Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 12h31m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Ação dos EUA contra o PCC: 'Não afeta o Brasil, mas soberania tem de ser respeitada', diz Silva

Estadão Conteúdo 02/07/2026 13:10

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, amenizou o tom sobre as medidas anunciadas pelos Estados Unidos que sancionaram dois brasileiros, três empresas baseadas no Brasil e uma empresa portuguesa por suposta ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). As sanções foram formalizadas nessa quarta-feira, 1°, pelo Departamento do Tesouro americano.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Segundo o ministro, a decisão tomada pelo governo norte-americano de Donald Trump não afeta o Brasil. "Essa designação específica somente produz efeitos no âmbito dos Estados Unidos. Não tem nenhuma repercussão de extraterritorialidade. Todas as nações devem aprofundar e sofisticar os seus mecanismos de combate ao crime organizado, desde que essa soberania do outro País seja respeitada".

A declaração do ministro foi dada após a inauguração do Escritório Nacional Antifacção (ENA), em São Paulo. Esta foi a primeira sanção de Washington contra brasileiros ou empresas do Brasil após o governo Trump classificar facções do País como organizações terroristas.

Logo após a divulgação da sanção, o Ministério da Justiça já havia publicado nota afirmando que a medida dos EUA gerava 'preocupação'.

"A decisão não surpreende o governo brasileiro: trata-se de desdobramento que já se antevia, após a classificação do PCC pelos Estados Unidos como organização terrorista estrangeira. Ainda assim, medidas unilaterais suscitam preocupação, uma vez que podem ser sucedidas por providências ainda mais gravosas, adotadas à margem dos mecanismos ordinários de cooperação internacional", afirmou o ministério.

Na quarta à noite, o ministro avaliou que, mesmo com a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, a medida não altera a estratégia brasileira em relação ao combate ao crime organizado.

SESC PICASSO

"Essas designações, inclusive, foram obtidas com parte de pesquisa feita no Brasil e isto é algo normal das relações entre os Estados. O que não se pode transigir é com nenhuma ranhura da soberania. Fora disso, o Brasil continuará aperfeiçoando seus mecanismos de cooperação policial internacional e também de cooperação judicial", afirmou.

Já o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, disse que os Estados Unidos têm autonomia para definir suas estratégias de combate às facções criminosas. No entanto, isso não pode ultrapassar o limite da soberania brasileira.

"Os Estados Unidos é um País soberano, pode ter a sua autonomia para definir da melhor maneira. A grande questão é respeitar a nossa soberania, respeitar o ordenamento jurídico brasileiro e sempre estaremos à disposição para cooperar com qualquer que seja os países e os organismos que queiram enfrentar o crime organizado", disse.

Primeira sanção dos EUA pós-classificação

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira, 1º, sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado pelo Tesouro como líder do núcleo paulista da rede e elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. De acordo com o comunicado, Shimada teria lavado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos gerados em diversas cidades americanas, utilizando criptomoedas para transferir os valores ao Brasil.

CONTADOR - BONUS

Também foi sancionada Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, descrita como colaboradora próxima de Shimada. A reportagem tenta contato com a defesa dos alvos da sanção.

As medidas também atingem as empresas:

Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda.;

Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda.;

Wave Construções Inteligentes Ltda.;

Avenidas Flutuantes Unipessoal Ltda., sediada em Portugal.

O PCC é apontado pelo governo americano agora como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, com atuação também no Reino Unido, Turquia e Japão.

Segundo o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), o grupo explorava o sistema financeiro dos EUA para lavar recursos provenientes do tráfico de drogas.

Com a decisão, todos os bens e interesses dos alvos sob jurisdição dos EUA ficam bloqueados, e cidadãos e empresas americanas ficam proibidos de realizar transações com eles. A reportagem tenta contato com a defesa das empresas.

Ligação com o futebol

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou ainda que, em janeiro de 2025, Shimada chegou a cumprir prisão domiciliar no Brasil porque a Victory Trading teria sido utilizada para lavar recursos desviados de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Embora o comunicado não cite nominalmente o Corinthians, a empresa de Shimada aparece nas investigações do caso "Vai de Bet", que apura um suposto esquema de desvio e lavagem de dinheiro relacionado ao contrato de patrocínio do clube. Segundo denúncia do Ministério Público paulista, a Victory Trading foi a última empresa pela qual passaram recursos antes do repasse à UJ Football, também investigada no caso.

O Ofac destacou que esta é a terceira rodada de sanções contra o PCC desde 2021 e afirmou que a organização representa uma ameaça crescente à segurança nacional dos EUA devido à sua atuação em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e contrabando de dinheiro em espécie.

O que acontece com os sancionados?

As sanções foram aplicadas com base na legislação americana de combate ao crime organizado transnacional. Na prática, todos os bens e interesses das pessoas e empresas sancionadas que estejam nos Estados Unidos ou sob controle de cidadãos americanos ficam imediatamente bloqueados.

Além disso, cidadãos, empresas e instituições financeiras dos EUA estão proibidos de realizar qualquer tipo de transação com os alvos das medidas.

As restrições também podem atingir empresas e bancos de outros países que mantenham relações comerciais relevantes com os sancionados. Segundo o Departamento do Tesouro, instituições financeiras estrangeiras que facilitarem operações em benefício dos alvos podem ficar sujeitas a sanções secundárias, o que pode restringir seu acesso ao sistema financeiro americano.

As sanções não representam condenação criminal nem equivalem a uma ordem de prisão, mas impõem severas restrições financeiras e comerciais, dificultando operações internacionais, acesso ao dólar e negócios com empresas que mantenham relações com os Estados Unidos.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas