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Tragédia ambiental destrói casas, vinícola e plantações no interior do RS

FolhaPress 09/06/2024 14:33

SANTA MARIA E SILVEIRA MARTINS, RS (FOLHAPRESS) - Cada momento da tragédia vivida com as chuvas no Rio Grande do Sul está marcado na memória do enólogo Rafael Torri, 38. No início de maio, as duas casas e a vinícola da família desmoronaram em uma propriedade rural da localidade de Val Feltrina, no município gaúcho de Silveira Martins (a 290 km de Porto Alegre).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Na primeira noite, estava ali na frente e, a cada vez que escutava um 'plim', pensava: 'caiu alguma coisa, perdi tal coisa'", lembra.

Segundo Torri, as construções caíram com a movimentação do solo em meio a fortes chuvas na região. Pouco mais de um mês após a tragédia ambiental, a família tenta salvar equipamentos para construir uma nova sede para a vinícola em outra área. As casas também serão mudadas de endereço.

Silveira Martins tem 2.028 habitantes e fica ao lado de Santa Maria, a quinta cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, com 271,7 mil moradores.

"Garanto que, no futuro, a gente vai vir seguidamente aqui e ver alguma coisa que foi nossa, um barbeador, algum instrumento musical", afirma Torri diante dos escombros de uma das moradias.

Casos como o do enólogo se repetem no interior do estado. Após as fortes chuvas do início de maio, famílias afetadas tentam salvar o que restou das propriedades ou reconstruir o que ainda é possível.

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No caso dos Torri, o prejuízo total estimado é de R$ 1,2 milhão a R$ 1,3 milhão. O enólogo toca a vinícola da família, chamada Vinhos Val Feltrina, com o apoio dos pais -não há funcionários.

Antes da tragédia, a empresa fabricava em torno de 30 mil litros de suco de uva e 20 mil litros de vinho por ano. O plano é reduzir a produção, que deve ser direcionada apenas para os vinhos, quando as atividades forem retomadas.

De acordo com Torri, o preparo do suco requer maquinário mais tecnológico, e esse mercado está mais saturado. O enólogo entende que o pequeno produtor precisará de crédito subsidiado para enfrentar a crise.

Enquanto a ajuda não chega, a família conta com a solidariedade de pessoas que fizeram doações nas últimas semanas. Torri afirma que, inicialmente, até relutava em aceitar o auxílio via Pix, mas mudou de opinião devido à gravidade da situação.

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"Depois de um tempo, a gente perde o orgulho, até porque a gente perdeu praticamente tudo."

No distrito vizinho de Arroio Grande, em Santa Maria, as fortes chuvas elevaram o nível de arroios no mês passado. A propriedade da família do aposentado Luiz Fernando Noal, 65, foi atingida.

A água chegou até a janela da casa onde a mãe dele vivia e também derrubou um moinho que, no passado, produzia farinha de milho. A enchente ainda levou montes de areia para o endereço.

"A gente vê mesa e outros materiais indo embora sem poder fazer nada, mas a gente está bem. O maior culpado disso tudo é o homem", diz Noal, que mora na cidade de Santa Maria.

Com o trauma, ele levou sua mãe para viver longe da propriedade rural. "Ela tem 90 anos. Sem condições de ficar aqui", diz.

Após a enchente, Noal passou a limpar a propriedade e já refez parte das estruturas danificadas, como as cercas. A limpeza e os consertos, contudo, só devem ser concluídos no final deste ano, segundo ele.

Na terra de Adalmir Noal, 76, seu primo, as fortes chuvas comprometeram cerca de 50% da produção de arroz, que é cultivada em 20 hectares.

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"Para reverter o prejuízo, a gente vai levar uns cinco anos", diz o agricultor, que tinha a ajuda do filho para fazer consertos na propriedade durante a manhã deste sábado (8).

Também em Arroio Grande, o comerciante Edson Ângelo Del Fabro, 60, amargou queda no número de clientes em seu bar e armazém nas últimas semanas.

A baixa esteve associada a gargalos logísticos criados pelas fortes chuvas, como os estragos em pontes da região. "Ficamos praticamente ilhados", conta Del Fabro.

Ele espera uma melhora no quadro em breve, já que a infraestrutura local passou por reconstrução. O comerciante aposta no retorno de ciclistas que costumavam circular por Arroio Grande.

"Tem aqueles que vêm [da região central] de Santa Maria, passam aqui e param para tomar um refri, uma água", diz.

Conforme relatório recente do governo estadual, o Rio Grande do Sul teve em torno de 206 mil propriedades rurais afetadas pelas chuvas desde o final de abril.

O cálculo abrange perdas na produção e na infraestrutura com inundações e deslizamentos. Ainda de acordo com o documento, 34,5 mil famílias ficaram sem acesso à água potável no meio rural.

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