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Economia

Alta da Selic encarece crédito e pressiona inadimplência, dizem especialistas

FolhaPress 18/06/2025 19:46

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ciclo de alta da Selic, iniciado em março de 2021 e mantido nesta quarta (18) pelo Banco Central com a elevação da taxa para 15% ao ano, tem impacto direto nas operações de crédito bancário, reduzindo a oferta de financiamentos, encarecendo os empréstimos e contribuindo para o aumento da inadimplência em diversas modalidades, sobretudo nas linhas voltadas às famílias, segundo analistas ouvidos pela Folha.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A Selic serve de referência para o custo de captação dos bancos e instituições financeiras. Na prática, juros mais altos tornam o crédito mais caro e escasso --tanto para o consumidor que pretende financiar um bem quanto para o empresário que busca capital de giro.

Segundo a Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), a escalada da Selic elevou a taxa de juros média para pessoa física de 92,59% ao ano em janeiro de 2021 para 124,71% ao ano em maio de 2025. Modalidades populares como cartão de crédito rotativo, empréstimo pessoal e cheque especial foram especialmente impactadas.

O rotativo do cartão, por exemplo, atingiu uma taxa média de 448% ao ano, o que levou o governo a implementar um teto de 100% sobre o valor da dívida. Ainda assim, o uso dessas linhas cresceu diante da perda de poder de compra e da dificuldade de acesso a modalidades mais baratas.

SESC PICASSO

"Esses produtos sem garantia, como cartão de crédito e cheque especial, são os que mais sofrem com o aumento da Selic. A inadimplência acaba sendo uma consequência natural desse cenário", afirma Jorge Azevedo, especialista em crédito e riscos.

Cálculos da Anefac mostram tendência de alta dos juros nos últimos 12 meses encerrados em maio com os custos das operações significativamente mais elevados do que a taxa básica de juros da economia.

TAXA BÁSICA X JUROS COBRADOS - PESSOA FÍSICA

Linha de crédito Juros ao ano Variação em relação à Selic

Juros do comércio 87,54% 493,49%

Cartão de crédito 448,01% 2.937,36%

Cheque especial 151,26% 925,49%

Financiamento de veículos 28,32% 92%

Empréstimo pessoal bancos 60,10% 307,46%

Empréstimo pessoal financeiras 130,32% 783,53%

Taxa média 124,71% 745,49%

TAXA BÁSICA X JUROS COBRADOS - PESSOA JURÍDICA

Linha de crédito Juros ao ano Variação em relação à Selic

Capital de giro 25,93% 75,80%

Desconto de duplicatas 25,05% 69,83%

Conta garantida 151,54% 927,39%

Taxa média 59% 300%

Dados da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) mostram que mais de 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes, com forte concentração entre os que ganham até dois salários mínimos.

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No mesmo período, o crédito para empresas, especialmente para capital de giro, também encareceu, e concessão, desacelerou. A taxa média dessas operações passou de 17,8% para 26,9% ao ano.

Caio Tonet, diretor de operações da W1 Capital, afirma que o crédito para capital de giro e antecipação de recebíveis tende a desacelerar ainda mais. Para ele, a manutenção do patamar alto da Selic por meses pode ainda levar a um pico de inadimplência no segundo semestre, pois o custo do crédito se torna insustentável para quem já possui alta alavancagem.

Ele conta que os bancos vêm adotando postura mais conservadora. "Selic alta é o remédio amargo que estamos tendo que tomar por conta de uma política fiscal questionável e inflação fora da meta", diz.

O aperto é sentido com mais força por empresas de médio porte, que, segundo Azevedo, têm estrutura suficiente para não pararem as atividades, mas não possuem o fôlego das grandes corporações nem a flexibilidade dos pequenos empreendedores.

"Empresas médias precisam continuar operando, pagar salários e aluguel. Elas são as mais expostas em cenários de incerteza", diz.

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Para Paula Reis, economista do DataZAP, a alta de 0,25 na Selic tende a impactar o mercado imobiliário, uma vez que o valor da taxa influencia o custo de operações de empréstimos e torna a aquisição do imóvel mais custosa, dificultando o acesso das famílias brasileiras à casa própria.

No setor automotivo, os financiamentos se tornaram menos acessíveis. A exigência de entrada aumentou, os prazos foram reduzidos e os juros subiram. De acordo com a Fenabrave (Federação Nacional Distribuição Veículos Automotores), cerca de 60% das vendas de veículos no país dependem de algum tipo de crédito -e o setor registrou queda de 18% nos financiamentos desde 2022.

Gabriel Jacques, CEO da Ibratan, alerta para o risco dessa desaceleração afetar o ritmo de crescimento da economia e, consequentemente, o mercado de trabalho. "Para o dia a dia, a mensagem é clara: cautela no uso do crédito, priorização das dívidas mais caras e busca por planejamento financeiro para atravessar este período de juros mais altos", afirma.

André Matos, CEO da MA7 Negócios, diz não ter dúvida de que a pressão sobre o consumidor vai aumentar no curto prazo, mas que vê um cenário "bastante otimista e promissor para a economia brasileira", com o PIB, a inflação e as exportações superando as expectativas.

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