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Tiago Mestre reflete sobre deslocamento e memória com obras de cerâmica

FolhaPress 21/07/2025 10:35

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma viga de aço de 12 metros cruza toda a galeria. Acima dela, estão dispostos objetos de cerâmica —garrafas, tigelas, canecas, cântaros. Ao se aproximar, o espectador percebe o que torna cada um deles únicos —todos estão amassados, como se tivessem levado uma pancada ou caído no chão enquanto secavam.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As esculturas, criadas pelo artista português Tiago Mestre, também estão espalhadas pelo chão, e acima, presas a um bambu, há objetos como correntes, palmas de uma mão e uma máscara.

Arquiteto por formação, Mestre já realizou inúmeras mostras em cidades como Londres, Bruxelas, Munique e Lisboa. Agora, compõe o Panorama de Arte Contemporânea Portuguesa, em cartaz até 12 de outubro em Porto.

A exposição em São Paulo sintetiza seus principais interesses, composta por elementos que refletem seu "arquivo de memórias afetivas" e a vivência no Brasil como estrangeiro. "Queria falar do jeito que nós, como indivíduos e como um coletivo, nos ocupamos de contar a nossa história", diz.

Com os defeitos, os instrumentos de cerâmica perdem a função utilitária, mas o que interessa, diz o artista, não é a perfeição, e sim o movimento de constituição e destituição.

Numa parede, estão expostas esculturas que à primeira vista lembram notas musicais ou cobras, mas Mestre as idealizou como cachimbos, algo aéreo e fluido, como a fumaça que sairia deles. O artista conta que eles foram inspirados por uma descoberta numa residência artística em Londres. O leito do Tâmisa, que cruza a cidade, é repleto desses objetos, descartados séculos atrás.

SESC PICASSO

Para criar os utensílios de beber e comer, Mestre procurou referências no artesanato popular português dos séculos 19 e 20. Mas a cerâmica sempre ocupou um espaço de afeto, já que ele cresceu entre as olarias do sul de Portugal —ele nasceu perto de Alentejo, cidade conhecida como capital da cerâmica portuguesa.

A verve arquitetônica da mostra é uma "reflexão de como habitar o mundo", nas palavras do artista, que pediu à galeria para remover uma parede que separava o espaço expositivo da janela do edifício —as obras agora podem ser vistas do lado de fora, uma vitrine de arte em confronto com as mazelas da rua.

CONTADOR - BONUS

A ideia, afirma o artista, é criar polifonia. "Queria muitas vozes, cada uma se contaminando um pouco. Às vezes cantando juntas, outras vezes sussurrando individualmente. Mas todas em relação."

Ele diz acreditar que a dissonância é algo produtivio. São muitos contrastes numa única sala de sua exposição, a exemplo de uma viga de aço, símbolo do crescimento vertical desenfreado urbano, em contrasta com o bambu, usado em construções mais modestas, muitas vezes fora de grandes cidades.

FOGO FUMO

- Quando De seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h. Até 9/8

- Onde Galeria Gomide&Co - av. Paulista, 2644, São Paulo

- Preço Grátis

- Autoria Tiago Mestre

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