Fundada em 29 de janeiro de 1972, a Unidos de Jucutuquara construiu uma das trajetórias mais sólidas e vitoriosas do Carnaval de Vitória. Para 2026, a escola retorna ao Sambão do Povo com um enredo de forte carga simbólica e espiritual, que coloca o feminino no centro da narrativa e reafirma o carnaval como espaço de fé, identidade e resistência cultural.
Sob a presidência de Ewerton Fernandes e com criação do carnavalesco Marcelo Braga, a agremiação apresenta o enredo “Arreda Homem Que Aí Vem Mulher”, inspirado na figura de Maria Padilha. A entidade é apresentada não como personagem estática, mas como força viva das encruzilhadas, dos caminhos e das passagens — presença que atravessa tempos, territórios e imaginários populares.
A história da Jucutuquara começa como bloco carnavalesco, formado na casa de Maria da Glória, a partir da iniciativa de Mestre Ditão e de outros moradores do bairro. Nos primeiros anos, o cortejo era composto apenas por homens, que desfilavam de tamancos. Com o tempo, a escola incorporou novas fantasias, abriu espaço para a participação feminina e fortaleceu sua identidade popular, marcada pela diversidade e pela força coletiva.
A consolidação veio nos anos 1980, quando a agremiação passou a disputar os concursos oficiais do carnaval de Vitória. Em 1986, transformou-se oficialmente em escola de samba e, logo na estreia, conquistou o título do Segundo Grupo. No ano seguinte, já figurava entre as grandes, alcançando o vice-campeonato no Grupo Especial.
A partir da década de 1990, a Unidos de Jucutuquara acumulou conquistas expressivas, incluindo títulos em 1990, 2002 e 2004, além de um feito histórico entre 2006 e 2009, quando se tornou tetracampeã consecutiva do Carnaval de Vitória. O período consolidou a escola como referência artística e competitiva no cenário capixaba.
Em 2026, o enredo propõe uma leitura simbólica do feminino como potência espiritual, política e cultural. Maria Padilha surge como entidade que não se limita a uma origem única, mas se manifesta por meio de gestos, rituais e cantos, sendo constantemente ressignificada pelas comunidades que a cultuam. A narrativa dialoga com a ancestralidade afro-brasileira e com a trajetória de mulheres que romperam silêncios, ocuparam espaços e escreveram suas próprias histórias.
Ao levar essa temática para a avenida, a Jucutuquara transforma o desfile em uma grande encruzilhada simbólica, onde tradição, espiritualidade e espetáculo se encontram. O samba, a dança e a estética do desfile reforçam a ideia do carnaval como território legítimo de expressão da fé, da memória coletiva e da resistência cultural.
“Antes do mito, fui carne
Antes da reza, fui mulher
Fui coroa arrancada
Mas jamais deixei de ser rainha”
Fonte: PMV