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'Tempo de Guerra' é contraditório ao criticar e fetichizar o conflito

FolhaPress 15/04/2025 13:28

FOLHAPRESS - A guerra parece um detalhe no filme "Tempo de Guerra", o que soa contraditório diante de uma premissa tão direta ao ponto. A trama do longa acontece em tempo real, o que significa que o público vê o desenrolar completo de uma operação militar americana na ocupação do Iraque nos anos 2000.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A proposta tem um quê ousado, mesmo que a sua lógica perca em ineditismo. Filmes como "Dunkirk", de 2017, e "1917", de 2019, brincaram com conceitos parecidos, e o gênero mesmo já está desgastado depois de tantas reinvenções do tipo. Por isso mesmo, pontos à produção por conseguir interesse em algo tão compacto.

Mas o que impressiona mesmo na produção de Alex Garland e Ray Mendoza é o quanto do conflito ele está disposto a deixar em segundo plano. O contexto da guerra ao terror do governo Bush poderia ser qualquer outro na história, assim como a origem dos soldados que emboscam a tropa americana.

Dos tiroteios só ouvimos as balas zunindo, mesmo quando bombas, tanques e jatos dos Estados Unidos aparecem. Já entre os corpos e feridos vemos apenas os soldados da operação. A ação está tão condicionada àquela equipe específica que a sensação de claustrofobia pinta no espectador tão logo o filme começa.

SESC PICASSO

Parece pouco, mas isso fica em evidência diante da origem da história. Mendoza foi um dos sobreviventes da missão retratada no filme, trabalhando com Garland para reconstruir o evento nas telonas. A produção é cuidadosa com os fatos, o que só aumenta o estranhamento —e fascínio— sobre o quão vago ele se torna nos seus entornos.

Então o filme trata de quê? A tradução do título para o português prejudica um tanto a compreensão do jogo. "Tempo de Guerra" é um título esperto, mas o original, "Warfare", ou "estado de guerra", reforça que a missão daqueles soldados é temporária, com um tempo próprio e nada ordinário.

Este estado dá nome a todo o suspense da trama. Ele começa na invasão silenciosa da tropa a uma casa de dois andares qualquer, onde monta a sua operação; prossegue na vigilância paciente da vizinhança, em que os militares monitoram possíveis ameaças, e termina no conflito, com os americanos acuados diante da ofensiva do inimigo, que os encurralam na moradia.

A tensão muda de configuração a cada novo avanço da história, mas no geral é a mesma —a da espera, da indecisão. Uma hora, vemos um soldado exausto pelas horas de vigilância, esticando as costas e mascando tabaco. Pouco depois, com o tiroteio já em progresso, o aguardo do socorro médico é mais nervoso que os gritos incessantes de dor dos feridos.

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Nesse tempo doido, os personagens navegam alheios, o que é terrível quando se está encurralado em um confronto armado. "Tempo de Guerra" soa nas melhores horas como o primeiro filme de guerra dedicado exclusivamente ao estresse pós-traumático dos soldados. O bom elenco liderado por Will Poulter transparece as feridas psicológicas criadas em meio à emboscada.

Mas o filme intriga mesmo pelo propósito do suspense. Os diretores parecem concordar na velha máxima dos danos da guerra, só que a obra oscila entre a recriação e a crítica mais direta ao assunto.

Com Garland, por exemplo, "Tempo de Guerra" se alinha com os seus outros trabalhos, em especial o antecessor "Guerra Civil", pelos poucos detalhes que surgem sobre a operação. O público nunca entende os pormenores, o que reforça que o sacrifício da tropa está a serviço da política de guerra esvaziada do governo da época.

Há ainda a cena em que um soldado orienta o outro a fingir autoridade no rádio e a ordenar o resgate médico apenas porque a burocracia do outro lado tenta bloquear o pedido. Uma cena desesperadora pelo nível de automatismo da conversa.

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Ao mesmo tempo, o thriller toma o seu tempo para registrar as perdas da missão, sempre se aproveitando das jogadas estéticas que encena para a história. As simulações de surdez e de confusão mental dos soldados, após bombardeios inimigos e rasantes de jatos aliados, devem somar bons 15 minutos dentro da duração curta de 90.

Esse cuidado também lembra a carreira de Garland, mas tem mais a ver com a fidelidade do longa aos rituais militares. Essa obsessão se encaixa com o histórico militar de Mendoza, que dá cor ao modo de agir quase mecânico dos soldados durante as táticas de campo.

Então o filme tem uma voz firme contra a guerra, mas não se furta de certo fetiche pelas operações. A contradição faz bem a "Tempo de Guerra", até porque traz dimensão humana ao exercício narrativo. A obsessão com o tempo é o de menos perto do apuro daqueles homens, e o thriller funciona mesmo ao acessar o turbilhão emocional do momento.

TEMPO DE GUERRA

- Avaliação Bom

- Quando Estreia nesta quinta (17), nos cinemas

- Elenco D'Pharaoh Woon-A-Tai, Will Poulter e Cosmo Jarvis

- Produção Estados Unidos, Reino Unido, 2025

- Direção Alex Garland e Ray Mendoza

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