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Traidor de Jesus, Judas permanece um mistério

FolhaPress 29/03/2024 09:35

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Embora seja um personagem essencial para a história de Jesus, Judas Iscariotes, o apóstolo traidor, continua sendo um grande mistério. Os únicos dados mais ou menos seguros a respeito dele, do ponto de vista histórico, é que ele era um dos principais seguidores de Cristo e ajudou as autoridades de Jerusalém a prendê-lo. Todo o resto --inclusive o "sobrenome" ou alcunha de Iscariotes-- é objeto de debates intermináveis.

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A existência histórica de Judas, sua proximidade com Jesus e a traição que cometeu são elementos vistos como historicamente plausíveis porque se encaixam bem num dos principais critérios usados por especialistas para analisar os textos sobre Jesus. Trata-se do chamado critério do constrangimento, segundo o qual os autores dos Evangelhos bíblicos não se dariam ao trabalho de inventar uma informação que poderia ser causa de embaraço para a fé em Jesus.

No caso de Judas, alguém mais cético poderia questionar o porquê de Jesus tê-lo escolhido como membro do grupo dos doze apóstolos, considerando que, mais tarde, ele acabou por trair seu mestre --o que lançaria dúvidas sobre a sabedoria de Jesus. "Não parece legítimo duvidar da intervenção de Judas. Na comunidade cristã não se teria inventado semelhante traição protagonizada por um dos Doze", escreve o padre e biblista espanhol José Antonio Pagola no livro "Jesus: Aproximação Histórica".

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Todos os Evangelhos chamam o discípulo de Judas Iscariotes, com exceção do Evangelho de João, que atribui o segundo nome ao pai dele, designando-o, portanto, como "Judas, filho de Simão Iscariotes". As possíveis interpretações da palavra são inúmeras: há quem a associe a termos em aramaico que significam "mentir" ou "trair" (o que, é claro, parece suspeitamente profético), a um suposto cabelo ruivo do apóstolo ou a um ofício que envolvia mexer com tintas ou frutas.

A hipótese mais popular, porém, diz que Iscariotes seria uma corruptela da expressão hebraica "ish qeriyyot", ou "homem de Cariot", que seria uma cidade da Judeia. "Isso faria de Judas o único membro dos Doze claramente oriundo da Judeia, e não da Galileia --portanto, um 'estranho' no círculo", escreve o historiador americano John P. Meier (1942-2022) no volume três de "Um Judeu Marginal", sua série de livros sobre o Jesus histórico. O problema é que ninguém tem certeza se Cariot existiu mesmo, ou se ainda existia no século 1º d.C.

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Meier também destaca as diferenças entre os evangelistas na hora de descrever as motivações para a traição praticada por Judas. O mais antigo desses textos no Novo Testamento bíblico, o Evangelho de Marcos, de início não menciona uma razão para o ato, e só fala do pagamento que seria dado pelas autoridades judaicas a Iscariotes depois que ele se oferece para denunciar Jesus.

Já o Evangelho de Mateus mostra Judas sendo ganancioso e perguntando aos chefes dos sacerdotes de Jerusalém: "O que me dareis se eu o entregar?". É aí que surgem as célebres "30 moedas de prata", normalmente associadas ao preço de um escravo no antigo Israel.

Por fim, os Evangelhos de Lucas e João também falam da avidez do traidor por dinheiro --em João, afirma-se que Judas era o tesoureiro dos apóstolos e desviava fundos da comunidade para o seu bolso--, mas afirmam ainda que Iscariotes agiu por influência demoníaca. "Depois do pão [consumido na Santa Ceia, a última refeição de Jesus], entrou nele Satanás", diz o texto de João, por exemplo.

Seja como for, ao que parece a traição de Judas consistiu em indicar aos perseguidores de Jesus onde o Nazareno e seus discípulos estavam passando a noite, permitindo que ele fosse capturado. Segundo a tradição, ele teria beijado seu mestre para mostrar aos soldados quem eles deveriam prender.

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Os textos bíblicos também divergem sobre a morte infame de Judas. No Evangelho de Mateus, o ex-apóstolo se arrepende, devolve as moedas de prata e se enforca. Já nos Atos dos Apóstolos, livro bíblico escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas, afirma-se que o traidor, depois de comprar um terreno com o dinheiro "manchado de sangue", teria sofrido uma queda e rasgado o corpo ao meio, "derramando-se todas as suas entranhas". Por isso o local da morte teria ficado conhecido como Hacéldama, ou "Campo de Sangue".

Cerca de um século após a escrita dos primeiros Evangelhos, por volta de 170 d.C., cristãos gnósticos --que acreditavam que o Deus do Antigo Testamento era mau-- escreveram o chamado Evangelho de Judas. Cheio de ensinamentos místicos e com uma teologia complexa, o texto é de difícil interpretação. Mas uma das visões sobre ele é que ele exaltaria Iscariotes como o mais importante dos apóstolos. "Superarás todos eles, porque sacrificarás o homem que me veste", diz Jesus a Judas na obra. O consenso entre os estudiosos, porém, é que esse evangelho apócrifo (não oficial) não traz nenhuma informação historicamente confiável sobre a relação entre Cristo e Judas.

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