A mudança de posição da Itália, agora a favor da assinatura do acordo entre a União Europeia (formada por 27 países daquele continente), e o Mercosul (integrado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), segundo informou a agência Bloomberg, deve acelerar a conclusão do tratado, especialmente em meio à instabilidade geopolítica.
Para especialistas, a postura mais assertiva dos Estados Unidos em relação à sua influência na América do Sul, evidenciada pelo ataque do governo de Donald Trump à Venezuela, aumenta a pressão para que o bloco europeu assine o acordo.
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A percepção de consultores em comércio exterior e direito internacional é de que, em tempos de incertezas globais, a postura mais agressiva do governo Trump acaba aproximando europeus dos sul-americanos na busca por parceiros mais previsíveis.
O acordo também tem peso comercial porque deve ampliar a presença da UE na região em que a China hoje é grande fornecedora industrial e compradora de commodities.
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Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior brasileiro e sócio da consultoria BMJ, o apoio da Itália, além de ser uma boa notícia, é resultado de pressões internas dentro da própria UE, que vinha cobrando uma definição após o pedido de prorrogação liderado por Roma.
— É também um sinal claro de que a União Europeia está perdendo espaço, especialmente na América Latina, e que interessa pra ela mais do que nunca avançar no acordo com o Mercosul. O ataque à Venezuela pode sim ter entrado neste cálculo — acrescenta Barral.
Chance de UE projetar influência fora da Europa
Se assinado, o tratado tende a ajudar a UE a preservar influência e espaço em regiões historicamente ligadas ao bloco em um cenário de mundo fragmentado, marcado pela disputa por áreas de influência e pela busca de aliados estratégicos, avalia Marcos Jank, professor e pesquisador sênior de agronegócio global no Insper.
Segundo ele, a postura dos EUA em relação à América Latina, incluindo o discurso recente de Trump que tratou a região como área de influência de Washington, tende a empurrar a Europa para mais perto do Mercosul.
— Existe um componente geopolítico. E a forma como os Estados Unidos estão se posicionando em relação à América Latina, que tem toda uma história com a Europa, pode ser um elemento importante para dar um sinal de que, tanto do lado de cá como do lado da Europa, as relações vão se aprofundar através de um acordo comercial — diz Jank.
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Ele acrescenta que, diferentemente da relação com a China, que envolve uma disputa hegemônica explícita com os EUA, o acordo do Mercosul com a UE é mais previsível e negociado há mais de duas décadas.
'Muito vantajoso para a Europa'
Para Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na Alemanha, a instabilidade do sistema internacional já vinha pressionando a Europa a buscar parceiros mais previsíveis, e a ofensiva americana contra a Venezuela só confirmou essa necessidade do bloco.
No caso da Itália, que se uniu à França para impedir a assinatura final do acordo no fim do ano passado, Jaguaribe acredita que a primeira-ministra do país, Giorgia Meloni, sempre soube da importância desse acordo para o país, mas por uma jogada interna ainda não tinha mudado de posição. A resistência inicial visava apaziguar setores internos contrários ao acordo e, ao mesmo tempo, maximizar benefícios políticos e orçamentários dentro da própria UE.
— Ela está disposta a entrar nesse entendimento com o Mercosul, porque é muito vantajoso para a Europa. É uma dos poucos pontos onde a Europa terá uma vantagem efetiva em relação a dois grandes países, que são Estados Unidos e a China, que não têm acesso ao mercado do Mercosul nas mesmas condições — afirma.
Ele continua:
— Vejo esse movimento com naturalidade e espero que ele permita que a sensatez prevaleça, porque a Europa tem demonstrado fragilidade, inclusive dificuldade em sustentar posições tradicionais no campo do direito internacional.