pedro Luiz Baccarat da Silva em 11 votos.

Mesmo a candidatura pode não ser espontânea, o que mostra a questão política no tribunal principalmente quando se trata de julgar disputas entre empresas. Um desembargador foi estimulado a postular a vaga por integrantes do órgão especial. Eles queriam a eleição de um juiz de carreira.

O risco era que a câmara empresarial ficasse com maioria de magistrados egressos da advocacia ou do Ministério Público. Cada grupo tem 20% das vagas no tribunal por determinação constitucional. O interesse do TJ era que o número mais expressivo fosse de juízes de carreira.

O burburinho quando alguém se aposenta naquela câmara é pelas causas que pode assumir. Franco de Godoi, por exemplo, havia dado um voto a favor da Paper ao recusar a anulação da arbitragem e determinar a transferência das ações para a companhia de origem canadense. Quem entrar em seu lugar abre um novo flanco de luta para a J&F.

Até que ponto o processo pode ser tumultuado é algo que não é consenso entre os entrevistados pela Folha.

Para a maioria, o novo desembargador não mudaria o voto dado por Godoi porque isso é a tradição do tribunal. Mas daria possibilidade a diferentes embargos de declaração, um expediente para dirimir dúvidas, contradições ou omissões que paralisa processo e prazos.

Mas houve quem citasse que esta tradição é do STF (Supremo Tribunal Federal), não do TJ-SP. E lembra que o artigo 72 do regimento interno do tribunal pode representar uma fresta, dependendo da interpretação, para o pedido de anulação dos votos e reinício do processo. O texto diz que em caso de afastamento definitivo de um desembargador relator do caso, os "remanescentes" [o que resta da ação] devem ser redistribuídos ao revisor ou segundo juiz.

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