A capital capixaba chega aos 475 anos transformada, mas preservando as marcas de quase cinco séculos de história.
Por Marcelo Rossoni
Vitória completa 475 anos neste 8 de setembro. Para uma cidade, quatro séculos e três quartos representam tempo suficiente para mudar quase tudo — ruas, prédios, costumes, paisagens e até a relação de seus habitantes com o lugar onde vivem. E Vitória mudou muito. Talvez mais do que perceba quem percorre diariamente suas avenidas sem imaginar que boa parte do chão sobre o qual passa simplesmente não existia algumas gerações atrás.
A história que deu origem à capital remonta aos primeiros tempos da colonização do Espírito Santo. Vasco Fernandes Coutinho havia chegado à capitania em 1535, estabelecendo-se inicialmente na região da atual Vila Velha. As dificuldades de defesa daquela ocupação levaram os portugueses a buscar na ilha uma posição mais protegida.
Foi nesse processo que surgiu a Vila da Vitória. O dia 8 de setembro de 1551 ficou registrado como a data oficial de fundação, associado aos confrontos entre colonizadores portugueses e os povos indígenas que ocupavam a região. O nome Vitória nasceu justamente da interpretação dos portugueses sobre o desfecho desses conflitos.
É importante olhar para esse episódio com os olhos de hoje. Durante muito tempo, a história brasileira foi contada quase exclusivamente pela perspectiva dos colonizadores. Do outro lado estavam povos indígenas defendendo territórios que ocupavam muito antes da chegada dos europeus. Reconhecer essa dimensão não altera a data histórica. Apenas permite compreendê-la de maneira mais completa.
A geografia ajudava a explicar a escolha daquele lugar. Cercada pelas águas e protegida por elevações naturais, a ilha oferecia condições de defesa superiores às encontradas na ocupação original. Foi naquele cenário ainda distante de qualquer ideia de cidade moderna que começou a ser desenhada a capital que conhecemos.
Quase cinco séculos depois, algumas testemunhas daquela história continuam de pé.
O Centro de Vitória talvez seja o lugar onde o tempo mais gosta de deixar suas pistas. Basta abandonar por alguns minutos a pressa cotidiana e olhar para cima. Igrejas, escadarias, fachadas e construções antigas aparecem entre edifícios mais recentes como sobreviventes de várias cidades que existiram no mesmo endereço.
O Palácio Anchieta é provavelmente um dos exemplos mais eloquentes. Sua origem remonta ao século XVI, quando começou a ser construído o conjunto jesuíta formado pelo Colégio e pela Igreja de São Tiago. Passaram-se governos, regimes políticos, crises, períodos de prosperidade e dificuldades econômicas, e aquela construção atravessou os séculos até se transformar na sede do Governo do Espírito Santo.
Mas Vitória nunca teve muito espaço sobrando. Apertada entre morros e mar, encontrou uma solução bastante humana para o problema: quando faltou terra, criou-se terra.
Os aterros alteraram radicalmente a fisionomia da ilha, especialmente a partir do século XX. O mar que os antigos moradores enxergavam em determinados pontos foi empurrado para mais longe. Onde existiam águas, surgiram ruas, avenidas e edificações. Áreas inteiras foram incorporadas à cidade. A Vitória contemporânea, portanto, não cresceu apenas para os lados ou para cima. Cresceu também sobre o mar.
Um morador de outras épocas que pudesse retornar hoje talvez reconhecesse os morros, algumas igrejas e determinados contornos da paisagem, mas teria dificuldade para compreender onde foi parar parte da cidade que conheceu.
O desenvolvimento do porto teve papel decisivo nessa transformação. O café ajudou a movimentar a economia capixaba e aproximou Vitória dos grandes circuitos comerciais. Depois vieram outros ciclos, a industrialização ganhou força e o Espírito Santo passou a ocupar posição cada vez mais relevante nas atividades portuária, siderúrgica, mineral e de comércio exterior.
A pequena capital provinciana foi ficando para trás.
Durante décadas, o Centro concentrou praticamente tudo. Era ali que estavam os grandes estabelecimentos comerciais, bancos, cinemas, hotéis, escritórios e repartições públicas. Para muitas gerações de capixabas, ir a Vitória significava, na prática, ir ao Centro. A cidade pulsava naquela região.
Quem viveu aquele período guarda lembranças que não cabem nas fotografias antigas. Lembra das lojas, das vitrines, dos cinemas cheios, dos encontros nas calçadas e de uma época em que as pessoas iam ao Centro não apenas porque precisavam resolver alguma coisa, mas porque aquele era também um lugar de convivência.
A cidade, entretanto, decidiu mudar de endereço.
O crescimento em direção à Praia do Canto, Jardim da Penha, Mata da Praia, Jardim Camburi e outras regiões alterou o eixo econômico e social da capital. A Enseada do Suá recebeu edifícios públicos, empresariais e residenciais. A verticalização avançou rapidamente. Casas deram lugar a prédios e antigas áreas pouco ocupadas passaram a valer cifras que provavelmente espantariam seus primeiros proprietários.
O Centro perdeu parte do protagonismo. Não perdeu, contudo, sua importância histórica. E aí permanece um dos grandes desafios de Vitória aos 475 anos: encontrar uma maneira inteligente de recuperar seu núcleo histórico sem transformá-lo num cenário artificial destinado apenas às fotografias oficiais.
Cidade preservada não é cidade congelada. É cidade ocupada.
Outro símbolo dessa transformação são as pontes. Durante muito tempo, morar numa ilha significava conviver com limitações bastante concretas. Hoje, Vitória faz parte de uma região urbana tão integrada que as divisas municipais muitas vezes desaparecem na rotina das pessoas. Diariamente, milhares chegam da Serra, Vila Velha, Cariacica e de outros municípios. No sentido contrário, outros tantos deixam a capital. Trabalham de um lado, moram do outro, estudam num terceiro município e dificilmente pensam nas fronteiras administrativas enquanto enfrentam o trânsito.
Vitória tornou-se pequena demais para ser compreendida isoladamente. É capital de um Estado, mas também o coração de uma metrópole que ultrapassou há muito os limites da ilha.
Mesmo com tantas transformações, há coisas que resistiram. O mar continua determinando a personalidade da cidade. Os morros permanecem interrompendo avenidas e lembrando aos planejadores urbanos que a geografia tem suas próprias opiniões. O manguezal sobrevive ao avanço urbano. Navios de dimensões impressionantes entram e saem pela baía diante de uma paisagem onde natureza, porto, pontes e edifícios convivem numa proximidade quase improvável.
Há também a Vitória que desapareceu.
Prédios foram demolidos, cinemas fecharam, lojas tradicionais sumiram, antigas residências cederam espaço a edifícios e lugares que fizeram parte da vida de milhares de pessoas sobrevivem apenas na memória. Cada geração possui a sua própria Vitória e costuma acreditar, com alguma razão e muita nostalgia, que a cidade de seu tempo tinha alguma coisa que a atual perdeu.
Talvez tenha perdido mesmo.
As cidades ganham conforto, tecnologia, mobilidade e riqueza, mas frequentemente pagam por isso com pedaços de sua memória. O progresso costuma chegar acompanhado de máquinas, tapumes e projetos arquitetônicos. Quando termina o serviço, nem sempre aquilo que desapareceu pode ser recuperado.
Por isso, um aniversário como este deveria servir para algo além das solenidades, discursos e comemorações oficiais.
Vitória não foi construída somente pelos personagens que ganharam nomes de ruas e monumentos. Sua história também foi escrita pelos povos indígenas que ocupavam este território antes da colonização, pelos africanos escravizados e, posteriormente, por pescadores, comerciantes, trabalhadores portuários, professores, funcionários públicos, empresários, estudantes, donas de casa, vendedores, motoristas e milhares de pessoas anônimas que passaram pela cidade sem deixar seus nomes registrados em placas.
Foram elas que deram vida às ruas.
Em 475 anos, governadores passaram pelo Palácio Anchieta, prefeitos ocuparam a administração municipal, empresas nasceram e desapareceram, fortunas foram construídas, crises vieram e foram embora. O café teve seus dias de glória. O porto cresceu. A indústria chegou. A cidade se verticalizou. O automóvel tomou as ruas. O Centro perdeu moradores e protagonismo. Novos bairros assumiram importância que ninguém poderia imaginar algumas décadas antes.
E Vitória continuou ali.
Talvez seja essa sua característica mais fascinante.
A cidade conseguiu mudar profundamente sem apagar completamente aquilo que foi. Há uma Vitória moderna, verticalizada e apressada convivendo todos os dias com outra, muito mais antiga, escondida nas ladeiras, nas pedras, nas igrejas, nas escadarias e em alguns edifícios que sobreviveram à irresistível vocação brasileira de derrubar o passado para construir alguma coisa no lugar.
Aos 475 anos, Vitória não precisa fingir que resolveu todos os seus problemas. Não resolveu. Tem desafios de mobilidade, ocupação urbana, desigualdade, preservação ambiental, habitação, segurança e revitalização de seu Centro Histórico. Como qualquer cidade viva, carrega virtudes e contradições.
Mas possui algo que não se compra, não se constrói por decreto e nenhum projeto urbanístico consegue fabricar: história.
São 475 anos acumulados entre o mar e as montanhas.
E talvez a melhor maneira de homenagear Vitória neste aniversário seja justamente olhar para ela com mais atenção. Porque por trás da cidade que vemos existe outra, feita de muitas cidades anteriores, algumas ainda visíveis e outras guardadas somente na lembrança de quem teve o privilégio de conhecê-las.
Vitória mudou. Ainda bem.
Mas não mudou a ponto de deixar de ser Vitória.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.