Especialistas apontam contradição entre a parceria com Riade e a pressão de Washington contra programas de enriquecimento de urânio em outros países
O acordo de cooperação nuclear anunciado pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita provocou críticas de especialistas e organizações que atuam contra a proliferação de armas atômicas.
A parceria, que poderá durar décadas e movimentar bilhões de dólares, ainda precisa ser analisada pelo Congresso norte-americano. O conteúdo integral do entendimento não foi divulgado.
Entre os principais pontos de preocupação está a possibilidade de a Arábia Saudita enriquecer urânio em território próprio. O governo norte-americano afirma que o programa teria finalidade exclusivamente pacífica, mas especialistas alertam que o domínio dessa tecnologia também pode ampliar a capacidade de desenvolvimento militar no futuro.
Críticas de contradição
Analistas consideram contraditório que o governo de Donald Trump avance em uma parceria nuclear com a Arábia Saudita enquanto pressiona o Irã a interromper o enriquecimento de urânio.
Teerã sustenta que seu programa nuclear possui objetivos civis. Washington, por outro lado, afirma que a atividade representa risco para a segurança regional.
Para o professor de Relações Internacionais Roberto Goulart Menezes, da Universidade de Brasília, o acordo envia um sinal preocupante ao Oriente Médio. Segundo ele, mesmo que a iniciativa comece com finalidade pacífica, não é possível descartar mudanças nos objetivos do programa ao longo dos anos.
Inspeções geram preocupação
Organizações especializadas em controle de armas destacam que a Arábia Saudita ainda não aceitou todas as medidas adicionais de fiscalização defendidas pela Agência Internacional de Energia Atômica.
Um dos pontos discutidos é a adoção de um protocolo que permitiria inspeções mais abrangentes e sem aviso prévio nas instalações nucleares.
Especialistas avaliam que a ausência dessas garantias pode dificultar o acompanhamento internacional das atividades desenvolvidas pelo reino saudita.
A Arábia Saudita é signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, mas autoridades do país já declararam anteriormente que poderiam buscar armamento atômico caso o Irã também desenvolvesse essa capacidade.
Trump condiciona parceria a acordo com Israel
Após críticas do governo israelense, Trump afirmou que a cooperação nuclear estaria condicionada à adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão.
Os acordos promovem a normalização das relações diplomáticas entre países árabes e Israel.
O governo saudita, no entanto, sustenta que uma aproximação formal com Israel dependeria de garantias para a criação de um Estado palestino. Essa condição enfrenta resistência do governo israelense.
Analista vê tentativa de recuperar confiança
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avalia que o acordo também pode representar uma tentativa dos Estados Unidos de recuperar a confiança da Arábia Saudita em sua proteção militar.
As tensões no Oriente Médio e os ataques contra interesses sauditas teriam ampliado as dúvidas de Riade sobre a capacidade de Washington de garantir a segurança do reino.
Na avaliação do especialista, a cooperação nuclear passa a integrar uma estratégia mais ampla de defesa e equilíbrio de poder na região.
Tratamento diferente à Coreia do Sul
O acordo também provocou comparações com a Coreia do Sul, aliada dos Estados Unidos que opera 26 reatores nucleares e busca há anos autorização para enriquecer urânio.
Apesar das tensões com a Coreia do Norte, Washington ainda não concedeu aos sul-coreanos os mesmos direitos que poderão ser oferecidos à Arábia Saudita.
Analistas apontam que essa diferença reforça as acusações de tratamento desigual na política nuclear norte-americana.
Negociações começaram em 2008
Estados Unidos e Arábia Saudita discutem um acordo nuclear civil desde 2008.
As negociações permaneceram travadas durante anos devido a divergências sobre inspeções, enriquecimento de urânio e reprocessamento de combustível nuclear.
As conversas também foram afetadas pelo assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, ocorrido em 2018 no consulado da Arábia Saudita em Istambul. O episódio aumentou a pressão política nos Estados Unidos contra uma aproximação com o governo saudita.
As tratativas avançaram novamente durante o segundo mandato de Trump, com a assinatura de uma declaração conjunta e o anúncio da nova parceria em meio à escalada das tensões no Oriente Médio.
Fonte: Agência Brasil