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Vídeo de câmera corporal contradiz relatos de PMs envolvidos em morte de mulher na zona leste

Estadão Conteúdo 10/04/2026 18:29

As imagens gravadas pela câmera corporal de um dos policiais militares envolvidos na morte da Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, na zona leste de São Paulo, contradizem a versão dos dois agentes que atuaram na ocorrência.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Thawanna era mãe de cinco filhos e morreu poucos dias antes de completar 32 anos - seu aniversário seria na última quarta-feira, 8 de abril.

Os soldados Weden Silva e Yasmin Cursino Ferreira discutiram com Thawanna e o marido dela, Luciano Gonçalves Dos Santos, durante uma abordagem policial em Cidade Tiradentes, na madrugada da última sexta-feira, 3.

Após a discussão escalar, a soldado Yasmin desferiu um tiro em Thawanna, que não resistiu aos ferimentos. A dupla de agentes, que alega que a vítima chegou a dar um tapa no rosto da policial militar, foi afastada das operações.

As imagens da câmera corporal foram obtidas pela TV Globo. Pelo registro, é possível notar incongruências entre as imagens e os depoimentos dos dois policiais à Polícia Civil, obtidos pelo Estadão.

'A rua é lugar para você estar andando'

Uma primeira inconsistência foi no início do episódio, antes da abordagem. Segundo o policial Weden Silva, que dirigia a viatura, ele e Yasmin (que estava no banco do passageiro) estavam fazendo uma patrulha, quando passaram pela rua Edimundo Audran e avistaram Thawanna e o marido dela, Luciano.

Conforme o relato de Weden, Luciano teria "se desequilibrado" e atingido o retrovisor da viatura. Segundo consta no registro policial, "equipe retornou para verificar se estava tudo bem com o indivíduo".

SESC PICASSO

As imagens, porém, não mostram Luciano se desequilibrando - é possível apenas ouvir o som do contato do carro com o braço. É possível, ainda, ver que Weden deu ré e disse para o homem: "A rua é lugar para você estar andando, ca...?". Thawanna então responde: "Com todo respeito, vocês que bateram em nós", dando início a uma discussão.

Outra divergência das imagens e os relatos dos policiais está na sequência deste desentendimento. Segundo Weden, Thawanna teria "partido para cima" da policial Yasmin, que já havia desembarcado do carro. Pela câmera, é possível ver, na verdade, a soldado saindo da viatura e caminhando em direção à vítima, que questionava a abordagem.

Conforme o depoimento de Yasmin, Thawanna teria "invadido seu espaço pessoal vindo em seguida a desferir agressões físicas, consistentes em tapas no braço".

Yasmin conta que tentou se defender no começo, usando os braços para bloquear os golpes e afastando a vítima com empurrões, mas que "a agressora continuou avançando, aproximando-se reiteradamente, momento em que desferiu um tapa diretamente no rosto da policial".

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Pelas imagens, não é possível checar se houve uma agressão de Thawanna contra Yasmin - a soldado não portava câmera corporal e, neste momento, o soldado Weden estava atrás da viatura em uma discussão com Luciano. Por alguns segundos, é possível ouvir apenas os gritos da discussão, que são interrompidos com o barulho de um tiro.

Yasmin disse em depoimento que Thawanna estava com estado emocional alterado e a vítima colocou a soldado em "risco concreto à integridade física", incluindo a possibilidade de ter a arma de fogo tomada pela mulher.

Por isso, conforme consta no registro policial com base no depoimento da policial Yasmin, "foi necessário o emprego de força para cessar a agressão e garantir a segurança da equipe e dos envolvidos".

Embora a câmera acoplada à farda de Weden não mostre os detalhes da discussão, é possível ver que Luciano tira a blusa assim que os policiais desembarcam do carro.

No seu depoimento, o marido de Thawanna afirma que ele fez isso para mostrar que não demonstrava risco aos agentes. Ainda conforme as investigações, nenhuma arma também foi encontrada junto da vítima que justificasse o "risco concreto" contra a policial Yasmin.

Em conversa com o Estadão, a advogada Viviane Leme, que representa a família de Thawanna, considera que "a câmera corporal do motorista cai (o depoimento deles) por terra".

Ela classificou a situação como uma "tragédia" e afirma que houve "falta de e empatia" por parte dos policiais militares no episódio. "Nem se fosse um bandido deveria ser feito dessa forma, ainda mais dois trabalhadores".

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"A soldado não teve nenhum tipo de empatia, não era uma ocorrência, as pessoas estavam andando na rua. Quem deu causa, inclusive, foi a viatura que bateu no cotovelo dele (do Luciano). Enfim, uma tragédia que poderia muito bem ter sido evitada se a gente tivesse agentes públicos que realmente estivessem empenhados em trabalhar corretamente", acrescentou a defensora.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o caso é investigado "com prioridade" pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e que as câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos.

Um Inquérito Policial Militar também foi aberto. A Corregedoria da PM também apura o episódio para entender o que aconteceu.

"As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso. Cabe ressaltar que todas as provas, incluindo, além das imagens, os laudos periciais e depoimentos, estão sendo analisadas com rigor", informou a SSP-SP.

O Ministério Público também instaurou, na última segunda, 6, um procedimento para apurar a morte de Thawanna. O processo foi aberto por promotores do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).

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