Rajadas acima de 100 km/h provocaram mortes, apagões e interrupções no transporte; especialistas cobram prevenção, infraestrutura resiliente e educação para riscos
Os fortes ventos que atingiram Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul nos últimos dias expuseram novamente a vulnerabilidade das cidades brasileiras diante de eventos climáticos extremos.
As rajadas ultrapassaram 100 quilômetros por hora, provocaram mortes, quedas de árvores, interrupções no fornecimento de energia e transtornos nos sistemas de transporte público.
Para especialistas em clima e meio ambiente, os episódios mostram que a resposta dos municípios ainda é predominantemente reativa e pouco preparada para reduzir os impactos antes que as emergências aconteçam.
A preocupação aumenta diante da previsão de influência do El Niño ao longo do segundo semestre, com possibilidade de chuvas excessivas, secas severas e ondas de calor em diferentes regiões do país.
O professor de Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista, Pedro Torres, avalia que as políticas de adaptação precisam ser tratadas com a mesma urgência dos próprios eventos extremos.
“Eventos extremos vão acontecer cada vez mais e com mais intensidade. Não se trata apenas de ter um melhor alerta. O desafio agora é construir cidades mais resilientes”, afirmou.
Especialistas defendem que a gestão de riscos seja organizada em três frentes: prevenção, resposta durante a emergência e recuperação após o desastre.
A emissão de alertas meteorológicos é considerada importante, mas insuficiente quando as cidades não possuem infraestrutura adequada, protocolos claros e equipes preparadas para proteger a população.
No Rio de Janeiro, avisos sobre a possibilidade de rajadas foram emitidos pouco antes do vendaval de quarta-feira (29). O Sistema Alerta Rio divulgou uma comunicação às 14h15, enquanto a Defesa Civil estadual informou que um alerta regional foi emitido às 15h30.
A rapidez da formação do fenômeno trouxe margem de incerteza para a meteorologia, mas especialistas afirmam que isso não pode justificar a falta de preparação urbana.
A avaliação é de que o principal ponto não está apenas na capacidade de prever a velocidade exata do vento, mas na forma como a cidade responde quando o risco é identificado.
Entre as medidas consideradas necessárias estão o manejo preventivo das árvores, a modernização das redes elétricas, a atualização dos mapas de risco e a revisão dos planos municipais de adaptação climática.
Também é defendida a inclusão de análises de risco climático em projetos de infraestrutura e obras públicas, para que novas intervenções urbanas sejam planejadas considerando eventos extremos.
As concessionárias responsáveis por serviços essenciais, como energia elétrica, também deveriam manter planos de prevenção, mitigação e resposta a desastres, segundo os especialistas.
Uma das propostas é a criação de abrigos climáticos, espaços preparados para receber a população durante ventanias, ondas de calor, enchentes e outros eventos severos.
Esses locais poderiam funcionar em equipamentos públicos já existentes, como escolas, centros comunitários e espaços culturais, desde que adaptados e incluídos nos planos de emergência.
Além da infraestrutura, pesquisadores destacam a necessidade de ampliar a educação para o risco. A população precisa saber como interpretar alertas e como agir diante de ventos fortes, inundações, incêndios e ondas de calor.
A proposta inclui campanhas permanentes, atividades nas escolas, treinamentos comunitários e simulados de emergência, seguindo modelos utilizados em países frequentemente atingidos por desastres naturais.
Para os especialistas, a prevenção deve integrar o cotidiano das cidades e não ser adotada apenas depois de tragédias. A combinação de planejamento urbano, comunicação eficiente, infraestrutura resistente e educação pode reduzir danos e salvar vidas diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes.