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Uso de antibióticos nos primeiros anos de vida pode aumentar risco de alergias na vida adulta, diz estudo

FolhaPress 28/07/2024 10:24

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O uso excessivo de antibióticos na infância pode provocar um maior risco de desenvolver alergias na fase adulta, revela um estudo experimental conduzido na Austrália.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em um artigo publicado no último dia 15 na revista científica Immunity, pesquisadores da Universidade de Monash, na Austrália, indicam que a o uso frequente dessas medicações provoca uma desregulação das bactérias intestinais, interrompendo a produção de IPA (ácido indol-3-propiônico). Esta substância ajuda a prevenir quadros alérgicos.

O modelo foi testado em camundongos em laboratório. Ao receberem doses contínuas de antibióticos na infância, os roedores se tornaram adultos mais suscetíveis à alergia a ácaros na poeira doméstica. Essa suscetibilidade foi mantida mesmo depois da normalização da microbiota intestinal, desregulada pelo uso exacerbado dos medicamentos.

Os cientistas também constataram que a disbiose diminuiu os níveis de IPA, mas a boa notícia é que, ao isolar a substância e suplementá-la em animais jovens, foi possível protegê-los de inflamações alérgicas na idade adulta.

Por ser feita em camundongos, a pesquisa ainda não oferece conclusões categóricas sobre o modo como antibióticos levam a alergias respiratórias, nem apresenta uma nova forma de tratamento comprovada em humanos, mas traz hipóteses relevantes, explica o médico Fábio Motta, vice-diretor de qualidade e pesquisa clínica do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.

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No dia a dia do consultório, muitos médicos já notavam a relação entre o abuso de antibióticos e o surgimento de alergias, mas faltava um estudo que conseguisse desvendar um pouco melhor esse mecanismo em laboratório, diz a pediatra, alergista e imunologista Mariana de Gouveia Pereira Pimentel, do Instituto Pensi (Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil).

Não é por acaso que a associação entre alergia e disbiose é investigada por cientistas. A microbiota intestinal reúne trilhões de microrganismos fundamentais ao metabolismo humano e ao sistema imunológico, e calcula-se que 70% das células imunes estão presentes no intestino, diz o alergista Alex Lacerda, da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Ao interferir nesse complexo, matando bactérias desnecessariamente, o uso frequente e inadequado de antibióticos coloca em risco uma dinâmica indispensável ao funcionamento do corpo.

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Mas as disbioses intestinais e o aumento da suscetibilidade a alergias não são os únicos riscos do uso excessivo medicamentos, lembra a alergista imunologista Raisa Borges de Castro, do Hospital Sírio-Libanês em Brasília. O consumo inadequado da medicação também pode levar à resistência bacteriana, tornando as infecções mais difíceis de serem tratadas.

O próprio criador da penicilina, Alexander Fleming, alertou sobre esse perigo em seu discurso quando recebeu o prêmio Nobel de Medicina, em 1945. Segundo o biólogo britânico, a banalização do uso poderia fortalecer bactérias a nível global, levando a um problema de saúde pública.

Mais recentemente, em 2022, um relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) mostrou que os óbitos associados à resistência antibacteriana chegaram a 4,95 milhões em 2019 e poderão atingir 10 milhões em 2050, alcançando a mesma quantidade de mortes por câncer registradas em 2020.

Foi pensando nesses riscos que a OMS criou em 2015 o Plano de Ação Global em Resistência a Antimicrobianos, com o objetivo de assegurar a capacidade de tratar e prevenir doenças infecciosas por meio do uso responsável de medicamentos e outras tecnologias em saúde.

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No Brasil, desde 2010 a venda de antibióticos só pode ser feita mediante receita médica, seguindo uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no intuito de minimizar a elevação da resistência bacteriana no país.

Além disso, cada vez mais instituições de saúde têm criado protocolos internos para gerenciar o uso de antibióticos de modo inteligente. É o caso do Pequeno Príncipe, que lançou o Programa de Stewardship de Antimicrobianos e oferece formações sobre o tema a hospitais de várias regiões do Brasil.

Mas, além de aprimorar o olhar de profissionais da saúde para a questão, especialistas defendem que é preciso ainda conscientizar a população sobre o problema.

"A criança, por exemplo, deve receber acompanhamento médico contínuo, para que o profissional de saúde que vai atendê-las conheça seu histórico e saiba identificar com mais facilidade se uma condição é mesmo bacteriana e realmente demanda antibiótico", diz a pediatra do Instituto Pensi. "Essa medicação é importante e foi um divisor de águas na medicina, mas precisa ser usada com a máxima cautela", reforça.

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