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'Uma pessoa derruba uma escola': a importância de saber sambar no Carnaval

FolhaPress 19/01/2024 10:54

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Não basta mais só estar na Avenida, tem que saber fazer. A cada ano, a cobrança para que os destaques do Carnaval tenham um samba bonito aumenta.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Os irmãos e professores de samba Marcus Prado e Victor Alonzo têm um lema: aprimorar. "Nós trabalhamos com quem não sabe nada, e trabalhamos com quem sabe tudo. Quer dizer, quem não sabe nada está aprendendo, e quem sabe tudo está aprimorando", explicou Victor em entrevista ao UOL.

"O samba é para todos, não importa a idade, raça, gênero, altura, nada. Qualquer ser humano que estiver a fim de aprender ou quiser aprimorar é capaz", complementa Marcus.

Ao lado da irmã, eles ensinam samba desde 2016 e já deram aula para famosas como Sabrina Sato, Erika Januza, Rafa Kalimann, Thaila Ayala, entre outros. "Chega a época do Carnaval, a Sabrina [Sato] perturba a nossa vida, porque a agenda dela é louca. A gente começa a aula meia-noite, às vezes 1h30 [estamos] chegando na casa dela", explica Marcus.

O SAMBA TAMBÉM TEM SUAS REGRAS

"Assim como outras danças têm suas regras, o samba também tem suas regras. Não é porque é uma dança solo, preta, de origem de terreiro, que pode ser tratada de qualquer jeito", disse Victor Alonzo

SESC PICASSO

Os professores têm notado uma maior preocupação das pessoas em saberem sambar - e relacionam isso às redes sociais. Afinal, sambar de "qualquer jeito" pode fazer alguém ser "cancelado". "Eles estão preocupados com o que a rede social vai dizer [...] Mas, ao mesmo tempo, está sendo bom, porque está obrigando algumas pessoas a entender que [o Carnaval] pode ser um comércio, sim, mas a gente tem que respeitar".

Quem concorda com isso é Mayara Lima, professora de samba desde 2016 e atual rainha de bateria da Paraíso do Tuiuti. Ela era princesa e foi promovida ao cargo de rainha após viralizar com sua sincronia perfeita com os ritmistas em 2022. "De uns tempos para cá, ficou mais evidente, [que as pessoas têm se preocupado em saber sambar]. Meninas que sabem sambar, com a ajuda da internet, conseguem se mostrar mais. Com isso, há essa necessidade de buscar também esse conhecimento".

CARNAVAL NÃO É BRINCADEIRA

Os professores comentam que o samba de hoje é mais "elegante", com mais técnica e mais "sofisticado". Os desfiles, de maneira geral, estão mais quadrados. "Diferentemente de tudo que a gente sempre viu nos anos 2000, nos anos 90, que era uma coisa mais pé no chão, uma coisa mais enérgica", diz Victor.

CONTADOR - BONUS

Tudo isso reforça a importância de saber o que se está fazendo ao pisar na Avenida. "O Carnaval não é brincadeira. Para alguns pode ser, mas para a gente que vive Carnaval, a gente sabe que é uma competição e é uma competição muito importante. A escola se prepara o ano inteiro. É uma coisa muito séria, é como se fosse as Olimpíadas. A gente espera o ano inteiro para aquele momento, para chegar lá e fazer o melhor e ser campeão".

"Por conta de uma pessoa, às vezes todo o trabalho de um ano inteiro pode ser destruído. A gente fala claramente [para as alunas]: 'Toma cuidado, porque se você não tiver uma boa evolução, você pode não ser quesito, mas você tira ponto e derruba uma escola", disse Victor Alonzo.

Parece exagero, mas os resultados do Carnaval, especialmente em São Paulo, estão cada vez mais apertados. No ano passado, a diferença da campeã Mocidade Alegre para as rebaixadas Unidos de Vila Maria e Estrela do Terceiro Milênio não chegou a 1 ponto: foi de 270,0 a 269,1, respectivamente. As duas últimas empataram.

QUERO APRENDER, QUANTO VOU GASTAR?

Marcus e Victor disponibilizam um aulão às segundas-feiras, com valor popular: R$ 20 por pessoa. Mas é preciso ir sabendo o básico. "Mesmo estando em três professores, a gente não consegue ensinar a pessoa do zero. A gente consegue ir por cima, porque a atenção tem que ser igual para todo mundo".

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Já a aula particular custa em torno de R$ 80 a R$ 100, e quem faz duas vezes na semana tem desconto. No entanto, obviamente, os preços sobem quando o Carnaval se aproxima - a alta temporada tem início em novembro.

"A procura é sempre maior no carnaval. Vêm muitos gringos para cá, e, consequentemente, a procura [pelas aulas] aumenta muito mais", diz Mayara, que cobra R$ 300 pela aula particular.

A Rainha da Tuiuti destaca que uma aula por semana é pouco. "Você não vai fazer firula... Não, você vai, no mínimo, dar uma sambadinha tirando o pé do chão, porque uma aula por semana faz quem já sabe sambar, quem já é passista. [O tempo para aprender] é muito relativo, porque cada pessoa é uma pessoa".

Ela usa uma aluna brasileira que mora em Londres como exemplo. "Ela realmente é o meu maior orgulho. Ela mora lá em Londres e começou a sambar comigo na pandemia, então a gente tem mais ou menos 3 anos fazendo aula e a melhora dela é surreal. Ela melhorou muito, muito mesmo. Mas assim, sem pressa, sabe? Ela só se entregou.

"Para ela foi bom mentalmente, fisicamente. E consequentemente a dança melhora muito. Mas o samba também tem disso, de trabalhar o seu físico, a sua mente... De curar, na verdade", disse Mayara Lima.

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